Delegacia da Mulher registra aumento da violência em Goiânia, por Greyce Lara Pereira/Faculdades Alves Faria - Alfa

Delegacia da Mulher registra aumento da violência em Goiânia, por Greyce Lara Pereira/Faculdades Alves Faria - Alfa

Atualizado em 24/03/2005 às 10:03, por Greyce Lara Pereira/Estudante de Jornalismo - Alfa.

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A cada uma hora e vinte minutos uma mulher é vítima de violência em Goiânia. Somente no segundo semestre de 2004, a Delegacia da Mulher registrou 4074 casos de agressões e crimes contra as mulheres. A Delegacia da Mulher informou que os crimes não se resumem as agressões físicas, mas por diversos tipos de desrespeitos aos direitos femininos.

Nos primeiros dois meses deste ano, a média se manteve em torno de 400 ocorrências por dia. A queda pode ser explicada em virtude do fim dos períodos festivos, mas a secretária da recepção da Delegacia, Thereza dos Santos, disse que as festas de fim de ano e o carnaval são apenas pretextos, em sua visão, utilizado pelo agressor. "Homens que agridem suas companheiras o fazem 386 dias no ano".

Em 60% dos casos, as vítimas são agredidas pelo namorado. Ciúmes, possessão e machismo são as principais causas. Mas a diferenciação por salários, a dificuldade de ascensão profissional, assédio moral e sexual são movedores de queixas na Delegacia. No entanto, a falta de informação sobre o que seja agressão contra a cidadania e o medo leva à ineficácia do sistema de proteção a mulher.

Os principais motivos de procura à Delegacia da Mulher, tanto em Goiânia quanto em Aparecida de Goiânia, ainda se resumem à agressão física. Segundo a estudante, Nayara Arantes, filha de pais separados pela agressão, há pouca informação em relação ao que seria crime contra a manutenção da vida. "Minha mãe só denunciou meu pai e se separou dele, depois que eu e minha irmã mostramos a ela que existe vida após se desligar de um agressor. Ela não sabia que sofrer agressão verbal também era crime".

O receio e o silêncio das mulheres são justificados pela proximidade e dependência do agressor. Segundo Anne, nome fictício, vítima de espancamento, o agressor chega em casa antes da sua parceira que tomou a iniciativa de denunciá-lo e isso provoca uma nova agressão física. "Eu acabo apanhando duas vezes. Mas a denúncia dificilmente é repetida como a surra. Eu só voltei porque ele passou a agredir meus filhos. E isso não aceito. Eu posso ser agredida, mas meus filhos são apenas crianças".

A professora e mestre em Ciências Sociais da UEG, Cristina Patriota, salienta que a mulher, em sua maior parte, só resolve dar parte de seu companheiro depois que seus amigos e familiares descobrem. Eles a pressionam a tomar uma atitude. Apesar de o agressor ainda ser muito protegido pelos laços familiares e pelos resquícios da cultura machista da sociedade brasileira.

A legislação brasileira e a burocracia policial colaboram com o sigilo feminino. De acordo com a Lei 9.0099, a violência doméstica é considerada um crime de pouco potencial ofensivo e, por isso, os agressores são punidos com seis meses ou um ano de reclusão, em caso de flagrantes, ou penas alternativas, como o pagamento de cestas básicas e serviços comunitários. "O que não viabiliza a ressocialização desse indivíduo", elucida o estudante do 4º período de Direito da UCG, João Paulo Martins.

Em Goiânia, ainda não existem locais para que essas vítimas se abriguem, o que as induzem de volta para a convivência com o agressor. Mas começam a surgir centros de atendimento psicológico, jurídico e de assistência social como o Centro de Referência da Mulher, inaugurado em 1º de dezembro de 2004 pelo prefeito Pedro Wilson. "O Centro fica localizado na Rua 226, nº. 567, Setor Universitário (em frente ao DCE-UFG)", informou uma das atendentes da Delegacia da Mulher.