Dario Pignotti, correspondente internacional da agência Ansa
Dario Pignotti, correspondente internacional da agência Ansa
Início
"A minha primeira cobertura no Brasil foi em outubro 1989, na eleição de Lula e Collor. Mas, como correspondente fixo, estou no Brasil desde de 98. Comecei a trabalhar aqui para o jornal Página 12, de Buenos Aires, e agora para a agência italiana Ansa e para o Le Monde Diplomatique. Eu morava em São Paulo, onde fiz doutorado na ECA-USP. Em 2007 fui enviado pela Ansa para Brasília."
Diferenças na cobertura
"A diferença de cobrir Brasil de Brasília e Brasil de São Paulo é gigantesca. Em Brasília você faz cobertura de Brasil e em São Paulo você faz cobertura de uma grande capital econômica. Eu tenho que dizer a favor de Brasília que é uma cidade jornalisticamente muito mais brasileira do que São Paulo. Por fonte, por fluxo de informações e por perspesctiva. Além disso, para o trabalho factual dos jornalistas correspondentes, aqui as fontes são relativamente acessíveis. Em São Paulo são pouco acessíveis e não há fontes políticas."
Cidade da potência emergente
"As dificuldades é que você está longe do Brasil real, do Rio, de Manaus, da avenida Paulista e isso, em um certo aspecto, pode ser uma traição. Eu trabalhei muito tempo como enviado, indo ao México, Venezuela, eu tenho essa formação da cobertura pé no chão. E isso aqui infelizmente não tem. De qualquer forma, fazendo um balanço, eu vejo que para um correspondente estrangeiro trabalhar em Brasília é muito melhor. E digo uma coisa, aquele veículo que só pode ter um escritório, tem que ter aqui. Tenho feito alguma coisa para a faculdade, uns trabalhos mais ensaísticos, de dimensão teórica, e eu falo disso, eu acho que o Brasil exótico é do Rio de Janeiro. O Brasil dos 'tristes tópicos', visão que muitos grandes veículos, principalmente da Europa, ainda conservam, do futebol e das areias brancas, é do Rio. Mas o Brasil real, o Brasil potência emergente, disputando uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, pleiteando um espaço no conflito de Meio Oriente, o Brasil de produção mundial, o Brasil de Copenhague, passa muito mais por Brasília do que pelo Rio ou por São Paulo. As decisões e os cenários estão aqui. A mesma Brasília que sabemos depois em seus retratos mais patéticos, mais 'arrudescos'. Mas para nós, como correspondentes, esses fatos não têm muita importância não."
Desigualdades sociais
"Eu trabalhei muito tempo no México e a diferença é que Brasília é apenas a capital do país, não é a grande cidade do país, enquanto no México se tem as duas coisas. Lá é como se a Rocinha e o Planalto estivessem juntos. A ONU diz que Brasília é uma das cidades mais desiguais do mundo. Eu moro aqui há três anos e eu nunca vi uma favela, não porque ela não está, é porque eu não tenho tempo de ir para favela. É erro meu como jornalista, mas as coisas estão longe. Mesmo que eu ache Brasília uma cidade mais brasileira do ponto de vista da informação, é uma espécie de atração urbanística e territorial, você está muito longe de todos."
Comitês de imprensa
"Eu não conheço muito, são sete ministérios além das grandes empresas - Banco Central, Banco do Brasil... Para nós, no dia-a-dia, é muito difícil demandar informações de tantas estruturas geradoras de notícia. Mas o que tem a ver com a nossa rotina, os serviços de informação, tanto do Planalto como do Itamaraty, são muito bons, muito delicados conosco. Eu te conto: no sábado, 7 de fevereiro, terremoto no Chile, às 7h06 eu liguei para o plantão do Planalto para saber se eles tinham informações. E a colega me disse: 'Olha Dario, esse tema não está sendo acompanhado por nós, mas pelo Itamaraty'. Às 7h15 liguei para o Itamaraty e uma pessoa me deu informações, obviamente provisórias, mas já tinha material, uma mínima fonte do Itamaraty para fazer a primeira notícia sobre o Brasil e o terremoto do Chile. Quando tem visita do Lula à Cuba, por exemplo, como fazemos? Contamos com nosso correspondente em Havana e eu ligando para assessoria de imprensa do Itamaraty.






