Correspondente de guerra sem querer, por Marjorie Rodrigues
Correspondente de guerra sem querer, por Marjorie Rodrigues
Anos 50 do século XX. Na cidade de Ferreira, no Alto Alentejo, Portugal, vivia um menino de nome Carlos. Naquela época, não havia TV, só radinho de pilha. Quando os dias eram de muito calor, o pai o levava à varanda para tomar o primeiro ar fresco da noite e contar-lhe histórias. Muitas e boas. "Extasiado" é a palavra que o menino, hoje crescido, ainda usa para descrever como se sentia. Sem saber, o pai despertou no filho o mesmo gosto para falar com os outros e contar histórias interessantes. Mas o menino só descobriu a herança quando foram instalados microfones e auto-falantes na igreja da cidade. Fascinado com a imponência que o aparato dava à voz do padre, o pequeno Carlos subiu ao púlpito e experimentou a novidade. Aí nascia Carlos Fino, o futuro jornalista.
Hoje, o homem de cabelos grisalhos é conhecido dos portugueses - e dos brasileiros também - como repórter de guerra, especialização que ocorreu por acaso. "Eu próprio tenho relutância em me considerar repórter de guerra", diz ele. "Considero-me apenas um repórter, que foi à guerra pela força das circunstâncias. Foi acidental e o acidental se tornou essencial".
De 1976 a 1982, Carlos Finofoi correspondente da TV estatal portuguesa em Moscou. Acompanhou o desmoronamento do regime soviético e os conflitos separatistas que emergiram a partir de então. Mas começou extremamente despreparado, como muitos dos jovens jornalistas que são mandados pelas redações às áreas de conflito armado. Havia um embrião de guerra civil na Geórgia e o correspondente passou uma tarde de indecisão no aeroporto. Colocou de um lado da balança a sua inexperiência e os riscos que correria e, de outro, a indiscutível necessidade de cobrir o assunto. Pendeu o segundo lado e Carlos embarcou num avião junto com tropas e munições. A mesma aeronave tinha acabado de transportar um grupo de refugiados.
Quando perguntado se teve medo, Carlos dá uma resposta afirmativa - e óbvia: "não seria humano se não tivesse". Mas ele explica que o medo muda com o passar dos anos. "Depois de percorrer a vida e experimentar toda a paleta de sentimentos, enfim, viver, ficamos mais preparados para a morte", conta. O vôo perigoso para a Geórgia seria o primeiro de muitos e Carlos o escolhe como metáfora para a própria carreira: "É como viajar de avião. Quando mais você viaja, mais perde o medo". Assistir à morte dos outros também pode ser uma escola. Logo antes da guerra do Iraque, faleceu a mãe do jornalista, o que o preparou ainda mais para a chegada do último dia. Perder a vida já não é mais a maior preocupação de Carlos Fino. Ele tem bem mais medo de ferir-se e ficar incapacitado.
Apesar da prática jornalística recomendar que se ouçam os dois lados de toda questão, Carlos conta que, numa guerra, quem insiste em ser independente morre primeiro. Foi o que ele testemunhou no Iraque, onde cobriu a guerra para o canal RTP, apoiado pelo regime de Saddam. "Alguns jornalistas entraram no Iraque como se fosse um safári. Estes foram rapidamente eliminados". A necessidade de escolher um lado se explica pelo fato de que, numa guerra, informação também é munição. "Cada um dos lados tenta usar a mídia como lhe convém", diz Carlos. Nesse ambiente, jornalista que dá sopa leva tiro como qualquer soldado. A única defesa que o jornalista tem é um colete à prova de balas com a palavra "press" escrita no peito.
Foi no Iraque que aconteceu o grande destaque da carreira de Carlos Fino. Ele foi o primeiro jornalista a anunciar, ao vivo, o início do bombardeio a Bagdá, da varanda do hotel onde estava hospedado. Outra coisa acidental. Ele e o cinegrafista passaram a noite esperando a primeira bomba cair. Nada. Às cinco da manhã, desistiram. "Pareceu um filme", conta Carlos. "Mal a terminamos de desligar tudo, pronto. Caiu a bomba". Felizmente, o telejornal ainda não tinha acabado e houve tempo para encaixar a informação. Ao telefonarem para a emissora, contando que a guerra havia começado, ouviram: "Como assim começou a guerra, se nem a CNN deu isso ainda?". Carlos resume o sucesso da cobertura da RTP da seguinte forma: "não estávamos a dormir. Éramos um veículo pequeno e não tínhamos muita informação. Por isso mesmo, não estávamos a dormir". E destaca a importância do correspondente: "a presença do jornalista é essencial. Não é a partir de Londres que se cobre o Oriente, por exemplo".
O furo da RTP no Iraque tornou Carlos Fino conhecido no Brasil, onde ele acaba de dar uma palestra para os alunos do curso Repórter do Futuro, que neste semestre aborda a cobertura de conflitos armados. Na ocasião, Carlos fez graça com expressões do nosso português, como "pipocando" e "antenado". "Foram vocês, brasileiros, que nos fizeram redescobrir a nossa língua", disse ele, diante de um microfone. O menino no púlpito não sabia que isso ia virar rotina. Nem poderia imaginar que suas histórias chegariam a tanta gente.
* Marjorie Rodrigues é estudante de jornalismo da Universidade de São Paulo. Para entrar em contato, envie um e-mail para .






