“Conseguir trazer Yoani Sánchez ao Brasil é como ganhar um Oscar”, diz documentarista

Da tranquila cidade baiana de Jequié, o jovem documentarista Dado Galvão ganhou páginas e sites de notícias ao redor do mundo. Tudo por se sensibilizar com a luta da blogueira Yoani Sánchez.

Atualizado em 14/02/2013 às 16:02, por Luiz Gustavo Pacete.

Vendo a dificuldade de a cubana sair de seu país, Galvão empenhou-se em trazê-la ao Brasil para o lançamento de seu documentário.

Dado Galvão grava documentário na casa de Yoani Sánchez Desde 2009, quando esteve na ilha filmando o documentário “Conexão Cuba Honduras”, Galvão empenhou-se, mobilizou políticos, teve pedidos frustrados, principalmente daqueles que não acharam conveniente abraçar uma causa que fosse tão delicada em relação ao governo de Cuba.

Mas o documentarista, que se denomina militante, alcançou seu objetivo. Na próxima segunda-feira (18/2), a blogueira estará na Bahia para o lançamento do documentário.
Mesmo com críticas e tentativas para que desistisse, Galvão conseguiu ganhar repercussão e levou o assunto para a imprensa e, por meio do senador Eduardo Suplicy, ganhou voz também no Senado.

Agora, com a autorização de Yoani Sánchez para vir ao Brasil, Galvão se lembra das frases de um dos principais especialistas em Cuba, o escritor Fernando Morais, que não moveria nenhum palito para trazer a blogueira ao Brasil, rebate: “não um palito, mas muitos foram movidos para que ela viesse. Trazê-la é como ganhar um Oscar”.
IMPRENSA – O que o levou a abraçar a causa de Yoani Sánchez? Dado Galvão - O que me chamou a atenção na Yoani foram as ferramentas que ela utiliza para narrar o cotidiano de Cuba, mesmo com toda dificuldade estrutural. Quando eu filmei na casa dela, em dezembro de 2009, terminamos as gravações e ela me ofereceu um café, eu não queria dar trabalho. Mas aproveitamos para conversar e eu disse para ela que, assim que eu voltasse à Bahia, tentaria ajudar da melhor maneira possível.
Quais as possibilidades que você tinha para ajudá-la? Na minha cidade tem um deputado e assim que cheguei, pedi pra ele que conversasse com o governador. O deputado disse que não haveria nenhum problema e falou com o Wagner se ele me receberia. Num primeiro momento, o governador aceitou me receber. Eu fiquei animado e informei a Yoani para que fizesse uma carta que, por meio do governador, fosse entregue ao presidente Lula. Mas o que aconteceu foi que, dia antes de me receber, a assessoria do governador disse que não seria possível, pois era um assunto polêmico e o estado da Bahia tinha um bom relacionamento com o governo de Cuba.
Neste momento qual foi sua estratégia? Entrei no site do senado e mandei e-mail para os contatos que encontrei. De repente, quem liga pra mim, o senador Eduardo Suplicy. Isso me animou. Ele disse que poderia ser o portador dessa carta para o Lula. Eu pedi para que ele entregasse a correspondência ao Jaques Wagner, comprei livros da Yoani e mandei para o senador. A partir daí, começou a luta, ele fez uma primeira intervenção falando na presença do ministro Celso Amorim e por várias vezes falou sobre o caso dela, tanto na Comissão de Relações Exteriores, como no Senado. Em tudo ele dava um jeito de encaixar o tema que foi ganhando repercussão.

Dado comemora post em que Yoani fala que está de malas prontas para vir ao Brasil O Suplicy teve papel importante então? Essa atitude do Suplicy foi me inspirando, mas minha maior motivação foi de cumprir minha palavra com a Yoani. Por outro lado, teve a militância nas redes sociais. Na época era o Orkut, depois fomos para o Facebook. Outras pessoas começaram a ajudar. Eu costumo dizer que eu fui mais ativista do que documentarista. Tanto que eu não estou nem aí se algum crítico assistir meu filme e não gostar. Eu sou formado em administração e marketing e abandonei uma especialização em audiovisual na universidade pública para embarcar nessa história de Cuba e Honduras.
Independente da militância, ter Yoani no lançamento ajuda a promover o documentário... Eu agradeço muito a Deus por ter tido sorte. No meu primeiro documentário sobre o Haiti a doutora Zilda Arns esteve presente na exibição.
Como foi a gravação do documentário em Cuba e em Honduras? Quais dificuldades você encontrou? Eu tinha pouca liberdade para gravar em Cuba. Depois que fiz as imagens das Damas de Branco e quase fui expulso, tive que decidir se eu queria seguir com o equipamento para Honduras, aquilo me limitou. Eles já tinham colocado alguém no meu pé. Eu usei a estratégia de fazer contatos e guardar tudo que eu tinha em arquivos, caso eles ficassem com a câmera. Meu orçamento de viagem era de R$1 mil. Passei a base de barra de cereal e chocolate. E quando cheguei a Honduras tinha pouco dinheiro e a situação era de muito risco.
A mesma mobilização virtual que Yoani utiliza em Cuba você usou para trazê-la ao Brasil... São ferramentas de transformação social que desempenham papel importantíssimo nesse processo para que a Yoani conseguisse o visto. Chamamos a atenção da opinião pública e recebemos apoio de diversas pessoas para a compra de passagens. Abri na internet uma campanha por meio de vaquinhas eletrônicas e conseguimos os bilhetes.
Você foi criticado e desencorajado por tomar partido da causa da Yoani? Eu recebi vários e-mails neste sentido. Mas sempre consegui manter diálogo com essas pessoas. Muitos diziam que eu estava enxugando gelo, que era uma missão impossível, dizendo para que eu desistisse. E o que eu respondia era que, a melhor forma de questionar a Yoani sobre tudo aquilo que falavam sobre ela, era tendo-a por aqui. Com ela em Cuba não dava para tirar nenhuma dúvida a seu respeito. Não é uma oportunidade para que ela seja somente paparicada, mas também questionada sobre todas as dúvidas relacionadas a ela.
Seu papel foi muito além do que documentar a realidade dela então? Acho que em toda essa história eu fui mais ativista do que documentarista. E o Suplicy foi uma figura de extrema importância para me ajudar. Eu lembro que no início, um importante escritor brasileiro especializado em Cuba disse que não ia mover um palito para que Yoani viesse ao Brasil. Eu digo a ele, que muitos palitos foram movidos para que ela viesse. Um simples documentarista do interior da Bahia, um Senador da República mesmo sendo voz única, um cara lá da Paraíba, um ativista aqui, enfim várias pessoas que contribuíram para essa causa.
Como se sente agora que ela conseguiu a liberação para vir ao Brasil? Só sei dizer que eu tentar externar como e muito mais valoroso que isso, para relacionar com o cinema, como se eu tivesse ganhado um Oscar.
Qual seu próximo projeto? Ir para o Uruguai falar com o presidente Mujica. Vou de bicicleta. Já estou me preparando andando e vou até lá para entrevistar um presidente que mesmo no poder mantém suas origens de luta.