Confissões de um réu primário
Confissões de um réu primário
O escritor e jornalista Ruy Castro, um dos mais competentes biógrafos brasileiros, abraçou a causa contra a censura do livro "Roberto Carlos em detalhes", do jornalista Paulo César Araújo. Ao lado de Fernando Morais e do próprio Araújo, Ruy participou de um dos momentos mais polêmicos da última FLIP (Festa Literária Internacional de Parati) .Batizada de "A vida como ela foi", a mesa sobre a censura acabou com o lançamento de um abaixo assinado. Os três biógrafos querem evitar que o caso de Roberto Carlos se transforme em uma perigosa referência para advogados impedirem a publicação de biografias não autorizadas. Em Parati, o editor executivo de IMPRENSA, Pedro Venceslau e o fotógrafo Luciano Dinamarco estiveram com Ruy Castro. Confira alguns trechos da entrevista que será publicada na edição de agosto da revista IMPRENSA.
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IMPRENSA - Para escrever ficção você tem que investigar tanto quanto para uma biografia?
Ruy Castro - No meu caso sim. Não sou um ficcionista natural. Fui instado quase com uma faca no peito a escrever ficção. Tenho que me valer de coisas da vida real, porque não tenho essa capacidade toda de criar plots originais. Minha especialidade é descobrir histórias que já aconteceram. Estou fazendo um romance que se passa em 1808, na chegada da corte ao Brasil. Sai em novembro. O corte é muito restrito: entre 1808 e 1812. Será um close numa época. Quase todos os personagens existiram. Não posso falar mais nada além disso
IMPRENSA - A família do Garrincha tentou, durante 11 anos, impedir a venda da biografia "Estrela Solitária". Como e por quê essa "guerra" começou?
Ruy Castro - O livro ia sair numa quinta feira do começo de novembro de 1995. No domingo anterior, o Fantástico fez uma matéria de 10 minutos comigo. O livro ainda não estava nas livrarias. Ninguém tinha lido, a não ser eu e a editora. Na segunda feria, alertado pela matéria do Fantástico, um dos advogados das filhas do Garrincha telefonou na editora dizendo que ia processar. Diante da estupefação de quem atendeu o telefone, ele disse: "Olha, mas tem acordo". Pediu um milhão de reais, que na época equivalia a um milhão de dólares. O que você faz diante de uma generosa oferta como essa? Aceita? Tira do bolso e paga para não se chatear? Ou manda o cara lamber sabão e assume que vai correr todos os riscos, inclusive o de ter um prejuízo maior que esse? A única atitude seria essa. (A editora) não pode se curvar a esse tipo de chantagem. Tem que ir para o pau. Foi o que eles fizeram.
IMPRENSA - O caso da biografia "Roberto Carlos em detalhes", do Paulo César de Araújo, que foi proibida de circular, teve grande repercussão. Você acha que a editora espanhola Planeta, que lançou o livro, foi covarde?
Ruy Castro - Eu não diria covarde, porque não conheço a Planeta. Eu diria que ela foi excessivamente prudente. Eu sei como é isso. Já trabalhei em empresa estrangeira estando em outro país. Foi na Readers Digest , que é uma empresa americana, em Portugal, durante a Revolução dos Cravos. A revista seria um alvo natural para ser expulsa do país. Nós tínhamos nada com isso. A ordem que veio de Nova York foi para que a gente não desse palpite. Ainda sim, jogaram uma pedra no luminoso da revista. Mandamos trocar e não reclamamos de nada. Se você é um estrangeiro trabalhando em outro país, tem que ficar quieto. Imagina essa situação (da biografia do Roberto Carlos) sendo discutida na sede da Planeta, na Espanha. Vale a pena comprar uma briga com a justiça brasileira e com um importante artista do país? Isso só vai criar aborrecimentos e pode comprometer o investimento de milhões de dólares. Talvez, para eles, tenha sido mais sábio assimilar o prejuízo menor.
IMPRENSA - Se fosse uma editora brasileira, teria brigado mais pelo livro?
Ruy Castro - Não sei se, para uma editora estrangeira, a defesa da liberdade de expressão no Brasil é uma coisa importante. Não é...O que eles tem aqui é um investimento. É melhor não criar caso. Se isso vai abrir um precedente perigoso para a liberdade de expressão no Brasil, isso não é problema deles.
IMPRENSA - Você e a editora receberam o mesmo apoio da opinião pública que o Paulo César de Araújo?
Ruy Castro - Vou comentar isso pela primeira vez. Eu lamento muito isso, mas nós não tivemos imediatamente o mesmo estardalhaço que estão fazendo em torno do livro do Paulo César. As pessoas, os meios de comunicação, os intelectuais, os colegas custaram para acordar para a agressão que nós estávamos sofrendo. A editora sustentou essa batalha sozinha. Contratou os advogados mais caros do Brasil. A única coisa que aconteceu à favor do livro foi o fato de o Prêmio Jabuti ter sido concedido ao livro, mesmo estando proibido. Foi uma coisa extraordinária. Aí sim, começaram a pipocar os abaixo-assinados. Nunca tive uma única palavra de apoio, de conforto, de consolo do então presidente da república, Fernando Henrique Cardoso, que se auto - proclamava um intelectual. Nem do Ministro da Cultura, nem de vagabundo nenhum.
Leia matéria completa na edição 226 de IMPRENSA






