Comunicação e Governança Corporativa

Comunicação e Governança Corporativa

Atualizado em 13/03/2008 às 16:03, por Wilson da Costa Bueno.

Já faz duas décadas que a expressão e o conceito de Governança Corporativa chegaram ao Brasil, mas certamente eles se popularizam nos últimos anos, pelo fortalecimento e dinamismo do mercado de ações e a reação natural aos escândalos financeiros que pipocaram (e continuam pipocando) aqui e lá fora.

A criação do Novo Mercado pelo Bovespa, em 2000, e também a definição dos níveis 1 e 2 de Governança Corporativa deram visibilidade à área e o tema ganhou corpo na mídia e mesmo na literatura. A chamada Academia passou a incorporar a Governança Corporativa como objeto de estudo e é possível recuperar, com facilidade, na web artigos, cases e notícias que versam sobre sua teoria e prática.

Os comunicadores empresariais não ficaram alheios a esta novidade e, gradativamente, buscaram aproximar-se dela, tendo em vista o fato de que uma boa governança corporativa passa, obrigatoriamente, por ações e estratégias comunicacionais competentes, que primam (ou deveriam primar) pela transparência, pelo relacionamento saudável com os "stakeholders", pela circulação de informações qualificadas e por aí vai.

Mas será mesmo que a implementação de boas práticas de governança corporativa tem impactado amplamente a Comunicação Empresarial brasileira?

A resposta, infelizmente, ainda é negativa. Muitas empresas que proclamam a adoção destas práticas e exibem orgulhosas o atestado de presença no Novo Mercado continuam dando as costas para a sociedade e para seus públicos de interesse e praticam uma comunicação no mínimo amadora. Na verdade, a maioria delas mantém o foco apenas em informações contábeis e financeiras, como se o papel das empresas fosse apenas captar investimentos e bajular os potenciais investidores. Imaginam elas (o que é um equívoco formidável) que é possível manter e ampliar o negócio apenas com ações e estratégias de RI (Relações com os Investidores) , descuidando-se de outros compromissos também indispensáveis para a sua sobrevivência.

Não é impossível, muito pelo contrário, encontrar na relação das empresas listadas no Novo Mercado organizações que são absolutamente invisíveis, ou seja comunicam-se muito pouco (e muito mal) com a mídia, com os seus parceiros, inclusive e sobretudo com os seus funcionários. Como se diz no interior, "por fora bela viola, por dentro pão bolorento", ou seja, pretendem lançar-se ao mercado, buscando com volúpia invejável os recursos dos investidores, mas não fazem direito a lição de casa. Pretendem parecer transparentes e socialmente responsáveis, mas ignoram as reclamações dos consumidores, poluem o ambiente, são truculentas no trato com a imprensa e acumulam passivos sociais e culturais de toda ordem.

Evidentemente, há exceções a saudar, empresas que colocam a comunicação empresarial na vanguarda, prezam a bio e a sóciodiversidade e que estão absolutamente convencidas de que o compromisso com a sociedade faz parte intrínseca do negócio.

A Governança Corporativa, num mundo conectado, deve incorporar não apenas a transparência (maquiada em muitos casos) com os investidores, mas pautar-se por diretrizes e valores que extrapolam o universo das finanças. As empresas precisam ter em mente de que o sucesso do negócio não se consegue à revelia de práticas sociais ou ambientais e que o valor das ações têm cada vez mais relação direta com a sua imagem e reputação.

É preciso perceber, finalmente, que muitas empresas do Novo Mercado nem ao menos se comunicam competente e democraticamente com os seus investidores e que, por inúmeros artifícios, deixam de disponibilizar informações relevantes ou as ocultam daqueles que a privilegiam com seus recursos.

Neste sentido, é interessante consultar a dissertação de mestrado, recém defendida na UMESP - Universidade Metodista de São Paulo, por Nilton Pavin, e que trata especificamente de . Pavin analisou os sites de RI de empresas do Novo Mercado, buscando especificamente verificar a qualidade de informação e facilidade de acesso permitida aos investidores "pessoa física", que constituem hoje segmento importante do mercado acionário brasileiro. Concluiu que há desafios imensos a superar: o uso do jargão técnico provoca um ruído na comunicação com pessoas que estão chegando agora ao mercado e, por incompetência ou má fé, informações fundamentais não estão disponibilizadas ou são mantidas ocultas, acessadas apenas depois de muitos cliques. A maioria delas não considera o investidor pessoa física com prioridade, embora todas elas estejam interessadas em seu "rico dinheirinho", ou seja agem mesquinha e interessadamente, num jogo de "toma cá e não dou lá".

A Governança Corporativa precisa incorporar definitivamente uma nova postura e extrapolar o universo frio (nem sempre ético, saudável) das finanças. A Comunicação Empresarial competente, transparente, democrática pode contribuir para que as empresas atinjam esse novo patamar. A pergunta, no entanto, é apenas uma: elas querem?

Precisamos mais do que empresas do "novo mercado". Precisamos de empresas que moldem uma "nova sociedade", mais justa, mais democrática, mais humana. Existe vida além do "management", dos IPOs e das oscilações frenéticas das ações. Algumas empresas, infelizmente, têm os olhos apenas para contemplar bolsos e cofres. Dá para apostar que elas não chegarão a lugar algum. Os comunicadores realmente comprometidos com o interesse público devem, inclusive, estar empenhados para que elas realmente "quebrem a cara".