Cobertura de situações trágicas

Cobertura de situações trágicas

Atualizado em 08/07/2009 às 15:07, por Silvia Dutra.

Há 25 anos, recém formada, fui trabalhar como repórter e redatora num jornal diário em Bauru, no noroeste do Estado de São Paulo. Um dia o editor mandou que eu e um fotógrafo fôssemos para uma pequena cidade ali perto cobrir um assassinato. A vítima era um padre italiano, muito popular e querido na comunidade.

Durante quatro anos de faculdade nunca nínguem havia me preparado, de alguma maneira, para enfrentar uma situação como aquela. Todas as aulas sobre Comunicação, Filosofia e teorias disso e daquilo não me serviram para nada quando vi o corpo daquele homem boiando numa poça de sangue. Foi difícil controlar meu tremor e choque, minha vontade de sair dali correndo, para entrevistar vizinhos, policiais e depois escrever o texto. E nos dias seguintes continuar acompanhando os desdobramentos da história.

Aquela imagem, o cheiro do sangue e o horror dos sinais do que havia acontecido naquele ambiente, só algumas horas antes, ficaram por vários dias na minha memória. Atrapalhando meu sono, minha concentração e certamente influenciando negativamente meu trabalho. Lembro que levei uns dias para conseguir chorar e desabafar de alguma maneira o stress do episódio. E que pra conseguir fazer isso abusei de bebidas. Ao longo dos anos cobri outros eventos do tipo: crimes, acidentes, incêndios, abusos sexuais e de crianças, que também me perturbaram. Mas esse caso, talvez por ter sido o primeiro, deixou uma marca permanente em mim.

Resumo da ópera: depois de quatro anos de estudos eu não estava preparada para um aspecto inevitável do trabalho de qualquer jornalista: o contato com situações trágicas, chocantes e de muita violência. Desconheço e duvido que aqueles que saíram das faculdades brasileiras antes ou depois de mim receberam algum tipo de treinamento nesse sentido. O que, convenhamos, é uma falha séria demais. Ainda mais num mundo cada vez mais violento e instável.

Nos Estados Unidos a discussão dessa questão por profissionais e educadores da área é relativamente recente, mas já rendeu frutos. Em 1991, professores do curso de Jornalismo da Michigan State University criaram os primeiros cursos no País para ensinar os estudantes a fazer reportagens sobre vítimas de violências com sensibilidade, dignidade e respeito.

O psiquiatra Frank Ochberg, pioneiro no tratamento do Distúrbio do Stress Traumático, e a Aliança das Vítimas - entidade não governamental sediada em Michigan dedicada à proteção e recuperação emocional de sobreviventes de crimes, violências e abusos - participaram na criação do currículum e treinamento das primeiras turmas.

Durante toda a década de 90 um número crescente de jornalistas, professores de Comunicação e profissionais nas áreas de Saúde e Psicologia ampliaram os debates em todo o país sobre as intersecções entre mídia e violência. E também sobre os prejuízos emocionais sofridos por profissionais da Imprensa no exercício do ofício e até então ignorados ou subestimados pela classe patronal.

Embora jornalistas estejam entre os primeiros profissionais (junto com policiais, bombeiros e paramédicos) a chegar e trabalhar em locais de tragédias, até a década de noventa não havia essa consciência na classe e na sociedade em geral sobre o peso e os riscos emocionais inerente à profissão.

Cursos sobre diversos aspectos dessa questão surgiram em faculdades de Jornalismo. Na Universidade de Washington, por exemplo, o professor Roger Simpson desenvolveu material sobre ética na cobertura de estupros e violência doméstica porque muitas vezes a cobertura da mídia causava ainda mais danos e dor emocional aos sobreviventes dessas situações e seus familiares.

Em 1999, o mesmo Simpson, em conjunto com a Fundação Dart, criou o Centro Dart para Jornalismo e Trauma, ligado à escola de Jornalismo da Columbia University em New York. Trata-se de um centro específico de estudos, pesquisas e recursos para jornalistas que cobrem situações violentas e traumáticas. O objetivo é educar esses profissionais não só para que eles consigam fazer seu trabalho de maneira eficiente e ética em relação às vítimas e à comunidade, mas também saibam entender e administrar as próprias emoções e as daqueles a quem entrevistam.

E que aprendam a preservar, tanto quanto possível, a saúde mental e emocional durante e após a cobertura de eventos traumáticos como crimes,guerras, tiroteios em escolas, ataques terroristas e desastres naturais de grande proporções como tsunamis, terremotos, furacões e etc. Nesses dez anos de existência, o Centro Dart desenvolveu vários programas de treinamento para jornalistas americanos.

Depois dos eventos de 11 de Setembro de 2001, criou um programa de seis meses de duração para garantir suporte emocional aos jornalistas da cidade de New York e informá-los sobre ansiedade, depressão, abuso de alcool ou drogas e outros distúrbios emocionais comuns em profissionais que vivenciam situações de extremo stress.

E desde o começo de sua atuação, o Centro Dart tem patrocinado e estimulado pesquisas pioneiras em Universidades e escolas de Psicologia sobre o impacto psicológico em jornalistas e fotógrafos que trabalham por longos períodos em zonas de guerras e conflitos.

Além disso, estendeu sua atuação para outros 25 países, estabelecendo parcerias com universidades de Comunicação, Psicologia e entidades engajadas no aprimoramento da Imprensa em diversos países da Europa, Ásia e também na Austrália. Na América do Sul fez parceria com a fundação colombiana Nuevo Periodismo Iberoamericano, presidida pelo escritor e prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Márquez.

No website da entidade os colegas vão encontrar muitas informações grátis (em inglês) sobre as melhores práticas na cobertura de eventos traumáticos. Os interessados devem clicar . E se alguem souber me explicar porque nenhuma Faculdade de Jornalismo, empresa de comunicação ou entidade de classe do Brasil tem parceria com essa entidade favor entrar em contato comigo. Estou traumatizada. Thanks.