Cobertura de protestos no Brasil deu ênfase ao conflito, não às reivindicações, diz pesquisa

Trabalho mostra o que os veículos nacionais focaram nos aspectos violentos dos protestos

Atualizado em 08/10/2014 às 16:10, por Rodrigo Álvares.

A cobertura dos protestos no Brasil em junho de 2013 feita por grandes veículos de comunicação, tanto em websites quanto no Twitter, deu maior destaque aos protestos e atos de vandalismo em vez de apresentar as demandas dos manifestantes, mostra levantamento da pesquisadora da Universidade do Texas, Rachel Mourão.

Os resultados lançam luz sobre o papel da mídia na representação dos protestos e foram apresentados na Association for Education in Journalism and Mass Communication Conference de 2014 em Montreal, no Canadá.
Crédito:Arquivo pessoal Pesquisa de Rachel apontou que público postou nas mídias sociais conteúdo favorável aos protestos
“Atualmente, na comunicação existe um corpo de pesquisa bem forte focado em redes sociais e protestos, especialmente a Primavera Árabe”, explica Rachel. Entre outras coisas, pesquisadores tentam mapear o desenvolvimento dos protestos pelas redes sociais. Quando as manifestações aconteceram no Brasil, ela se interessou em aplicar a teoria e metodologia para o contexto da América Latina.
O , incluindo vandalismo e brutalidade policial. Jornalistas deram pouco espaço para as reivindicações dos manifestantes, especialmente no início do que viria a ser mais de um mês de mobilizações.
Este tipo de cobertura é conhecido como “paradigma de protesto” e acaba por prejudicar o movimento social a longo prazo. Embora os manifestantes precisem de cobertura da mídia para atingir potenciais apoiadores, a ênfase na violência e no comportamento desviante pode ter o efeito de colocar a opinião pública contra o movimento social.
Como metodologia, Rachel usou o que se chama de análise de conteúdo computadorizada. “Basicamente, temos um software que resgata todo o conteúdo postado na Internet [redes sociais e websites]”, explica. “O pesquisador decide como será a análise e "ensina" o algoritmo a identificar as categorias. No meu caso, foram os frames usados pela mídia e pelo público e o computador aplicou as lições ao resto dos dados.”
O nome desse método é supervised machine learning . Ele permite a análise de megadados (big data), reduzindo a margem de erro de métodos que usam amostragem. No caso dos protestos brasileiros que eclodiram em todo o país em junho do ano passado, foram analisados 50 mil artigos online e mais de 4 milhões de tuítes do mês de junho de 2013. Para essa análise, Rachel escolheu dividir os dados entre conteúdo postado pela mídia e conteúdo postado pelo público.
A cobertura começou a seguir o “paradigma” durante as primeiras semanas do movimento, mas foi adotando cada vez mais um discurso legitimador conforme as exigências iam se tornando mais generalizadas pelos manifestantes.
Ao mesmo tempo, o público mais amplo postou nas mídias sociais conteúdo mais favorável aos protestos, incluindo tuítes de apoio às demandas do Movimento Passe Livre (MPL). Blogs foram usados para promover certos “enfoques” que legitimaram protestos, bem como mensagens que serviram de “chamado às armas”, mostra a pesquisa. Esta divergência, avalia Rachel, é particularmente importante, “pois mostra que os meios de comunicação e o público estavam em desacordo em seus pontos de vista e interpretação dos movimentos sociais no país”.
O estudo também rastreou o uso de hashtags genéricas e relativas a questões específicas durante a mobilização. Os resultados revelam que a cobertura positiva da mídia e o apoio do público seguiram o uso de hashtags mais genéricas, como #Nãoépor20centavoréporDireitos, #NãoéPor20Centavos, #BrasilLivre, e #OGiganteAcordou.
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