Cineasta e jornalista, Patrícia Cornils diz que não dá para viver de cinema
Cineasta e jornalista, Patrícia Cornils diz que não dá para viver de cinema
Patrícia Cornils é daquelas mulheres que trabalha muito. Isso não representa uma exceção em meio ao universo feminista e moderno de hoje. No entanto, parece que ela escolheu a dedo as profissões que podem dar o que falar. Patrícia é jornalista e cineasta e acredita que a maior dificuldade em conciliar seus dois trabalhos é "aprender a escrever com imagens".
A jornalista trabalhou na imprensa mesmo antes de fazer o curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e se destacou em editorias de economia, tecnologia e comunicações. Atualmente, Patrícia trabalha como freelancer e está fazendo um livro sobre as telecomunicações no Brasil. "Não consigo fugir disso, porque é o que sei fazer para ganhar dinheiro". Mesmo assim, a cineasta afirma que escreve matérias das quais se orgulha e que ela mesma propõe. "Se eu pudesse, trabalharia somente assim: me pautando, viajando, escrevendo as coisas somente depois de entendê-las. Mas não posso", lamenta.
Com um documentário que falava sobre um garoto que roubava ônibus apenas para dirigi-los, "O menino e a bumba", Patrícia participou do festival "É tudo Verdade" e diz que foi "um luxo", já que o evento é grande, tem público que gosta de documentários e dá visibilidade ao seu trabalho.
Confira abaixo a entrevista completa que a cineasta-jornalista concedeu ao Portal IMPRENSA, falando sobre sua carreira, desafios e projetos.
Portal IMPRENSA: Quando você começou sua carreira de jornalista? Por que escolheu, inicialmente, o jornalismo como profissão?
Patrícia Cornils: Comecei no segundo grau, fazendo os jornais do Centro Cívico (o centro acadêmico, durante a ditadura, tinha este nome). Mas não achava que aquilo era jornalismo. Depois, trabalhei na secretaria de imprensa do Partido dos Trabalhadores (PT). Lá, participei de várias discussões para a criação de jornais de esquerda, quando ainda se usava a expressão "imprensa burguesa". Foi uma experiência bem legal, principalmente por causa das pessoas que participavam das discussões. O David Capistrano Filho, que dirigiu o Jornal do PT, foi uma delas. O Perseu Abramo tinha uma história ótima, sobre um leitor do Jornal dos Trabalhadores, que mandou uma carta do Amapá, comemorando o lançamento do jornal (quando eu estava lá, ele já não existia) e perguntando se não dava para fazer o próximo número com "menas letra e mais figura". Eu sempre gostei de escrever, e depois de trabalhar por alguns anos no PT decidi fazer o curso de Jornalismo na Faculdade Cáspoer Líbero. Meu primeiro emprego em um jornal de grande circulação foi na sucursal do Jornal do Brasil, em São Paulo, como rádio-escuta, em 1991. Mas ainda hoje sou jornalista. Me sustento fazendo "frilas" de reportagem, porque a grana que recebo com os projetos de documentários não dá para pagar as contas.
IMPRENSA: Você já trabalhou com jornalismo econômico e tecnológico. Como você chegou a essas áreas e quais são as maiores dificuldades em escrever sobre esses temas, se é que você encontrou alguma?
Patrícia: Cheguei nessas áreas porque foi onde encontrei trabalho, depois de sair do DCI, em 1993. Trabalhei lá durante a reestruturação do jornal pelo José Paulo Kupfer, até que o Hamilton Lucas de Oliveira deixou de pagar nossos salários e o projeto de um grande jornal de economia, alternativo à Gazeta, afundou... quem me deu emprego foi a Lia Ribeiro, na Plano Editorial, especializada em informática (na época não se chamava tecnologia da informação) e telecomunicações. A dificuldade é a mesma de escrever sobre qualquer assunto: é preciso aprender uma porção de coisas para saber direito sobre o que se está escrevendo. Eu nem tinha esta noção na época, só entendi isso mais tarde, depois de cobrir muitos anos o setor de telecomunicações, porque comecei a perceber as informações não-expressas, o que estava no pano de fundo dos movimentos empresariais, lançamentos de serviços e produtos, disputas de acionistas. Aí as coisas ficam bem bacanas, porque dá para escrever com maior propriedade, mais reflexão, e cair menos nas conversas das fontes. Nesta altura eu já estava no Valor Econômico, no caderno de Negócios, cobrindo a área de telecom.
IMPRENSA: Quando e por que você começou a se interessar pelo cinema/documentário?
Patrícia: Quando estava meio enjoada de trabalhar no jornalismo diário e assisti a um documentário do João Moreira Salles e do Marcos Sá Correia, chamado "Santa Cruz", em que eles contam a trajetória de uma igreja evangélica em um subúrbio carioca. A essa altura, eu tinha percebido, também, que por mais que eu soubesse sobre telecomunicações, para fazer um trabalho bom de verdade precisaria me dedicar muito mais, trabalhar 14 horas por dia, me relacionar de uma maneira diferente com as fontes. Me incomodava muito escrever sobre coisas importantes sem ter o total conhecimento dos interesses envolvidos. E eu não queria passar 14 horas de todos os meus dias tentando sacar o que o Daniel Dantas pretendia fazer com suas participações nas teles ou como as operadoras iam fazer para ampliar suas fatias de mercado. Tinha vontade de ver outras coisas, contar outras histórias, expressar mais minha opinião sobre elas, e percebi que o documentário poderia ser uma maneira de fazer isso. Hoje sei que documentário é cinema, e cinema é bem mais que isso...
IMPRENSA: Você acha que existe alguma relação entre o jornalismo e o cinema?Qual?
Patrícia : O que me ajuda muito é a curiosidade e a capacidade de ouvir o que me dizem, de entender como pontos de vista contrários podem conviver nas mesmas situações. Também a sensibilidade para boas histórias. Mas a linguagem visual é completamente diferente da escrita, e completamente diferente da jornalística. E meu grande problema, hoje, é este: aprender a escrever com imagens. Há outra coisa diferente: o trabalho de repórter é meio solitário, e cinema é um trabalho coletivo. Há o fotógrafo, o editor, o cara do som, o produtor. Outra coisa que estou tentando aprender agora, porque a tecnologia permite isso, é voltar a essa produção "solitária", ou seja, fotografar e editar, eu mesma, meus documentários. Porque quero fazer filmes cada vez mais pessoais, e me sinto melhor fazendo dessa maneira.
IMPRENSA: Quais são as maiores dificuldades em se produzir um documentário?
Patrícia: Saber contar uma história com imagens é a coisa mais difícil do mundo para mim. Há dificuldades naturais para todo mundo que entra no cinema como entrei: falta de grana para viver exclusivamente disso é uma delas. Mas elas são menos complicadas de superar. Há editais, há câmeras e computadores baratos com os quais se pode produzir. Outra dificuldade é tornar o resultado de seu trabalho visível. Para curtas-metragens, há os festivais e algumas TVs por assinatura, que compram alguns filmes. Mas tem muita oferta, muita gente fazendo coisas boas, e meus filmes nunca foram tão bons a ponto de uma TV querer comprar...
IMPRENSA: O que achou da mostra "É tudo verdade"? Como o público recebeu o seu curta-metragem, "O menino e a bumba"?
Patrícia: Participar do "É Tudo Verdade" é um luxo, porque o festival é grande, dá visibilidade, tem um público que gosta de documentários e filmes muito bons. O público recebeu bem, eu acho... eu gostava de ouvir as reações das pessoas nas projeções e acho que o filme foi bem aceito, principalmente aqui em São Paulo (houve somente uma sessão no Rio), talvez porque se trate de um filme sobre a cidade.
IMPRENSA: Como foi a produção desse documentário? Da onde surgiu a idéia de falar de um menino louco por ônibus e que os roubava para dirigi-los?
Patrícia: Na primeira vez em que ele roubou, não me lembro mais se em 2001 ou 2002, saiu uma matéria no jornal. Me impressionou porque a notícia saiu em um sábado anterior ao Dia dos Pais e havia toda aquela história de ele não saber quem é o pai dele. Eu guardei a matéria, antes de imaginar que viria a fazer documentários. E quando comecei a pensar em projetos para filmes, me lembrei dela.
IMPRENSA: Qual é sua relação com o grafiteiro Zezão? Onde você o conheceu e por que decidiu fazer um documentário sobre ele?
Patrícia: Adoro grafite. Acho uma forma ousada e bonita de ocupar o espaço público e de fazer arte acessível a qualquer um na cidade. Acho que coloca em questão a maneira como este mesmo espaço público é apropriado por publicidade, por exemplo. E admiro os artistas brasileiros de grafite. O Zezão eu conheci porque fui à galeria Choque Cultural comprar uma gravura de outro artista, o Herbert. Gostei muito de um trabalho do Zezão exposto lá e a Mariana, dona da galeria, me contou que ele pintava em lugares abandonados e podres, como o esgoto e demolições. Eu procurei pelo Zezão na internet, fui conhecê-lo e quando o Kiko Goifman, cineasta e meu amigo, me disse "pô, Pati, quer fazer o favor de escrever logo um projeto e começar a filmar?". Zezão foi um alternativa óbvia.
IMPRENSA: Você acha que o jornalismo de hoje faz uma cobertura precária na área cultural e do cinema?
Patrícia: Acho que o jornalismo tem o mesmo problema em todas as áreas: uma falta de capacidade de enxergar além de seu universo próximo, um preconceito enorme quanto ao que é diferente deste universo, uma tendência a estabelecer verdades que não existem, a não ser na opinião publicada. Mas tem muita gente boa também, e tem sites de cinema maravilhosos, como o Contracampo, a Revista Cinética, o Canto do Inácio...
IMPRENSA: Você já está trabalhando em outra produção? E no jornalismo? O que você espera dele ou vai fazer nele daqui pra frente?
Patrícia: Eu vivo de frilas de reportagem. Estou trabalhando, agora, em um livro
sobre o papel do setor de telecomunicações no crescimento do Brasil, uma espécie de balanço de dez anos da privatização. Não consigo fugir disso, porque é o que sei fazer para ganhar dinheiro. Mas tenho feito matérias das quais me orgulho também. Uma para a revista Brasileiros de março, sobre a mina de bauxita que a Alcoa está implantando em Juruti, no Pará, é um exemplo. A pauta foi sugerida por mim, a matéria ficou bacana. Se eu pudesse, trabalharia somente assim: me pautando, viajando, escrevendo as coisas somente depois de entendê-las. Mas não posso... No segundo semestre vou filmar "Querida Mãe", sobre cartas que minha mãe, pernambucana, escreveu daqui de São Paulo para a mãe dela, em Recife. Ela se casou em 1966 e se mudou para cá. Nas cartas, descreve a nova casa, a vida com meu pai, a descoberta da gravidez (era eu!) e de uma doença. Eu não conheci minha mãe, ela morreu de câncer quando eu tinha onze meses, e essas cartas, que ganhei de minha avó somente aos 30 anos, quando fui conhecê-la, são quase tudo o que sei sobre ela.






