Caldeira de Pedro Botelho - por João Camargo Neto/ALFA
Caldeira de Pedro Botelho - por João Camargo Neto/ALFA
Não suportava mais a frialdade cáustica daquele corredor. Era cogente suplantá-lo. Do banheiro ao quarto não havia outro acesso. Quarto! Nem me fale. Desde que Lúcia se foi, ninguém mais o adentrou senão eu. Enquanto o quarto de hóspedes possuiu um número de visitas imemorável.
Tantas passagens aconteceram ali depois de sua partida. Ela não podia ter ido. Quisera eu nem ter sido assim. Corri riscos. Afinal, toda semana era uma diferente. Estúpidas, educadas, delicadas, soturnas, oportunistas, inoportunas, ameaçadoras, inofensivas, inventivas, verdadeiras.
Cabeça a mil. Passava as tardes a eleger nos classificados e na rede mundial de computadores qual me satisfaria de sábado à segunda-feira. Era só. Sábado porque carecia relaxar, a semana sempre muito fadigosa. Domingo porque precisava fazer algo para não passar batido. Segunda-feira para começar a semana abrasador. Necessitar do calor.
Todo o dinheiro deixado por Lúcia foi consumido nisso. Foram sete anos subsecutivos de deleites e desprazeres. Nenhuma sequer conseguiu me fazer esquecê-la. Não me apresentava mais aquele sentimento como amor. Transformara-se em trauma. De que adiantou conhecer tantas, se eu não me deixei aproximar de nenhuma?
Misto de psicose e devassidão. Procurava a libertação. Não a contemplativa nem tampouco a do meu país. A minha, de caráter único, particular e egoísta. Só poderia engajar numa concepção libertária, fosse ela qual fosse, política, social, ambiental, se abordasse a minha libertação.
Não queria alvedrio. Esse já me aprisionara. Queria libertação. Era apavorante saber que a minha liberdade me aprisionara. A minha liberdade me aprisionara. A minha liberdade me aprisionara. Podia escolher a garota que quisesse se fosse vendável. Podia ter o café da manhã que quisesse se houvesse ânimo para ir ao botequim.
Viajaria para onde avivasse o vento, não fosse a corrente que amarfanhava ainda mais o meu já demudado coração. Arquitetava meio que sem saída como restaurá-lo. Pairavam anfibologias quanto à convicção. Não podia ser convicto de nada. Fosse, e fosse uma convicção adversa às atitudes, ficaria anda mais aturdido.
Já culminava o ponto de necessitar de um guia do tipo "a existência: como usá-la". Como usar uma vida tendenciosa se Lúcia se fora? Jamais encontraria alguém que me satisfizesse internamente como ela. Não adianta mais procurá-la. Ela não pode recuar. Viajou. Não se despediu.
Não me faz sofrer a viagem. Dói, e muito, a falta da despedida. É como se tivesse ido com raiva de mim. Sei dos motivos dela para tal, mas e eu, improdutivo mortal? Seis anos como se tivesse ido há seis horas. Mesmo efeito se eu tivesse descoberto há seis minutos. Não importa o tempo.
Corrijo-me: o tempo é o único domínio que me resta. Aperfeiçoá-lo não dá. Corrigi-lo, jamais. Voltar... Enleio. Já me recordava dos tempos da academia. Períodos. Pós-modernidade. Encaixe. Giddens. Já sei: Sartre. Auto-ajuda não me ampararia. A psicanálise já parte em derrocada. Terapia é fastidiosa.
Autofilosofia clínica. Automedicar-me sartreanamente. Parecia pior, mas não via alternativas. Comecei por Entre quatro paredes, artifício do filósofo. Lá encontrei a resposta que me alçaria à cura: o inferno são os outros. Obrigado, Sartre! Foi o que veio à minha mente.
Lembrei-me de um docente que agradecia a Freud pelos impulsos que lhe inspiravam a aula, mesmo tendo esse perecido bem antes de o professor gemar. Sartre também morreu. Mas deixou para mim a pílula que me resgataria a vida: co-dependência nunca mais. Nunca mais. Dependo de mim para ser feliz.
Lúcia se foi. Essa não volta mais. Fiquei. Não tinha que procurar a minha cura nos outros. Classificados agora só para procurar um outro apartamento. Aquele já me conspurcara por demais. Jornal só às segundas-feiras para ver os resultados dos jogos e mundo virtual apenas em fórum direcionado e orientado.
Sabia, no fundo tinha a impressão de que não me seria inútil passar cinco anos no assento de uma academia. Sartre me foi apresentado no início da inclinação. Serviria-me, agora, quando já atuava um desconforto propício ao rompimento da vida. Reação. Agir, além disso.
De volta eu ali. Restavam-me cinco livros e uma placa para afixar no apartamento: vende-se. Meus últimos livros. Sentado no chão do quarto que preservara. Lá, no 202, lia a dedicatória que Lúcia escrevera quando me presenteara com um livro de uma ioruba: "fuja de mim. Ache-se em si...".






