Brasil-França: Jean Manzon
Brasil-França: Jean Manzon
Entre as influências da França para a imprensa brasileira há de se destacar o papel de Jean Manzon, o fotógrafo francês que chegou ao Brasil em 1940. Por um acaso da sorte, usando o Rio de Janeiro como rota de fuga. Ele estava isolado em Londres, onde cobria a guerra para o Paris-Soir, sem outra alternativa de locomoção, diante da ocupação de seu país pelos nazistas. Manzon tinha apenas 25 anos de idade, mas alguma experiência e um pendor excepcional para a foto-reportagem. Iniciara a sua trajetória, ainda adolescente, como repórter e mais tarde fotógrafo do vespertino L'Intransigeant, segundo as pesquisas da professora Heloiuse Costa. Trabalhara também nas revistas Vu, Match, mas foi no Paris-Soir que consolidou a sua carreira, primeiro na cobertura da guerra civil espanhola, logo em seguida: a Segunda Guerra Mundial.
No Rio de Janeiro, Manzon foi absorvido pelo serviço público. As suas credenciais e uma carta de recomendação lhe valeram a função de responsável pelo setor de áudio-visual do Departamento de Imprensa e Propaganda-DIP, então presidido por Lourival Fontes. Mas foi na revista "Sombra" que revelou o seu diferencial em relação aos fotógrafos brasileiros, com "closes" surpreendentes, senso de oportunidade e um enquadramento de câmera semelhante ao dos fotógrafos da revista Life que fazia grande sucesso entre nós. Com esses talentos fazia questão de assinar as suas fotos, coisa nova no Brasil, segundo revela Luiz Maklouf Carvalho no seu livro "Cobras Criadas-David Nasser e o Cruzeiro". Não abria mão do crédito com o seu nome, ao lado, ou no rodapé da imagem.
A dupla famosa
A revista O Cruzeiro não tardou a contratá-lo e lá concordou em fazer dupla com David Nasser. "Antes já havia recusado diversos outros parceiros por achá-los todos incompetentes", conta Accioly Neto no seu livro "O Império do Papel. Os bastidores de O Cruzeiro ". A parceria com Nasser lhe granjeou a fama, a dupla em evidência, responsável por grandes tiragens da revista e por reportagens que transcenderam a mídia nativa, reproduzidas no Time e outras publicações estrangeiras. Exemplo disso: a reportagem com o Deputado Federal Barreto Pinto, que posou de cuecas, imagem que lhe valeu a perda do mandato por quebra de decoro. Também a descoberta dos índios Xavantes, pela primeira vez fotografados, numa operação de risco, ou, ainda, as imagens do médium Chico Xavier que se deixou fotografar numa banheira, dentre outros destaques.
"A dupla parecia ter um estranho poder sobre os personagens das histórias que contavam, como se os hipnotizassem" registra Accioly. A observação do ex-Diretor do O Cruzeiro infere a capacidade de argumentação dos jornalistas e a sua determinação para atingir resultados, mesmo que isso implicasse em forjar situações para registrar fotos. É o caso da série amazônica (com jacarés do zoológico da Quinta da Boa vista), ou dos monges (vestiu dois amigos seus a caráter, sem lhes identificar o rosto). Truques da mídia que a opinião pública não farejava e a concorrência muito menos.
A morte forjada
Esse lado do sensacionalismo como matéria-prima a qualquer custo, levou a alguns exageros. Desatino, mesmo. Um dia Manzon foi "atropelado e morto", segundo nota publicada no O Cruzeiro. Era mentira, tudo forjado para o difunto aparecer risonho, rodeado de coroas fúnebres enviadas por amigos e autoridades, na mão um copo de uísque para brindar a sua resureição. Patético! Tudo valia para chamar a atenção.
O fato é que Manzon, que profissionalmente, no fim de sua carreira, acabou se voltando para o segmento de documentários, como produtor independente (criava o produto e o vendia ao Governo) foi sem dúvida a grande referência de foto-reportagem no Brasil nas décadas de 40 e 50 (teve vários seguidores), uma das grandes contribuições da França à imprensa brasileira que cabe ressaltar, neste ano de comunhão entre os dois países.
Mas não foi o único profissional francês a deixar a sua marca na mídia. Pela mesma época em que Manzon revolucionava o jornalismo do O Cruzeiro, Pierre Verger, etnólogo e fotógrafo francês aportava no Rio de Janeiro (1946), mais tarde fixando residência na Bahia. As suas fotos, misto de arte com documentário, logo ilustrariam algumas das reportagens de maior impacto nas revistas semanais. Mas isso é uma outra história que fica para outra oportunidade.






