Bienal do vazio e o vazio da cobertura cultural
Bienal do vazio e o vazio da cobertura cultural
Um andar todo dedicado a nada. Assim, rasteira, a mídia tem tratado o vazio que ocupa todo o espaço do segundo piso do prédio projetado por Oscar Niemeyer, em São Paulo. Certamente, a segunda das principais bienais de arte contemporânea no mundo (atrás somente de Veneza), a Bienal de Arte de São Paulo passa por um crise financeira sem precedentes e, diante da falta de dinheiro e perspectivas, a curadoria optou por incluir na programação uma espécie de espaço discursivo vazio, a questionar pontualmente os modelos expositivos e, nas entrelinhas, a incompetente administração da Fundação Bienal.
A "falta" de obras esvaziou também a cobertura da Bienal. Nos anos anteriores, a esta altura estaríamos todos cansados das reportagens em todas as mídias, repetitivas e elaboradas sob as fórmulas prontas, tímidas diante da malha complexa que é a arte contemporânea. Na TV, principalmente, os repórteres limitavam-se a confrontar a obra - quase sempre hermética, incompreensível, estranha ou bizarra, segundo a leitura implícita do próprio repórter - à ignorância do público, desqualificando, com seus chavões, tanto o esforço do artista quanto o empenho do observador. As perguntas mais freqüente ao visitante da Bienal, pelos repórteres, eram: "o que você entendeu dessa obra?" e "você gosta disso?". Nada mal, não fosse a intenção explícita de pôr aquele que contempla em estado ridículo, principalmente se criança, visivelmente pobre ou pouco familiarizado com a arte, como se a resposta claudicante demonstrasse que ali não era lugar dele. Também freqüente, os repórteres viam-se autorizados a fazer matérias questionando o que seria a arte hoje, frente aos novos formatos e novas linguagens.
Se a "Bienal do vazio", como tem sido chamada, tem algum mérito, é o de expulsar os repórteres do pavilhão, deixando a arte para os contempladores presenciais, impedindo que a Bienal se transforme, mais uma vez, em um grande evento de mídia.
Em 2006, em cobertura à Bienal de Arte para a Revista Cult, impus a mim um desafio: elaborar uma matéria sobre a exposição sem entrevistar uma única pessoa. Minha missão era contemplar os contempladores e registrar suas reações diante do inesperado. Me surpreendi com o efeito que as obras têm sobre as pessoas comuns. Para além do estranhamento forçado, os espectadores estabelecem avaliações profundas e decodificações inusitadas do trabalho dos artistas, muito diferentes das sonoras feitas pelos jornalistas de TV, quase sempre idiotizando os visitantes, reduzindo-os a mero espectadores deslumbrados diante da sua própria incapacidade de reflexão artística, puro preconceito de quem também não se esforça para pensar o lugar da arte nas sociedades contemporâneas.
O vazio da Bienal é, portanto, uma boa oportunidade também para discutir o vazio da cobertura de cultura pelo jornalismo. Não me refiro, evidentemente, aos segundos cadernos ou programas especializados em cultura e artes, mas à rasa tentativa de, digamos, "popularizar" a arte nos veículos massivos, em especial na TV aberta. O segundo andar vazio, que não desperta o interesse da mídia ("não rende imagens", dirá o pauteiro ou editor do jornal), está mais cheio do que parece. Lembra-me um trecho de um sutra budista, o Prajna Paramita (ou Sutra do Coração da Perfeita Sabedoria), onde se ouve: "Forma não difere de vazio / vazio não difere de forma". Resta descobrir como o budismo pode ajudar a entender e cobrir a arte contemporânea.






