Bienal da UNE: A multiculturalidade e a arte de resistência
Bienal da UNE: A multiculturalidade e a arte de resistência
Fonte: www.vermelho.org.br
Na tarde do terceiro dia da Bienal da UNE, a arte contemporânea na América Latina foi assunto de um debate que contou com a participação dos críticos de arte Paulo Sérgio Duarte e Fernando Cocchiarale e do artista visual Ivens Machado. Em pauta, a questão da multiculturalidade e a importância de se buscar uma arte que resista à hegemonia norte-americana, fugindo do estereótipo do exotismo imposto pelas culturas européias e estadunidense.
Em sua exposição, Cocchiarale traçou a evolução artística na América Latina, destacando, entre outros aspectos, as diferenças históricas que marcaram - e ainda marcam - as nações colonizadas pelos espanhóis em relação ao Brasil, de colonização portuguesa. Pela própria divisão territorial que constituía a Espanha do século 16, os países que foram por ela ocupados tenderam a absorver uma cultura mais fragmentada, enquanto no Brasil, a unicidade do território português teria influenciado diretamente a construção de uma cultura nacional mais coesa.
Tendo em vista os diversos fatores que constituem nosso continente, Fernando salientou que não existe um ser latino-americano ou uma cultura única que reflita o todo dos países da América do Sul: "A idéia de que poderia existir um ser latino-americano é uma construção ideológica e teórica, que o tempo acabou por derrubar, devido aos problemas e fragilidades que essa concepção apresentava. Não há uma latinoamericanidade", explicou. Segundo o crítico, essa unidade que teria estado presente na formação brasileira seria de cunho étnico e humanístico apenas, e não corresponde a uma relação de igualdade. É apenas o reflexo da força de negociação das oligarquias por uma cultura eminentemente branca.
Com relação à globalização, ele ressaltou que a rede de conexão viabilizada principalmente através da internet e a evolução tecnológica contribuíram diretamente para a dispersão superficial da cultura, que, sob a pele da democratização dos meios, terminaria por "suprimir e encobrir a hegemonia dos Estados Unidos". Ao mesmo tempo em que é preciso lutar pelo fortalecimento das culturas latino-americanas, Cocchiarale advertiu que a esquerda deve tomar cuidado para não cair no maniqueísmo simplório entre EUA e América Latina no que diz respeito à arte.
O multiculturalismo também teve destaque na discussão. O crítico apresentou uma retrospectiva do movimento, que ganhou importância nos EUA na segunda metade do século 20 a partir da união de "minorias" como negros, índios e mulheres, e foi responsável pela ascensão de culturas diversas. Segundo ele, no entanto, com o passar do tempo, o crescimento da indústria cultural norte-americana transformou-o num mero culto ao exotismo. O multiculturalismo é hoje uma ferramenta de velamento dos efeitos sociais negativos da globalização, uma valorização apenas simbólica das diferenças étnicas e culturais. Contra isso, explicou, é necessário resgatar a arte latino-americana mais complexa, que vai além dos clichês.
A intervenção de Paulo Sérgio Duarte procurou mostrar a tentativa de se buscar uma arte ao mesmo tempo brasileira e universal. Entre essas tentativas, destacou o concretismo e a utopia construtivista, que julgavam ser preciso uma linguagem visual formada por léxicos universais que possibilitassem a compreensão da arte nas mais variadas culturas. Dessa forma, procuravam fugir da arte brasileira focada em símbolos nacionais, como baianas e araras, voltando-se ao internacionalismo e às formas geométricas.
Com a globalização, veio a uniformização da arte. No entanto, "a questão poética que está por trás de uma obra não está ligada aos recursos tecnológicos", disse. A poesia que está inserida numa obra é o reflexo de um contexto e de uma época. Por isso, uma arte genuinamente brasileira não precisa se basear em símbolos usuais: é possível ser brasileiro fugindo do clichê. Para Duarte, "é uma ilusão achar que a globalização acabou com essas diferenças regionais. A inteligência poética não respeita fronteiras. Ela se manifesta ao acaso, permeada por diferenças históricas. Elas não nascem com uma etiqueta made in".
De São Paulo,






