Bar da Vila Madalena presta homenagem ao “Pasquim” misturando boemia e humor

Se o irreverente tabloide carioca O Pasquim vivesse em São Paulo, o bairro da Vila Madalena seria sua casa. Seguindo essa lógica, nasceu o bar em sua homenagem.

Atualizado em 11/03/2015 às 14:03, por Gabriela Ferigato.



Voltando algumas décadas, o bairro ganhou sua fama no início dos anos 1970, quando estudantes e professores, principalmente da Universidade de São Paulo (USP), passaram a morar no local por ser mais barato. Nessa mesma época, a população se reunia e juntava suas forças contra o governo ditatorial, a censura e a falta de liberdade de expressão.

Crédito: O publicitário Fabio Deri é o idealizador da homenagem ao "Pasquim"

Seguindo o eixo Rio-São Paulo, o tabloide carioca O Pasquim (1969-1991) foi uma importante e caricata voz durante o regime militar brasileiro. Unindo as duas peças, o publicitário Fabio Deri chegou a uma conclusão: o jornal e o bairro tinham tudo a ver. Então, em setembro de 2014, nascia o bar O Pasquim, localizado na rua Aspicuelta, no coração do bairro. Falando assim, parece que a ideia surgiu do nada e da noite para o dia, mas não foi exatamente assim.

A agência Xpand tem como cliente há mais de dez anos o Grupo Fit, donos dos bares Aurora, St. George’s Pub, She Rocks, entre outros. No começo do ano passado, Deri foi chamado para uma reunião que tinha como objetivo apresentar o novo projeto do grupo: o lançamento do Bar Aurora, localizado no Itaim, na Vila Madalena. “Eles mostraram a ideia, a planta. Eu disse: ‘Adorei, só não gostei do nome’, já esperando pedrada. Não é que não goste do Aurora, pelo contrário, mas acho que o ‘mood’ das regiões é diferente”, diz.


Depois de explicar que a Vila Madalena tinha outro estilo, uma cara mais boêmia e intelectualizada, Fabio vendeu seu ponto de vista, mas com um pequeno detalhe: teria exatamente uma semana para criar um nome para o bar. Assim começou sua intensa pesquisa sobre a história do bairro e do veículo até ligar os pontos. Sua ideia passou e foi aprovada por todos. “Mas falei que não ia ficar à vontade em abrir um local chamado Pasquim sem que as pessoas que fizeram parte dele soubessem de sua existência.


Por mais que não tivesse nenhum estabelecimento registrado com esse nome e fosse algo correto, era mais uma questão de pedir a benção”, afirma. Surgiu sua segunda missão, caçar o contato do escritor e cartunista Ziraldo. “Esse é o e-mail do Ziraldo?”, endereçou ao contato deixado em sua página oficial. Em menos de cinco minutos, uma resposta positiva e um número de telefone. Fabio explicou toda a história para Ivone, secretaria do escritor. “Ela estava ao lado dele e contou o caso. Só ouvi a voz ao fundo: ‘Fala para esse menino esperar vinte minutos que eu vou ligar para o Jaguar’.”

Até então, o único contato que o publicitário tinha feito com Ziraldo foi por meio das páginas do “O Menino Maluquinho”, livro que devorou quando criança. Passados dez minutos, Ivone liga com o escritor na linha. “Fiquei nervoso na hora. Ele foi muito gente boa, deu todo o apoio”, conta. O contato pessoalmente veio tempos depois, quando o jornalista participou da Bienal do Livro, em São Paulo (SP). Lá, Fábio e sua equipe entregaram alguns coletes coloridos para o cartunista – uniforme que os garçons usam em sua homenagem – e, é claro, alguns livros para autografar.


Il Pasquino

Entre os séculos XVI e XIX, os habitantes de Roma tinham o hábito de colar mensagens anônimas em diversas estátuas, conhecidas como “estátuas falantes”. Geralmente eram folhetos com conteúdo satírico e mensagens direcionadas a personagens públicos. Uma das mais famosas é a Pasquino. Além de inspiração para o semanário carioca, virou também o nome do elaborado cardápio do bar.

Crédito: Cardápio do "Pasquim" traz notícias e curiosidades sobre a Vila Madá

De periodicidade trimestral, é escrito e editado como um jornal “que serve notícias e apresenta comidas”. Além do menu, a publicação traz curiosidades da Vila Madá, dicas de música de décadas passadas, um personagem da região e até horóscopo. Na editoria “Êxodo rural em alta”, encontram- se as caipirinhas “Palavrão”, “Jangadeiros”, “Anistia”, “Cartum”, “Exilados”, entre outras.

“A ideia é a pessoa se achar no meio de tudo isso. É muito gostoso quando vejo alguém lendo o cardápio, é como se estivesse folheando um jornal mesmo. Isso que eu queria. Meu sonho é que um dia, daqui muitos anos, o cliente fale: ‘Tenho todos os cardápios de vocês’. Temos ainda que criar uma história nossa”, afirma o publicitário.


Alerta de spoiler da próxima edição do “Il Pasquino”. O chargista e cartunista Paulo Caruso, que visitou recentemente o bar, será a próxima “Persona da Madá”. O paulistano, que cresceu no bairro, também enviou algumas charges para a próxima publicação.

De acordo com Fabio, o nome do estabelecimento, sem dúvidas, foi um fator que chamou atenção do público. É difícil traçar o perfil da clientela, mas, segundo ele, O Pasquim se tornou uma opção que estava em falta na região. “Às vezes, vejo um grupo de pessoas mais velhas, de 60 anos ou mais, tomando uma cerveja, e crio uma história em minha cabeça. De que eles nunca mais tinham saído juntos, mas se encontraram novamente por causa do Pasquim.”