SJPMRJ - Em confratenização no Bar Aparelho, Stédille critica Lula duramente
SJPMRJ - Em confratenização no Bar Aparelho, Stédille critica Lula duramente
Atualizado em 27/01/2006 às 08:01, por
Por: Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Munícipio do Rio de Janeiro.
SJPMRJ - Em confratenização no Bar Aparelho, Stédille critica Lula duramente
"A salvação da esquerda brasileira está na formação da nova militância. Nunca a classe trabalhadora esteve tão mal e o presidente da República é de esquerda. O governo manteve o modelo econômico do neoliberalismo e nunca levantou um clips para reacender o movimento de massa. Isso é arte do imobilismo." A ferrenha crítica foi feita por João Pedro Stédile, coordenador nacional do MST, no bate-papo com jornalistas e estudantes que lotaram o Bar Aparelho, do Sindicato dos Jornalistas, na noite de segunda-feira (23).Economista formado pela PUC-RS com pós-graduação no México, Stédile criticou "a essência claramente neoliberal" do governo Lula. "A economia nacional está em crise, vai mal, e isso está relacionado com a forma de fazer, com o modelo neoliberal adotado pelo governo. O Estado brasileiro foi seqüestrado pelo capital estrangeiro e a taxa de juros é muito alta. E não tem nada de mercado, como dizem. É espoliação pura. Nem a própria esquerda tem noção do que isso representa. Lula não está no centro da decisão política deste país. Ele lê nos jornais as taxas de juros. Não manda bosta nenhuma."
Stédile participa da luta pela reforma agrária desde 1979 e é um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o mais importante movimento social das últimas décadas no Brasil. Filho de pequenos agricultores de origem trentina italiana, nasceu em Lagoa Vermelha (RS) e teve participação ativa na Comissão Pastoral da Terra (CPT). Para o dirigente, a crise da esquerda e do governo é trágica. "Há uma crise ideológica, já que a forma partidária entrou em crise. Parte disso está relacionada à falta de continuidade da esquerda em fazer política. Sou filiado ao PT e, nos últimos 10 anos, em que participei de muitas reuniões do partido, nunca foi discutido o projeto de governo. Eles apequenaram o projeto de governo. A política ideológica passou longe do processo eleitoral e, por isso, o quadro, no momento, é trágico. A esquerda brasileira está brincando de faz de conta."
Desafios para superar a crise
À vontade no Bar Aparelho - "não é aquele ambiente enfadonho" - Stédile disse que, após muita reflexão sobre a crise, o MST identificou cinco desafios que devem ser vencidos para contorná-la. O primeiro é estimular todo tipo de luta social, pois, "se não lutarmos, só vamos para trás". Em segundo, é preciso formar militantes. "A esquerda brasileira é uma merda, já que abandonou a formação de militantes de quadros. A Igreja, o Exército, a burguesia, todos ainda formam seus quadros, mas a esquerda, não. Precisamos fazer uma autocrítica séria. A revolução só vai ser feita se tivermos quadros preparados para isso. É uma medida vital para a sobrevivência da esquerda." O terceiro desafio é construir os meios de comunicação da classe trabalhadora, adequando-os aos avanços tecnológicos. "A classe trabalhadora tem que ter seus próprios meios de se comunicar com a massa popular." O quarto é a construção, com muito debate, de um projeto para o Brasil. A burguesia, segundo Stédile, já tem o seu, neoliberal. "E a esquerda? Temos de promover um debate entre as forças populares sobre esse projeto, acumulando forças em torno das idéias. Por último, temos de modificar o método de fazer política na esquerda brasileira, que abandonou o trabalho de base e não tem mais paciência para ser reunir com vizinhos, jovens, comunidades."
Indagado sobre o que poderia ser feito para mudar esse quadro, Stédile foi taxativo ao afirmar que a juventude trabalhadora das grandes cidades é o fator mais importante. "A energia da mudança é da juventude. Os cabeças brancas, que fazem a "revolução cotonete", servem para passar experiência para os jovens, para que eles não repitam determinados erros. Mas a velha guarda da esquerda está se aposentando ou morrendo e não estamos respeitando essa inteligência e essa experiência histórica. Estamos jogando tudo isso no lixo, ao invés de passar para os mais jovens."
Quanto ao papel do MST nesse processo de salvação da esquerda, Stédile foi, em sua opinião, bem realista. "O MST é pequeno. Não somos nada na luta de classes. O MST não vai fazer a revolução, não vai mudar o Brasil. Mas, se me derem dois milhões de jovens militantes, eu faço uma revolução nesse país. Ou nós organizamos a juventude urbana ou nós estamos lascados."
Liderança na América Latina
Stédile não concorda com a tese de que Lula influenciou as eleições presidenciais em outros países, como a Bolívia, que acaba de eleger Evo Morales, líder do movimento cocalero e do partido MAS (Movimento ao Socialismo), e o Chile, que elegeu a socialista Michelle Bachelet. "Acredito que as eleições dos outros países é que terão uma grande influência na eleição presidencial brasileira deste ano. E isso pode até ser benéfico para a esquerda. O Lula, no momento, é a terceira força política na América Latina, perdendo para o Chaves e o Evo Morales, quando, na verdade, pela força e importância do Brasil, deveria ser o primeiro."
Sobre as eleições de outubro, Stédile diz que o MST ainda não tirou posição sobre o assunto e que a esquerda deverá ir dividida às urnas, pois mesmo dentro do PT há divisões. "A esquerda vai travar uma forte luta eleitoral em 2006. Vai ser muito mais difícil do que em 2002, já que agora vai ser pau em cima do Lula. Em 2002, era o Messias que vinha aí; agora, não. Os fatores eleitorais mudaram. A esquerda tem o Lula, a Heloísa Helena. No segundo turno as pessoas tenderão a votar no Lula, mas o quadro ainda é muito difícil de ser diagnosticado."
Stédile rejeita a tese de que a classe média é que decide eleições no Brasil. "A classe média é uma titica e não decide eleição nenhuma. A bem da verdade, é carta fora do baralho, é descartável para a burguesia. Estudos mostram que, desde 94, apenas 1 milhão e 700 mil pessoas têm poder econômico no país para comprar um carro zero quilômetro. Ora, essa é a classe média brasileira, mas ainda sobram cerca de 180 milhões de pessoas, e essas, sim, é que vão decidir a eleição."
Qualquer projeto de mudança para o Brasil, segundo Stédile, deverá passar, obrigatoriamente, pela democratização dos meios de comunicação. "A mídia nos ataca para criar falsa visão e nos afastar, mas nós ganhamos com a dialética. É preciso que as pessoas tenham acesso à informação livre. É preciso também acabar com o aspecto monopólico da comunicação existente no país, pois as empresas desse ramo visam somente o lucro, objetivo que fere a Constituição."
Ao encerrar o bate-papo no Bar Aparelho, João Pedro Stédile afirmou que o MST está preparando uma cartilha para ser distribuída, num grande mutirão, de casa em casa, em paróquias, sindicatos e universidades, e se comprometeu a viabilizar a inclusão de um capítulo sobre o monopólio da comunicação, que proporá mudanças no setor e servirá de alerta para a população.
Após a palestra de Stédile, um abaixo-assinado de nove profissionais foi entregue ao Sindicato pelo jornalista Mário Augusto Jacobskind. No documento, os jornalistas criticam a cobertura da "mídia conservadora", afirmando que os veículos de comunicação criminalizam o movimento social. Os signatários também fazem um apelo para que os "companheiros jornalistas" não se deixem envolver pela prática de deturpação preconceituosa das notícias sobre o MST.






