Rio Capibaribe: O Recife assiste à destruição, por Tahysa Meirelles*
Rio Capibaribe: O Recife assiste à destruição, por Tahysa Meirelles*
Rio Capibaribe : O Recife assiste à destruição, por Tahysa Meirelles*
* Thaysa Meirelles é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco Telefone, fogão, sofá, televisão, ventiladores, ferro de passar e até caixa d´água. Seria comum se esses objetos fossem encontrados numa casa ou numa loja. No entanto, a triste realidade é que estes são alguns dos detritos já encontrados num dos mais famosos cartões postais do Recife, o rio Capibaribe. Diariamente é possível encontrar garrafas, pneus, sacos plásticos, latas, papéis, coliformes fecais e animais mortos.A forma como a cidade foi planejada reflete a maneira como o rio vem sendo tratado ao longo dos séculos. Bancos de praças, edifícios, tudo foi construído com as costas viradas para o Capibaribe, atribuindo-lhe somente a função de depósito de resíduos.
As margens em processo de assoreamento, o manguezal deteriorado e a fauna em extinção são conseqüências do despejo de esgoto doméstico e até mesmo industrial. Dados do último monitoramento feito pela Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (CPRH), feito no início deste ano, mostram que as águas do Capibaribe, nos trechos que cortam a cidade, variam entre poluídas e muito poluídas.
"No Recife, apenas 30% da área urbana tem coleta e tratamento devidos de esgoto. Tanto em favelas como em bairros de classe média, detritos estão sendo jogados diretamente no rio", afirma o diretor de controle ambiental da CPRH, Geraldo Miranda. Problemas no meio ambiente ainda acarretam outros ligados à saúde pública. "A cada R$ 1,00 investido em saneamento, são R$ 4,00 a menos gastos em hospitais e medicamentos", acrescenta.
Conseguir, junto ao poder público, o saneamento nas margens do rio, é o objetivo principal do Movimento Recapibaribe. Esse projeto ambiental é hoje um dos principais esforços pela preservação da água doce no Recife. "A saída seria apostar na educação ambiental, trabalhando esse tema nas escolas", afirma a coordenadora Maria do Socorro Cantanhede.
A solução depende de muitos fatores, entre os quais a vontade política e meios financeiros, passando pelo envolvimento da comunidade. "Até hoje já elaboraram megaprojetos em relação ao rio, mas não vi nenhum sair do papel", reclama Socorro.
A dona de casa Zilda de Lima mora no bairro Monteiro há 20 anos, e o rio passa nos fundos de sua casa. "O pessoal na comunidade tem um cuidado maior com o rio, mas quando a maré baixa o lixo que vem de longe fica acumulado aqui. Até cavalo e gente morta encontramos boiando".
A aposentada Judite Gomes também reclama da sujeira que passa por trás de onde resolveu ir morar há dois anos, mas indagada se gostaria de ir para outro lugar, com um sorriso de encantamento fala da beleza do Capibaribe. "Apesar do que estão fazendo com ele, ainda é muito bonito. Gosto de morar aqui e poder ver o Capibaribe no quintal de casa todas as manhãs".
Luta pela preservação - Logo ao entrar na sede no Movimento Recapibaribe pode-se observar uma curiosa decoração toda feita de lixo reciclado, são garrafas, latas e até mobília antiga. Todos os objetos ali encontrados foram retirados do rio Capibaribe. Uma cena interessante e que leva à reflexão.
A idéia dos coordenadores do projeto ambiental, André Luís e Maria do Socorro Cantanhede, no entanto, vai além da arte. Há 12 anos, além de procurarem limpar o rio, desenvolvem um trabalho de educação ambiental.
"Pretendemos alertar a comunidade e o poder público para a deterioração do Capibaribe e suas margens", explica a coordenadora. O lugar, no bairro de Casa Forte, à noite funciona como barzinho, o Capibar. Nele acontecem shows com bandas locais e de ritmos variados, geralmente temáticos. "O rio sempre é o ponto principal. O propósito é atrair o público jovem para esse trabalho", afirma Socorro.
Periodicamente fazem grandes "faxinas" no Capibaribe. Fios de cabo de aço atravessando o rio são ligados a folhas de bananeiras, formando-se uma barreira para o lixo, que é retirado com o auxílio de barcos. Dispensam redes para não prender os raros filhotes de peixes. Em 2000, conseguiram coletar cerca de 600 toneladas de lixo. 





