"Repórter do Futuro": 97 estudantes de jornalismo comparecem à seleção do projeto sobre direitos dos povos indígenas, em São Paulo
"Repórter do Futuro": 97 estudantes de jornalismo comparecem à seleção do projeto sobre direitos dos povos indígenas, em São PauloPor No último sábado (31/03), ocorreu a seleção dos alunos inscritos no novo módulo do projeto Repórter do Futuro: "Direitos dos Povos Indígenas".
Promovido pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), atrelado à CNBB, e pela OBORÉ (Projetos Especiais em Comunicações e Artes), o projeto deste ano teve 181 estudantes de jornalismo inscritos. Destes, 97 compareceram à sede da Oboré (região central de São Paulo) na manhã de sábado, às 10hs, para participarem do processo de seleção. Dos 97, 81 fizeram as provas, já que os demais eram alunos-ouvintes.
Neste ano, serão escolhidos 20 alunos, que participarão de uma série de palestras, aulas e terão acompanhamento individual para produzirem textos sobre a questão indígena no Brasil. Dentre os 20 participantes, nove serão selecionados para fazerem uma viagem para a Amazônia, em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para conhecerem melhor a realidade dos índios. A viagem está prevista para meados deste ano.
Pão com manteiga
Os estudantes, primeiramente recebidos na sede da Oboré com café da manhã, logo foram conduzidos ao prédio vizinho do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP), para o auditório "Vladimir Herzog". Quando o relógio marcava 10h15 - e a ansiedade já havia tomado conta da maioria dos "focas" ali presentes - o jornalista Sérgio Gomes, diretor da Oboré, deu início à reunião.
Gomes fez uma breve explicação de como funcionará o módulo do projeto deste ano até chamar, um a um, os palestrantes que comporiam a mesa: Ana Luisa Zaniboni, diretora da Oboré; Marcy Picanço, editora do jornal Porantim , publicação do CIMI; Vanessa Souza, missionária do CIMI-SP; Raílda Herrera, jornalista da rádio holandesa Nederland e a antropóloga e professora da PUC-SP, Lúcia Helena Rangel.
"A visão estereotipada que os jornalistas têm dos índios vem da falta de conhecimento"
Cada palestrante falou por cerca de 20 minutos e um dos pontos convergentes de suas falas atenta para o motivo principal da escolha do assunto pelos idealizadores do projeto: o visível desconhecimento dos jornalistas sobre a questão indígena no Brasil e a consequente falta de equilíbrio na cobertura da imprensa sobre o assunto.
Para a jornalista Marcy Picanço, editora do Porantim - jornal mensal produzido pelo CIMI há 28 anos e o único meio voltado exclusivamente à causa indígena no Brasil - o projeto pode possibilitar com que os estudantes, futuros jornalistas, criem um olhar diferente sobre a questão. "A visão estereotipada que os jornalistas têm dos índios vem da falta de conhecimento. Muitos acham que todos os índios são iguais", diz.
Segundo Picanço, uma das pretensões é criar, a partir da produção dos alunos, uma espécie de cartilha voltada para os jornalistas que cobrem a questão indígena. "Acreditamos muito no resultado deste projeto e, apesar de ser um assunto novo para muita gente aqui presente, acho que vai despertar o interesse de vocês", disse à platéia.
Jornalistas-antropólogos
"Para a cobertura da questão indígena, não adianta o editor vir com uma pauta definida. O repórter deve dizer: ´Vou lá ver o que está acontecendo e depois faço a matéria´. A dica vem de Raída Herrera, repórter da rádio holandesa Nederland e a primeira editora do Porantim. Herrera foi vencedora do prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos em 2005, com uma série radiofônica sobre comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul (MS).
Para ela, só produz boas reportagens quem faz uma grande pesquisa sobre o assunto, principalmente para desmistificar as idéias comumente propagadas pela mídia. "O ideal é fugir do lugar-comum e de toda a porcaria produzida pelos livros didáticos, jornais, revistas, TV, sobre o assunto".
Já por volta do meio-dia (após a exibição de um documentário produzido pelo CIMI, intitulado "As caravelas passam", de João Augusto Sampaio) foi a vez da professora de Antropologia do curso de jornalismo da PUC-SP e assessora de imprensa do CIMI, Lúcia Helena Rangel, fazer suas considerações.
Há trinta anos trabalhando na área, a antropóloga disse que costuma responder hoje em dia (para seus alunos, colegas de mestrado e jornalistas), as mesmas perguntas que lhe eram feitas trinta anos atrás sobre os índios. "A imagem do índio ou é de uma pessoa ´safada´, preguiçosa, ou de um coitado", diz.
A professora, que também dará aulas aos alunos durante o transcorrer do curso, disse que a questão dos conflitos de terra no Brasil é tratada de forma distorcida pela mídia. "O índio é totalmente negado neste país. É uma ´categoria` invisível, que ninguém quer ver, reconhecer".
Após Lúcia Helena, o jornalista investigativo Cláudio Tognolli, mestre em psicanálise, doutor em filosofia das ciências e que já trabalhou na Folha de São Paulo , Veja , Rádio CBN, Caros Amigos, dentre outros veículos de comunicação, foi convidado para encerrar as atividades do dia.
Também professor da ECA-USP, Tognolli falou sobre a profissão e como os estudantes poderiam fugir do ´jogo de armar da imprensa`, que, para ele, está presente em praticamente todas as redações. "As redações querem pessoas que se deslocam desse jogo de armar, que se mexam. Elas procuram pessoas que querem dotar o jornalismo de algum valor", disse aos estudantes.
Resultado
A Oboré já divulgou o resultado da seleção dos 20 alunos para o Projeto "Repórter do Futuro" deste ano. Acesse o site www.obore.com.br e confira a lista. Os alunos selecionados deverão confirmar o interesse pela vaga até o meio-dia da próxima segunda-feira (09/04), enviando um email para reporterdofuturo@obore.com, com cópia para arlete@obore.com.
Outras informações podem ser obtidas através do telefone (11) 3214-3766. 





