RCTV: Uma vingança fria e seletiva

RCTV: Uma vingança fria e seletiva

Atualizado em 29/05/2007 às 14:05, por Pedro Venceslau/Redação Revista IMPRENSA.

RCTV : Uma vingança fria e seletiva

Por Foto: Imagem de estúdio de notíciário da RCTV/Divulgação

Dizem que a vingança é um prato que se come frio. No caso da Venezuela, o presidente Hugo Chávez esperou cinco anos para a revanche contra a RCTV. Motivos não faltam para a ira do presidente bolivariano contra o mais antigo canal de TV do país.

Em 2002, a RCTV e a Venevision, do empresário Gustavo Cisneros, estiveram na linha de frente do movimento que derrubou o presidente. O comando golpista, formado por empresários da comunicação, militares rebelados e sindicalistas, permaneceu apenas 48 horas no poder. Chávez saiu do episódio mais forte que nunca, mas preferiu adiar sua contra-ofensiva. Não foi aos tribunais, como era de se esperar. Além de fria, a vingança do presidente foi seletiva.

No último domingo, não foi apenas a concessão da RCTV que expirou. A da concorrente Venevisíon, dona da maior audiência do país, também caducou, mas foi renovada por mais 20 anos. Muita gente se pergunta: por que Gustavo Cisneros e seu canal foram poupados? "Especula-se que Cisneros, por intermédio do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, fez um acordo de subsistência com Chávez. O fato é que Chávez chamava o dono da Venevisíon de "Capo di tutti capi dos gangsters da mídia privada". Depois, de uma hora para outra, o presidente parou de meter-se com Cisneros e vice-versa", explica Eduardo Sapene, vice-presidente da RCTV.

Especulações à parte, o fato é que a Venevisíon é a grande herdeira da audiência e dos anunciantes da RCTV. A menor parte do "espólio" do canal 2 irá para a Televen. Terceiro grande canal do país até o último domingo, quando pulou para a segunda posição, a Televen também mudou bruscamente sua linha editorial e deixou de atacar o presidente. Isso significa que hoje não existe na TV venezuelana nenhum canal de TV com sinal aberto e alcance nacional que faça oposição ao governo.

Alguns episódios ocorridos nos últimos dias ilustram bem a confortável situação do presidente junto à mídia local. Informa o jornalista Fabiano Maisonnave, correspondente da Folha de S.Paulo em Caracas, que um grupo de funcionários da Venevisíon convocou uma reunião com diretores da emissora para protestar contra a linha editorial do canal, que vem dando pouco destaque aos protestos de rua contra o fim da concessão da RCTV. Chama atenção o fato do dono da emissora não ter se pronunciado sobre o caso.

Cobertura brasileira

A chamada grande imprensa brasileira tem dado ampla cobertura e apoio para a RCTV. A defesa do canal, contudo, não é unânime. Enquanto os jornalões publicam editoriais em defesa da liberdade da imprensa, parte da esquerda grita em defesa do presidente venezuelano. "Em mais uma prova de coerência e coragem, o presidente Hugo Chávez não se intimidou diante das fortes pressões e manteve o compromisso de não renovar a concessão da RCTV", afirma, em artigo publicado na Internet, o venezuelanista Altamiro Borges, autor do livro "Venezuela que se inventa" e membro do Comitê Central do PCdoB, que defende a não renovação da RCTV.

Quem te viu, e quem Tves

No ar desde o último domingo, às 0h19, a Tves, o canal público que substituiu a RCTV, tem funcionado na base da improvisação. A grade esta tomada por "enlatados", desenhos animados e propaganda oficial. Segundo a emissora, o primeiro telejornal do novo canal deve estrear nesta terça-feira (29/05). A resistência da RCTV tem sido a Internet. Principal produto jornalístico da emissora, "O Observador" tem sido transmitidos pela WEB, com destaque para os protestos contra o fim da emissora.

Lula no muro

O Palácio do Planalto evitou entrar na polêmica. Primeiro, recusou o pedido de Chávez para assinar uma moção contra a RCTV no âmbito do Mercosul. Quando os protestos viraram notícia, o governo não aceitou as pressões de parlamentares e organismos internacionais para manifestar-se em defesa da emissora. Coube ao ex-presidente José Sarney, aliado de Lula, a missão de subir a tribuna do Senado para discursar contra atitude de Chávez. "A democracia é uma palavra, mas sobretudo um estado de espírito. Quando ela começa a ser adjetivada, começa a decompor-se", disse o senador.

O debut de Chávez

Na manhã de 4 de fevereiro de 1992, o então desconhecido coronel Hugo Rafael Chávez Frias, um dos cabeças do fracassado movimento golpista que tentou derrubar o presidente Carlos Andrés Perez, estava rendido, junto com seus companheiros que haviam tomado o Museu Histórico Militar, em La Planície, a menos de dois quilômetros do Palácio Miraflores, sede do executivo, quando, na TV, o presidente dizia que a situação estava sob controle. Não era verdade. Os golpistas que tomaram a base aérea de La Carlota, as guarnições de Maracay, Maracaibo e Valência, se recusavam a depor as armas.

Depois de uma série de reuniões, o Ministério da Defesa encontra uma solução para acabar com a crise. Chávez deveria exortar seus companheiros, pela televisão, a render-se. Conta o livro "Hugo Chávez sem uniforme - uma história pessoal", que o presidente Perez aceitou a idéia, mas antes fez uma ressalva: a mensagem precisava ser gravada e editada. A ordem foi clara. "Desde já lhes digo: não permitam que ele fale pela televisão em transmissão direta". Apressados e sem recursos, os militares desobedeceram a ordem. E ainda permitiram que Chávez lavasse o rosto, colocasse sua boina vermelha e falasse de improviso. Em cerca de um minuto, Chávez soltou de uma só vez 169 palavras. A mensagem correu o país e foi repetida a exaustão nas TVs. Seus companheiros entregaram as armas. No carnaval daquele ano, a fantasia preferida das crianças foi a boina vermelha e o uniforme militar. O golpe ganhou um rosto, que capitalizou o sentimento popular de insatisfação que dominava o país. Esse debut de Chávez na mídia foi o marco zero de uma relação pendular de amor e ódio entre ele e os meios privados de comunicação.

Fabiano Maissonave, o olhar brasileiro em Caracas

O jornal Folha de S.Paulo aumentou, de forma significativa, a qualidade de sua cobertura internacional ao enviar a Caracas, como correspondente, o repórter Fabiano Maisonnave. Aos 31 anos de idade, Maisonnave ocupa um posto privilegiado: é o único jornalista de um grande veículo brasileiro vivendo no país de Chávez. Além dele, apenas a jornalista Claudia Jardim, do site Carta Maior, envia, como colaboradora, textos diretos da capital venezuelana.

A decisão da Folha foi maturada ao longo do ano de 2006. O jornal, que há muito tempo namorava a idéia de enviar alguém à Venezuela, estava em dúvida se instalava um correspondente na Bolívia ou em Caracas. Foi a partir da terceira reeleição de Chávez, quando ficou claro qual seria sua agenda política do terceiro mandato, que o jornal paulista decidiu por Caracas.

Outros jornais e emissoras enviaram jornalistas para cobrir os desfechos do caso RCTV.

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