"Em Summa": Assessor internacional de Lula passa a campanha a limpo
"Em Summa": Assessor internacional de Lula passa a campanha a limpo
"Em Summa" : Assessor internacional de Lula passa a campanha a limpo
Por O jornalista Giancarlo Summa estava morando na França, onde era assessor de imprensa do BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, cargo que ocupou nos últimos três anos, quando foi convidado para trabalhar como assessor de imprensa responsável pelo atendimento a mídia internacional da candidatura Lula."Minhas roupas e livros ainda estão em Paris, em Mont Matre", conta. Casado, sem filhos, com 41 anos de idade, Summa é italiano e chegou ao Brasil muito jovem, para ser correspondente do jornal italiano L´Unitá .
Corria o ano de 1989. Uma de suas primeiras pautas foi cobrir o candidato Lula. Em 1990, Summa juntou seu material e escreveu uma pequena biografia sobre Lula, que foi lançada só na Itália.
Em 1995, o jornalista italiano foi editor-chefe da revista Atenção , onde trabalhou com Raimundo Pereira. Depois disso, foi chefe do escritório brasileiro da Reuters e repórter especial da CartaCapital antes de aceitar o convite, feito por José Dirceu, para assessorar Lula em 2002.
"Eu achava que ia haver um problema sério do Lula com a mídia internacional. Então, elaborei um projeto sobre isso. Na campanha, eu era quase um gestor de crise. Passava os dias conversando com The Economist , Financial Times e dizendo `Não vai ter loucura´".
Nesta entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, concedida logo depois do debate final da TV Globo, no Projac, Summa avalia a cobertura da mídia no segundo turno, conta detalhes sobre os bastidores e passa a limpo o suposto "complô da Globo contra Lula", apontado por CartaCapital :
IMPRENSA - Como o núcleo da campanha de Lula recebeu a reportagem de CartaCapital , apontando uma suposta trama da mídia para levar a eleição ao segundo turno?
Giancarlo Summa - Decidimos não transformar as matérias da CartaCapital em ferramenta de campanha. Achamos que isso acirraria mais os ânimos com a imprensa. Não valia a pena fulanizar com uma emissora. Essa reportagem da CartaCapital confirmou uma impressão que se cristalizou ao longo do processo: nesta campanha a mídia teve um atuação inédita. Houve uma homogeneidade total no ataque contra o Lula. Foi uma cobertura muito pouco isenta, com viés agressivo contra o presidente. Esta história da divulgação das fotos do dossiê foi de uma gravidade sem precedente. A reportagem da Carta , somada a outras informações que temos de dentro das Redações, comprovam que houve uma determinação das direções dos veículos para esconder dos seus leitores a realidade. Esconderam que foi um vazamento armado por um delegado, que fotografou o dinheiro. Disseram que as fotos foram furtadas sabendo que isso era mentira. Os repórteres escreveram essa versão mentirosa, sem dar nomes.
IMPRENSA - A Globo errou apenas neste episódio?
Summa - Na média, a mídia eletrônica se comportou de maneira mais equilibrada que a mídia escrita. A Globo tem quase 50% da audiência. Como mais da metade da população brasileira vota no Lula, eles não podem ter uma escolha que contrarie frontalmente o seu público. Já a imprensa escrita no Brasil é nanica. Os leitores de jornal apóiam o Alckmin, mas não decidem eleição.
IMPRENSA - A que jornais você se refere?
Summa - Aos quatro principais por tiragem: Estadão , Globo , Folha e Extra . Estes jornais não decidem eleição, mas ajudam a determinar a agenda política. Nestes jornais, uma dúzia de colunistas dão a linha. Eles são todos contrários aos Lula e favoráveis ao Alckmin. Quem diz isso não sou eu; um levantamento do Observatório Brasileiro de Mídia, especifico sobre colunistas, mostrou que a esmagadora maioria deles costuma criticar Lula.
IMPRENSA - Na sua opinião, quais foram os colunistas que mais pisaram na bola durante a eleição?
Summa - O Clóvis Rossi, da Folha , acredita que o governo Lula é o culpado por todos os males do universo. Ele chegou a escrever que a culpa da morte do Jean Charles de Menezes, o brasileiro que foi assassinado pela polícia em Londres, é do Lula. Viajou na maionese total...
IMPRENSA - E a Dora Kramer?
Summa - É uma viúva do Fernando Henrique.
IMPRENSA - Eliane Cantanhêde?
Summa - Depende. Ela dá uma no cravo e outra na ferradura. Não é a mais virulenta. Segundo dados do Obsrevatório de Mídia, todos os colunistas são francamente críticos ao Lula.
IMPRENSA - E o Franklin Martins?
Summa - Ele é uma pessoa de esquerda. Mas foi ele que, no debate da Band, perguntou de onde veio o dinheiro do mensalão. O fato de ele ser de esquerda não significa que ele passa a mão na cabeça do PT.
IMPRENSA - Você participou da campanha de 2002 do Lula. Qual a diferença entre fazer campanha com um candidato e com um candidato/presidente?
Summa - A diferença, em primeiro lugar, é o tipo de cobrança. Um candidato tem promessas, idéias e programas sobre o que vai fazer se for eleito. No caso do presidente da República, existe muita cobrança com relação ao que o governo efetivamente já fez. O tipo de pauta é diferente. Você não está falando de promessas, mas de realizações e problemas do governo.
IMPRENSA - Como vocês separam o trabalho de assessoria entre o presidente e o candidato para evitar o uso da máquina?
Summa - Quando a atividade é de campanha, é coisa nossa; quando é de governo é coisa deles. Vou dar um exemplo: a campanha adversária acusou o governo de ter feito uma manobra eleitoreira ao liberar R$ 1,5 bilhão de financiamento para a agricultura. O objetivo seria comprar o apoio de governadores. Isso não é verdade. Nesse caso, quem responde é o governo. Embora o ataque fosse à campanha, quem fez a liberação foi o governo.
IMPRENSA - É uma linha muito tênue...
Summa - Sim. Você tem que analisar caso a caso. Nesta campanha tivemos menos gente trabalhando na comunicação que em 2002. Por outro lado, as viagens exigem uma estrutura maior e mais complexa. Apesar do Lula viajar como candidato, ele é o presidente da República. Isso implica em levar chefe da segurança, médico, ajudante de ordem. Por essa razão, viajamos com o avião da Presidência, o sucatinha, aquele Boeing 737. A campanha paga todos os gastos do avião.
IMPRENSA - Quer dizer que a campanha acaba ficando mais cara para o PT...
Summa - Sim, porque existe uma obrigação institucional.
IMPRENSA - E em relação à comunicação?
Summa - Temos que admitir: no primeiro turno a equipe foi enxuta demais. As pesquisas indicavam que iríamos ganhar com relativa facilidade. No primeiro turno, o presidente Lula optou por uma campanha em cima do programa e de suas realizações. Ele fez 40 comícios, mas poderia ter feito muito mais. Podia, ainda, ter feito uma campanha mais agressiva. Não tivemos a preocupação de chegar na jugular do adversário, como se faz quando existe uma competição em que você tem a possibilidade de ganhar ou perder.
IMPRENSA - O clima era de "já ganhou"?
Summa - Praticamente... Por isso nossa equipe ficou mais observando, acompanhando as coisas, tentando criar as melhores condições possíveis de trabalho.
IMPRENSA - Nas entrevistas concedidas pelo Lula, quem pegou mais pesado?
Summa - As duas entrevistas mais agressivas, na minha opinião, foram no "Jornal Nacional". Dos quatro candidatos entrevistados no "JN" no primeiro turno, Lula foi o que recebeu as perguntas mais longas. Para os outros candidatos as perguntas eram de 20 segundos e a resposta de um minuto e meio. No caso do Lula, as perguntas do Bonner eram verdadeiras declarações de 1 minuto e 20; era quase um debate, não parecia entrevista. As nossas pesquisas mostraram que isso causou uma certa surpresa entre os telespectadores que assistiram as quatro entrevistas do "JN". Lula teve a melhor performance, segundo a equipe de telespectadores. Outra entrevista muita agressiva foi feita pelo jornal O Globo , no Palácio da Alvorada. O tom do jornalista foi muito agressivo. No segundo turno a entrevista da Folha de S. Paulo foi a mais cordial, mas foi, também, a que teve a edição mais maliciosa.
IMPRENSA - O que você achou do livro "Viagens com o Presidente"?
Summa - Conheço pouco esses dois repórteres. O livro foi feito com muito esforço, mas tem vários erros de apuração, especialmente quando fala sobre procedimentos internos. Todas as "revelações" foram histórias ouvidas de segunda ou terceira mão. É complicado sair por aí colocando aspas na boca do presidente, coisas que saíram da boca de terceiros. Nunca se sabe se é verdade ou não.
IMPRENSA - Esse livro foi muito comentado no estafe da presidência?
Summa - Foi comentado. O livro passou de mão em mão. Deu algum trabalho...
IMPRENSA - O presidente leu o livro?
Summa - Acho que não. Mas alguém comentou com ele, já que o assunto podia surgir em alguma entrevista.
IMPRENSA - Por que você não foi trabalhar no governo depois de 2002, quando você assessorou Lula ao lado de Ricardo Kotscho?
Summa - Não fui chamado para a composição da primeira equipe. Não calhou. Eu seria a escolha natural para assumir a parte de atendimento à mídia internacional no Planalto. Mas o Kotscho decidiu manter a pessoa que já estava no cargo e trabalhava com a Ana Tavares, do PSDB. Foi uma escolha. Chefiei, por alguns meses, o escritório da Radiobrás em São Paulo. Recebi uma boa oferta do Banco Interamericano para ser assessor de imprensa para a Europa do BID.
IMPRENSA - Por onde andou o Larry Rohter [correspondente do The New York Times que afirmou que o presidente Lula bebe demais] nestas eleições?
Summa - Ele seguiu vários comícios, mas escreveu pouco. Fez uma cobertura mais equilibrada que em 2002. 





