Morte em Porto Ferreira: "Peço para que a imprensa não esqueça a morte do meu marido
Morte em Porto Ferreira: "Peço para que a imprensa não esqueça a morte do meu marido
Morte em Porto Ferreira : "Peço para que a imprensa não esqueça a morte do meu marido
Por Há 15 dias, morria, na cidade de Porto Ferreira, interior de São Paulo, o jornalista Luiz Carlos Barbon, de 37 anos, com dois tiros disparados à queima-roupa. Quatro dias após sua morte, o Portal IMPRENSA esteve na cidade, e lá, conversou com Kátia Rosa Camargo, esposa e mãe dos dois filhos do jornalista.Kátia tem 37 anos e há 12 estava casada com Barbon. Nesta entrevista, ela conta um pouco sobre a história do casal, a rotina do jornalista e fala também sobre medo de voltar à casa onde mora, por temer que algo possa acontecer aos seus filhos.
Para ela, não há dúvidas de que o jornalista foi assassinado em razão das matérias que escrevia e, por isso, pede a ajuda da imprensa, para que este crime não caia no esquecimento. Acompanhe.
IMPRENSA - Há quanto tempo você estava casada com o Barbon?
Kátia Rosa Camargo - Morávamos juntos há 12 anos, mas nos conhecemos há 17. Nos vimos, pela primeira vez, em um baile, em Tambaú (SP). Depois disso, ficamos juntos até ele vir morar em Porto Ferreira (SP).
IMPRENSA - E então vocês se casaram...
Kátia - Não, nós resolvemos morar juntos. Nossa filha mais velha já tinha dois anos. De imediato, logo que ela nasceu, não tinha dado para ele vir e cada um ficou em sua cidade, depois resolvemos ficar juntos de vez.
IMPRENSA - O Barbon polêmico, jornalista, é o que todos têm em mente nesse momento. Mas como ele era em casa?
Kátia - Ele era uma pessoa muito simples, mas muito inteligente. Nossa casa, que nós estávamos construindo aos poucos, foi toda feita por ele, até mesmo os projetos. Tudo está da maneira como ele pensou, do jeito nele. Ele era uma pessoa, que o dia, para ele, era curto. Acordava sempre muito disposto para ir atrás de tudo. Por exemplo, eu não tinha tempo de ir às reuniões de escola do meu filho. Ele ia em todas. Ele participava de tudo. Resolvia todos os problemas.
IMPRENSA - Foi na época do jornal Realidade que Barbon entrou no jornalismo?
Kátia - Foi com o jornal mesmo. Antes, ele já tinha feito de tudo. Quando ele vio morar aqui, nós fomos viver em uma casinha nos fundos de uma clínica veterinária. Ele trabalhou de assistente nela. Então, ele resolveu sair de lá e trabalhar por conta. Ele tosava cachorro, fazia cobranças na rádio. Ele não tinha registro em carteira, mas não parava, nunca estava parado.
IMPRENSA - Então, veio o Realidade ...
Kátia - Sim. Ali ele tomou gosto pelo jornalismo e pela política. Quando eu o conheci, em Tambaú, ele já havia sido assessor de um prefeito na cidade, anos atrás. E mesmo morando na clínica, ele já era muito atento a essas coisas de jornais. Eu aprendi a ler jornal e assistir jornal com ele, porque eu não gostava. Ele assistia todos e sempre se mantinha informado de tudo.
IMPRENSA - Com o jornal, quando ele descobria alguma novidade, ficava muito ansioso? Queria publicar rápido?
Kátia - Ele corria atrás de todas as notícias. Tanto que muita gente passou a procurá-lo para pedir ajuda, contar irregularidades. Só ele denunciava as coisas. Sozinho. A troco de nada.
IMPRENSA - Ele não cobrava pelas matérias?
Kátia - Não. Não cobrava nada. Ele não fazia por dinheiro, fazia por gosto mesmo. Ele queria fazer, queria ajudar. Ele era assim com tudo. Para você ter uma idéia, no final do ano passado, meu irmão sofreu um acidente e chegou quase morto ao hospital. Foi o Barbon que correu atrás de médico, conseguiu ambulância, remédios, tudo. Ele era muito prestativo.
Kátia entre seus filhos, Carla Juliana (14) e Luiz Felipe (10)
IMPRENSA - Quanto às matérias, ele tinha preocupação em provar o que escrevia?
Kátia - Tinha sim. Essa é uma coisa que ele sempre me disse. Ele que a gente nunca pode falar alguma coisa sem ter provas. Então, tudo o que ele falava, ele tinha provas. E quando ele ia nas entrevistas de rádio, que ele estava concedendo nos últimos tempos, ele dava nomes...
IMPRENSA - Mas ele, realmente, não tinha medo?
Kátia - Não tinha medo. Muitas vezes eu o repreendi, nós brigamos por causa disso. Eu não queria mais que ele continuasse com isso, porque ele tinha profissão, não precisava ficar se expondo desse jeito, sem ter qualquer retorno financeiro.
IMPRENSA - O que ele fazia para sobreviver? Qual era a fonte de renda dele?
Kátia - Ele vendia publicidade.
IMPRENSA - Você soube de boatos, de que o Barbon teria usado matérias para extorquir os envolvidos?
Kátia - Eu ouvi e isso é uma grande mentira. Tem gente querendo sujar a imagem do Barbon, mas isso é ridículo. Ele era uma pessoa honesta, nunca roubou nada de ninguém. Ele, simplesmente, gostava da profissão de jornalista.
IMPRENSA - O Barbon vinha recebendo muitas ameaças de morte. Essas ameaças começaram de um tempo para cá ou sempre aconteceram?
Kátia - Ele sempre recebeu ameaças, desde que começou a escrever. Já jogaram até coquetel molotov na minha casa. Ele recebia bilhetes de ameaças, só que, infelizmente, não sei onde ele guardou uma pasta, que sempre andava com ele e que tinha esses documentos mais importantes... não sei onde foi parar. Precisava achar, porque aí eu poderia provar as ameaças que ele vinha sofrendo.
IMPRENSA - Vocês têm suspeitas de quem possa ter sido o mandante do assassinato?
Kátia - Sempre tem. Nós temos, mas preferimos não abrir. Mas nenhum crime é perfeito e têm que achar que fez isso. Em uma barbaridade, ele foi executado. E tem outra: ele não cobria e não falava sobre crimes como tráfico de drogas, por exemplo. Ele cobria só política e gostava das coisas certas.
IMPRENSA - Ele tinha muita vontade de ser vereador. Por que?
Kátia - Ele queria ajudar as pessoas e também ter uma vida mais calma.Não sei quanto ganha um vereador, mas ele dizia, vamos supor, que se o salário fosse de R$ 1 mil, R$ 500,00 ele gastaria com os filhos dele, e o restante ele ajudaria as pessoas: remédios para asilos, por exemplo.
IMPRENSA - Você apoiava esses planos?
Kátia - Apoiava sim. Achava bacana isso dele. Ele gostava de ajudar as pessoas, nós fazíamos isso juntos.
IMPRENSA - Com tantas ameaças de morte, ele deixou alguma instrução para vocês, caso acontecesse algo com ele?
Kátia - O que ele dizia é para que os nossos dois filhos estudassem e se transformassem em pessoas decentes, que não fizessem com que ele se envergonhasse, estivesse onde estivesse. Falava também para que eu não saísse da casa onde nós moramos. Dizia que aquele era o cantinho dele, o lugar que ele mais gostava. Disse também, para que eu cuidasse de tudo o que nós conquistamos com nosso esforço.
IMPRENSA - E sua vida daqui para frente?
Kátia - Eu ainda estou meio perdida. Quero pegar uns dias de férias para poder acertas as coisas. Estou com medo de que possa acontecer alguma coisa com meus filhos lá em casa, que é afastada, então, tenho medo. Estou dormindo na casa de amigas minhas, irmãs. Ainda estou com medo.
IMPRENSA - Teme represálias?
Kátia - Só vou ter paz quando prenderem que matou e quem mandou. Até eu peço para que a imprensa se una, pois de um jeito ou de outro, ele era colega de profissão de vocês. Queria que a imprensa não deixasse isso de lado, que não esqueça a história. O trabalho dele era muito bonito, feito com honestidade, vontade. Esse crime não pode ficar impune. Tenho certeza de que o motivo da execução foi alguma matéria que ele fez. Se a pessoa tinha raiva dele, se não gostava dele, que buscasse seus direitos na Justiça, não tirando sua vida.






