Gerson Luiz Martins, presidente do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, defende um exame para formandos em jornalismo

Gerson Luiz Martins, presidente do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, defende um exame para formandos em jornalismo

Atualizado em 21/10/2005 às 15:10, por Redação Portal IMPRENSA.

Gerson Luiz Martins, presidente do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, defende um exame para formandos em jornalismo

Nesta entrevista para o Portal Imprensa , o professor Gerson Luiz Martins, presidente do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, passa a limpo a situação do ensino de jornalismo no país. E defende um exame para os formandos em jornalismo. Acompanhe:

Portal Imprensa - O debate sobre a validade do diploma de jornalismo está na ordem do dia. Muita gente alega que os cursos de jornalismo não deviam ser obrigatórios. Qual a importância do diploma para o jornalismo?
Gerson Luiz -
A atividade jornalística, de fundamental importância para a sociedade contemporânea, requer uma preparação sólida, abrangente e qualificada, através da qual o profissional tenha conhecimentos das várias áreas em que o jornalismo tem relações, como o direito, a sociologia, a psicologia, a antropologia; requer ainda o amplo domínio dos processos de produção no jornalismo. Esses requisitos não se adquirem no exercício de escrever um texto, editar e publicar, ou seja, a prática ou a manipulação das técnicas jornalísticas não é suficiente para a produção jornalística.
Assim, é de fundamental importância e necessidade que o profissional do jornalismo seja qualificado nos cursos universitários. O jornalismo adquiriu, ao longo dos últimos 120 anos, uma função de contribuição para o desenvolvimento social, uma atividade complexa e que não se resume à distribuição da informação. Um profissional, produtor de notícias nesse nível, não prescinde da formação superior.

Portal Imprensa - O senhor acha que o governo precisa exercer uma política mais dura em relação à abertura de novos cursos de jornalismo no Brasil?
Gerson Luiz -
Hoje temos um número exacerbado de Curso de Jornalismo. Muitos cursos começam a fechar. Em outro locais, cursos em que se ofereciam vagas em dois turnos, manhã e noite, há mais de um ano oferecem apenas um turno, porque não há demanda. Atingimos a saturação da oferta. A atividade jornalística ainda se reveste de um "glamour" decorrente dos "astros" do telejornalismo, e isso atrai muitos jovens aos cursos, principalmente nas instituições que têm credibilidade.
Mas a realidade do mercado de trabalho é cruel e começa a desanimar esses egressos. Neste estágio é imprescindível que o Ministério da Educação, com o apoio do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo e da FENAJ, inicie imediatamente um processo de regulação e até mesmo de suspensão de novos cursos, além de desenvolver uma metodologia de avaliação dos cursos atuais que identifique claramente os bons e maus cursos. A partir disso, sem qualquer lobby político, fechar os cursos deficitários.

Portal Imprensa - Como o senhor avalia a qualidade do ensino de jornalismo hoje?
Gerson Luiz -
O quadro dos cursos de jornalismo no país é muito diversificado. Temos cursos de excelente qualidade, como por exemplo, o Curso de Jornalismo da UFSC, recomendado mais de três vezes pelo Guia do Estudante da Editora Abril, assim como temos cursos em situação extremamente precária, de tal forma que alguns estão fechando.
Entre o final da década de 90 e o início desta, houve uma proliferação de cursos de jornalismo. Muitas instituições educacionais privadas entendiam que abrir um curso de jornalismo significava dar publicidade às suas ações. É um paradoxo, pois poderiam pensar isso no sentido de abrir cursos de publicidade, o que também ocorreu, numa dobradinha jornalismo x publicidade. A opção pelo curso de jornalismo se deve ao entendimento de que a "publicização" feita pelo jornalismo é mais adequada e tem menor custo, porque gera sugestão de pauta na mídia. Como esse fato não acontece, há uma decepção.
Assim, aqueles cursos não se sustentam, não têm demanda mínima necessária, as escola estão fechando. De outro lado, esses cursos sofrem pela precariedade de sua infra-estrutura, com a falta de equipamentos, laboratórios e pessoal docente qualificado. Torna-se um círculo vicioso, pois sem condições estruturais, o curso não tem demanda.

Portal Imprensa - O que o estudante, que está prestes a ingressar no curso de jornalismo deve exigir de sua faculdade?
Gerson Luiz -
O estudante que tem interesse em ingressar nas escolas de jornalismo deve verificar as condições laboratoriais do curso: laboratório de rádio, de TV, de informática, tanto do ponto de vista de sua disponibilidade, quanto do ponto de vista de sua qualidade. Não adianta oferecer um laboratório de rádio que foi implantado há mais de 10 anos! Deve ainda verificar as condições da biblioteca. Se o curso oferece um bom suporte bibliográfico em quantidade e em atualidade. Esse é um dos pontos mais sensíveis nos novos cursos. As bibliotecas estão defasadas e não possuem um sistema de informática para suporte ao processo de pesquisa e busca do material.
Também o estudante deve buscar conhecer a qualificação do corpo docente. Em jornalismo, é recomendável, além da qualificação acadêmica: mestrado e doutorado, a qualificação profissional. Os professores de jornalismo devem ser jornalistas! Há muitas escolas em que o professor de Redação Jornalística não é jornalista. Seria a mesma coisa que, num curso de medicina, o professor de cirurgia ser um advogado!
O curso deve ter um corpo de professores jornalistas e com mestrado e doutorado em comunicação ou jornalismo. Para finalizar, um fato muito importante: os estudantes devem verificar se o curso foi autorizado e reconhecido pelo MEC. O processo de autorização e reconhecimento é uma das garantias, embora não de referência, que o curso está em condições minimamente adequadas.

Portal Imprensa - O senhor acredita que os formandos em jornalismo deveriam prestar um exame nos moldes dos da OAB, com o intuito de barrar a entrada de profissionais despreparados no mercado?
Gerson Luiz -
Pessoalmente, acredito nessa fórmula. Evidentemente este não é um procedimento para agora. Primeiramente, temos que constituir o Conselho Federal dos Jornalistas. A partir da organização do CFJ, poderemos discutir a criação de um exame para neojornalistas. Esse procedimento poderá ajudar a qualificar também os cursos de jornalismo.
Na área do Direito, a maioria dos cursos se preocupa com a qualidade tendo em vista a aprovação de seus egressos no exame da Ordem. Como isso deve passar pela estrutura do CFJ, temos ainda um longo caminho a percorrer.

Portal Imprensa - Como o senhor observa a política do estágio na profissão de jornalista?
Gerson Luiz -
O estágio é uma prática saudável, não sou contra o estágio em jornalismo, mas defendo que deva ser regulamentado, como acontece em alguns estados onde os Cursos de Jornalismo, os Sindicatos de Jornalistas e as empresas de comunicação firmaram um acordo para organizar o estágio dos estudantes.
Devemos entender que a prática jornalística deve, em primeiro lugar, ser potencializada no âmbito dos Cursos de Jornalismo. Para isso, as escolas devem ter boas condições laboratoriais. Depois disso, os estudantes devem ter a oportunidade de vivenciar o cotidiano da atividade jornalística em programas de estágio devidamente regulamentados, supervisionados.
Fora disso, estamos diante da fábrica de mão-de-obra barata e da desqualificação profissional. Os estudantes têm ilusões quando o estágio não é regulamentado. Pensam que quando entrarem para estagiar, recebendo salários miseráveis e muitas vezes servindo cafezinho na redação, terão a oportunidade de serem contratados quando concluírem o curso. Em todas as situações que conheci, os estudantes, sem exceção, foram demitidos no dia em que apresentaram o certificado ou o diploma de conclusão do curso. E a empresa contratou um novo estagiário.
Certa vez fui testemunha de um fato como esse. Na assessoria de imprensa de uma universidade que oferece curso de jornalismo, os estagiários eram usados para comprar sorvete para o jornalista responsável! Infelizmente é prática comum os estudantes se tornarem boys na redação. Que estágio é esse? Treinamento para o diploma de garçom, sem qualquer demérito desta profissão, que é muito importante para todos os jornalistas. Que jornalista não gosta de um botequim?!