Expresso capital: A cidade vista de ônibus, por Leônidas Macedo Neto
Expresso capital: A cidade vista de ônibus, por Leônidas Macedo Neto
Expresso capital : A cidade vista de ônibus, por Leônidas Macedo Neto
Leônidas Macedo Neto é aluno da Faculdade Integrada do Ceará As duas maiores linhas de transporte coletivo de Fortaleza, Grande Circular e Paranjana, traçam, juntas, um itinerário de 109 km de extensão. Percorrendo, em grande parte do trajeto, áreas periféricas, seus freqüentadores, motoristas, trocadores e passageiros, revelam, através de suas histórias, um panorama diferente da cidade. Bem distante de seus verdes mares.De acordo com dados da Empresa de Trânsito Urbano S/A (Ettusa), a demanda da linda Grande Circular oscila entre 64 e 70 mil usuários por dia útil. Nos fins de semana, esse número cai mais da metade. Apesar da alta carga de trabalho, o motorista Cícero Nascimento, há 3 anos nessa rota, diz gostar do seu serviço. "Às vezes é muito estressante, mas eu gosto de andar por essa cidade, conhecer as pessoas. Não sei ficar parado", afirma o motorista.
O Grande Circular percorre 63 Km. Passa pelos terminais Antônio Bezerra, Messejana, Papicu, Siqueira e transporta uma variedade de pessoas a caminho de uma de suas 171 paradas. O operacional da linha funciona 24 horas diariamente. O seu trajeto completo dura 2 horas, mas, segundo o motorista Nascimento, em dias de chuva o percurso pode ganhar uma hora a mais.
Nascimento, com uma carga horário de nove horas diárias, diz que "no circular é possível conhecer Fortaleza de ponta a ponta". Para ele, há prazer em passar em certos trechos da cidade, como a Barra do Ceará, "principalmente à noite" e Messejana "durante o dia". O motorista fala ainda que a área que abrange a Secretaria Regional III e o Terminal Antônio Bezerra seria "a parte menos atraente da cidade". Por ser uma região industrial, "a fumaça que sai das chaminés deixa esse local com um cheiro horrível".
De segunda a sábado, a comerciante Geracina Rodrigues, sai 5 horas da manhã de casa, segundo ela, "na esperança de pegar um Grande Circular não tão lotado", mas não é sempre que suas preces se realizam. Geracina mora no bairro Antônio Bezerra e pega o ônibus a caminho do terminal para, chegando lá, entrar em outro em direção ao centro. Há mais de 8 anos ela pega o mesmo ônibus e diz conhecer todos os motoristas e freqüentadores. "Com o tempo todo mundo acaba se conhecendo", afirma ela.
As amizades nas duas maiores linhas de Fortaleza, se não afloram, não é por falta de contato. Tanto no Grande Circular como no Paranjana, os usuários, involuntariamente, tentam contrariar a lei da Física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Das 5h às 9h da manhã, os dois ônibus têm lotação máxima. Os informativos de orientação da Ettusa que dizem serem permitidos somente 38 passageiros sentados e 37 em pé soam como piada. O motorista Roberto Freitas, há 2 anos na rota Paranjana, confessa que "nos horários de lotação cada veículo leva bem mais de 100 pessoas".
O Paranjana percorre 46 km e passa pelos terminais Antônio Bezerra, Lagoa, Papicu e Parangaba. Com 105 paradas em todo seu trajeto e levando diariamente entre 42 e 48 mil passageiros, o Paranjana, assim como o Grande Circular, faz parte da rotina de muitos fortalezenses que se caracterizam por fazerem parte do setor terciário da economia da capital cearense. Um setor que engloba atividades diversas e até discrepantes como um técnico de computadores e um vendedor ambulante. Fazendo uma junção de profissionais liberais e subempregados como é o caso do Humberto Maia, usário do Paranjana, vendedor de livros usados que não sabe ler.
Essas duas linhas de ônibus promovem um movimento pendular que constitui no vaivém dos trabalhadores e estudantes, da ida e volta de suas residências até o serviço ou escola, normalmente localizados distantes de suas moradas. Esse tipo de migração diária aumenta com o crescimento desorganizado da cidade, que desloca as camadas mais pobres para as áreas periféricas. Os passageiros das duas maiores linhas de Fortaleza enfrentam, todos os dias, condições desumanas, filas enormes e desorganizadas, falta segurança e cidadania. Apesar de tudo, há solidariedade entre eles. Nenhum idoso ou senhora grávida fica em pé quando os assentos estão ocupados. O fortalezense sabe ser gentil apesar de nem sempre receber o mesmo da cidade. 





