ESPECIAL - Morte em Porto Ferreira: Luiz Carlos Barbon, nem santo, nem demônio
ESPECIAL - Morte em Porto Ferreira: Luiz Carlos Barbon, nem santo, nem demônio
Atualizado em 14/05/2007 às 18:05, por
Thaís Naldoni/Editora-executiva do Portal IMPRENSA.
ESPECIAL - Morte em Porto Ferreira : Luiz Carlos Barbon, nem santo, nem demônio
Por Fachada do "Bar das Araras", local onde o jornalista foi atingido por dois tirosDesde a manhã do dia 06/05, um dos assuntos mais comentados pela imprensa brasileira - com exceção da visita do Papa Bento XVI ao país - foi o assassinato do "jornalista de Porto Ferreira", responsável pela divulgação de uma lista com nomes de políticos e empresários da pequena cidade do interior de São Paulo, que participavam de um esquema de aliciamento de menores.
A repercussão da execução do jornalista - que foi alvejado por dois tiros, enquanto estava em um bar da cidade, acompanhado de amigos - ganhou as páginas de jornais de norte a sul do Brasil, além de ter sido motivo de notas de repúdio de diversas entidades ligadas à imprensa e à Justiça, pedindo rigor na investigação do crime.
As entidades de classe também se manifestaram. Entre os manifestos, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) não deixou passar a oportunidade de criticar a falta de registro do jornalista, já que ele não havia cursado a faculdade.
Diante de tudo isso, a reportagem do Portal IMPRENSA esteve em Porto Ferreira, para conhecer de perto a história desse jornalista e como ela se encaixa no contexto local, a ponto de ter motivado seu brusco e violento término. Entenda quem era e a que veio Luiz Carlos Barbon, o "jornalista de Porto Ferreira".
Mais um na multidão
Luiz Carlos Barbon Filho tinha 37 anos. Mudou-se da cidade de Tambaú (SP), onde nasceu, para viver com sua então namorada, Kátia Rosa Camargo, mãe de seus dois filhos: Carla Juliana (14 anos) e Luiz Felipe (10).
Desde sua mudança, brigou pelo sustento de sua família. Morava em uma casa modesta, na periferia da cidade, e já foi de tudo um pouco: lavou cachorros, trabalhou como caseiro. O gosto pela política e pela imprensa, no entanto, já estava evidente. "Ele sempre se interessou pela política e adorava assistir jornais. Eu odiava e aprendi a gostar por causa dele", conta Kátia.
Embora Barbon tenha ressuscitado o escândalo, uma outra matéria rendeu a primeira investigação da Promotoria sobre a atual administração municipal. Trata-se da contratação supostamente superfaturada de um caminhão, que prestará serviços para a Prefeitura.
Com a licitação em mãos, Barbon percebeu que o preço a ser pago à empresa vencedora era alto. Levantou novos orçamentos e provou que o mesmo serviço poderia ser realizado por 1/3 do preço contratado. O Promotor de Justiça da cidade iniciou investigação na sexta-feira (05/05). No dia seguinte, Barbon foi assassinado. "Ele recebia - há muito tempo - bilhetes e telefonemas que juravam que iriam matá-lo se ele não calasse a boca. Mas ele não parava. Não tinha medo e não se acovardava com as ameaças. Tinha medo só de que algo acontecesse comigo e com as crianças", conta Kátia, sua esposa, funcionária de uma rádio local, com ganhos de um salário mínimo por mês.
Entre seus desafetos, um dos mais comentados é o vereador Gilson Strozzi. Parte do grupo que fundou o jornal Realidade , Strozzi é personagem polêmico na cidade. O vereador e o jornalista já brigaram de tapas em uma seção da Câmara Municipal e Barbon já havia denunciado vários atos supostamente ilícitos do político.
Em tempo: a Câmara Municipal entrou com Moção de Solidariedade à família de Barbon. Strozzi, segundo um político da cidade, foi o único dos dez vereadores a não assinar.
Tentativas de extorsão e
o sonho da Câmara Municipal
Longe de ser um herói, Luiz Carlos Barbon era um trabalhador, que lutava pela subsistência. Após sua morte, houve rumores de que ele vivia de extorsão, já que não possuía emprego fixo. Ou seja, ele descobria irregularidades e acossava os envolvidos para não publicar as matérias. No entanto, o boato é repudiado pelos que conviviam com o jornalista. "Se você olhar a casa em que ele morava com a família, verá que não há o menor fundamento nisso. Quem extorque dinheiro não vive em uma casa pobre, não compra pé de galinha para o almoço", disse um colega.
Para tentar garantir uma certa tranqüilidade na vida - e de quebra ajudar pessoas como ele - seu sonho era ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Porto Ferreira. Nas últimas eleições, tentou e conseguiu apenas 80 votos. Por agora, havia descoberto um caminho para realizar seu sonho: ajudava as pessoas mais simples a suprir suas necessidades urgentes, utilizando-se de sua usual "lábia" e dos relacionamentos que conquistou, através da imprensa. "Ele ajudava as pessoas a conseguirem remédio, encaminhar seus problemas, dava luz através dos seus artigos aos problemas da população", explica um jornalista local.
Barbon acreditava que se ficasse conhecido por suas ações sociais, a cadeira na Câmara estaria mais próxima. Candidato pelo PDT, o jornalista já havia escolhido seu slogan: "Luiz Carlos Barbon, a Voz de Porto Ferreira".
Na cidade, não se fala em outra coisa. A população do pacato município se assustou com a violência e frieza do assassinato. A imprensa tem medo de se manifestar. "Este é um recado claro para que a imprensa cale a boca. Até que se descubram os mandantes, assassinos e motivo, todos ficaremos com medo de falar. É um atentado à vida e à liberdade de imprensa", alerta outro jornalista.
O assassinato de Barbon, segundo a polícia e a promotoria da cidade tem caráter de crime político e, embora as investigações estejam indo de forma acelerada, nenhum suspeito foi divulgado. Até então, a imprensa local permanecerá amarrada, em regime de silêncio obrigatório. A violência e a intolerância, no entanto, calaram, de uma vez por todas, aquela que se dizia "a voz de Porto Ferreira".
*Foto de Luiz Carlos Barbon, gentilmente cedida pelo Jornal do Porto.






