Entrevista: "O povo venezuelano acha que o presidente Hugo Chávez é muito brando com a mídia", diz venezuelanista
Entrevista: "O povo venezuelano acha que o presidente Hugo Chávez é muito brando com a mídia", diz venezuelanista
Entrevista : "O povo venezuelano acha que o presidente Hugo Chávez é muito brando com a mídia", diz venezuelanista
Por Entre os intelectuais brasileiros que se dedicam a estudar em profundidade a questão venezuelana, a ampla maioria pertence ao campo da esquerda.O jornalista Altamiro Borges é autor de um dos poucos livros publicados no Brasil sobre o tema; com 106 páginas, "Venezuela: originalidade e ousadia", lançado pela editora Anita Garibaldi, é um estudo profundo - e á esquerda - sobre o chamado fenômeno bolivariano.
Altamiro é, ainda, editor da revista Debate Sindical, membro do Comitê Central do PC do B e diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta e Pela Paz. Na última semana de março, ele participou do programa "IMPRENSA na TV" e concedeu a seguinte entrevista:
IMPRENSA - Hugo Chávez está certo ao não renovar a concessão de um canal de televisão na Venezuela?
Altamiro Borges - Não dá para avaliar essa decisão isoladamente, sem observar o processo anterior, que culminou com o golpe [de abril de 2002]. A Venezuela é uma sociedade muito desigual, que é extremamente rica por causa do petróleo, que se valoriza a cada dia que passa. Durante cinqüenta anos essa riqueza do petróleo ficou concentrada na mão de uma minoria, que controlava o poder através de um rodízio bipartidário entre a Ação Democrática e o Partido Democrata Cristão. Esses partidos foram derrotados na eleição de 1998 por Hugo Chávez, que surge como uma liderança militar que tinha promovido um levante e ficado preso durante dois anos. Num primeiro momento, a mídia apóia Chávez, já que os poderes estavam muito corrompidos e os partidos eram estruturas apodrecidas. Chávez costuma brincar que ele era tratado com dengo. Quando Chávez começa a mexer com o poder econômico, essa mídia que babou por ele no início passou a se contrapor de forma muito violenta. Não há como comparar a mídia brasileira com a venezuelana, que convoca atos, manifestações e destrata o presidente. A mídia teve um papel proeminente no golpe de abril. Como os dois partidos maiores estavam desmoralizados, quem os substitui foram os meios de comunicação. Eu assisti a um bocado de programas na Venezuela... É um negócio impressionante!
IMPRENSA - Você acredita que o Governo recuará da decisão de não renovar a concessão da RCTV?
Altamiro - O Governo não recuará da decisão. A população de Caracas, por exemplo, acha que Chávez é muito brando, muito conciliador, e que ele devia fechar todas as emissoras privadas; existem pesquisas na Venezuela mostrando isso. Os dois principais jornais da Venezuela, El Nacional e El Universal , que são muito agressivos - tanto que o Chávez chama um deles de "El Nazional", de nazistas -, viram suas tiragens despencarem. Eles estão em crise. Existe uma pressão grande da sociedade.
IMPRENSA - Por que Chávez é tão popular entre as camadas mais pobres da Venezuela?
Altamiro - Porque ele pegou o dinheiro do petróleo, que antes servia a uma minoria que morava em Miami, consumista e parasitária, e investiu na sociedade. Chávez investiu em programas de saúde, em hospitais... Construiu bancos de saúde nos morros de Caracas: hoje existem 25 mil médicos trabalhando nas favelas. As missões de educação são outro exemplo: a Venezuela superou o analfabetismo em um prazo de sete anos. No Brasil, ainda temos analfabetos. A identidade da população é muito forte. E essa população acha que o Chávez é brando.
IMPRENSA - Como você avalia a posição de organismos internacionais de defesa da liberdade de imprensa, como a SIP, Sociedade Interamericana de Imprensa, e os Repórteres Sem Fronteiras, que criticam duramente a postura de Chávez frente a mídia venezuelana?
Altamiro - A SIP e os Jornalistas [sic] Sem Fronteiras sempre estiveram contra o Chávez, contra o Fidel, contra Cuba... E sempre propagaram a idéia de uma democracia liberal. Será que a decisão de não renovar a concessão da RCTV pode gerar uma repulsa maior? Não, pelo contrário. O povo venezuelano acha que o Chávez é muito brando com a mídia. Não há censura na Venezuela. Fale-se em democracia nos Estados Unidos, mas lá a imprensa é censurada. No caso dessa emissora, o que acontece é que a concessão dela termina agora, em maio. Eles mantêm uma linha de jornalismo de ataque permanente e de mobilização. Chegam a convocar manifestações! TV e rádio são concessões públicas, são da sociedade. Então eu acho a atitude justa e dentro da constituição venezuelana. Ela é antipática a um setor da opinião pública. Por outro lado, o canal de televisão do [Gustavo] Cisneros [Venevisión] está apoiando a cassação da concessão.
IMPRENSA - Você acredita que essas entidades defendam de alguma forma os interesses do Governo dos Estados Unidos?
Altamiro - Existem muitas denúncias nesse sentido, feitas, por exemplo, pelo jornal Diplomatique . Outra denúncia foi feita pela revista CartaCapital ; Gianni Carta fez um belíssimo artigo com dados sobre isso envolvendo os Repórteres Sem Fronteiras, com denúncias muito fortes. O próprio francês que fundou a entidade disse que recebe dinheiro do Governo dos Estados Unidos. Ele mesmo diz que o papel dele não é fazer crítica às empresas de mídia espalhadas pelo mundo. Ele mesmo diz que o principal alvo dele é Cuba.
IMPRENSA - O temperamento do Chávez contribui para essa visão negativa que os meios brasileiros têm dele? Essa história de pegar um exemplar de O Globo e rasgá-lo em plena Assembléia Legislativa fluminense... Ele podia ser um pouco mais diplomático...
Altamiro - Cada um tem o seu estilo. É interessante que o Bush, com o jeito dele e com a propaganda da mídia e toda a blindagem, visitou cinco países. O Chávez, esse que a mídia combate, demoniza, sataniza, fez uma turnê paralela. É fácil ver quem tem mais popularidade. Dá para ver pelas fotos... No caso do Bush, fizeram manifestações contra no Brasil, na Argentina, no Uruguai, na Guatemala, no México e na Colômbia. No caso do Chávez, as manifestações foram favoráveis em todos esses países. O Haiti fez uma grande manifestação de admiração pelo Chávez, porque ele reflete uma nova realidade da América Latina. Não estou entrando no mérito do tipo do discurso, da retórica. Mas Chávez reflete um sentimento. 





