Entrevista: Marcel Granier, presidente da RCTV, fala sobre Chávez, democracia e relembra o movimento de abril de 2002

Entrevista: Marcel Granier, presidente da RCTV, fala sobre Chávez, democracia e relembra o movimento de abril de 2002

Atualizado em 29/06/2007 às 18:06, por Pedro Venceslau / Redação Revista IMPRENSA.

Entrevista : Marcel Granier, presidente da RCTV, fala sobre Chávez, democracia e relembra o movimento de abril de 2002

Por Foto: EVANDRA DE SOUZA

Pouco antes de deixar o Brasil e voltar para a Venezuela em um longo vôo da United com escala em Miami, Marcel Granier, presidente da RCTV (Rádio Caracas de Televisão) recebeu IMPRENSA no hotel onde estava hospedado, na região dos Jardins, em São Paulo, para uma entrevista exclusiva.

Granier ficou muito satisfeito com o resultado da viagem. Em menos de 48 horas, almoçou com FIESP, foi homenageado pelos principais empresários de comunicação do país, participou de um ato público e de uma coletiva promovida pela revista IMPRENSA e conversou com diversos jornalistas sobre o drama que sua emissora está vivendo.

Confira os melhores momentos da entrevista, que será publicada na edição de agosto de IMPRENSA.

IMPRENSA - Quantos funcionários tem a RCTV?
Marcel Granier
- São três mil funcionários diretos e outros cinco mil indiretos.

IMPRENSA - Qual será o futuro do canal, caso não seja possível reverter a decisão de Chávez na Justiça?
Granier
- É evidente que qualquer formato que não seja de televisão aberta e sinal livre, disponível gratuitamente para todo o público, tem muitas limitações. Teremos que ser criativos. Estamos empenhados em buscar fórmulas que nos permitam estabelecer comunicação com as pessoas e manter o maior número possível de empregos.

IMPRENSA - Sabe-se que Chávez fez um acordo com Gustavo Cisneros, da Venevisón. Ele também tentou fazer algum tipo de acordo ou oferta com a RCTV?
Granier
- Sim... Ele pressiona os veículos independentes pela via da ameaça ou do corte de publicidade. Funcionários do governo fizeram ofertas para RCTV durante muitos anos, mas nunca aceitamos propina do Estado. O governo venezuelano dispõe de muitos recursos. Quem segue a linha editorial que eles (governo) querem é premiado com publicidade oficial, dólares em taxas preferenciais e de muitas outras formas.

IMPRENSA - A posição de Cisneros -que de uma hora para outra parou de criticar Chávez e teve sua concessão renovada por mais 20 anos - foi oportunista?
Granier
- Eu entendo o que aconteceu. Quando um presidente tão poderoso, que controla todos os poderes, começa, de maneira sistemática, a acusar uma pessoa como Cisneros de chefiar uma conspiração, ser golpista e assassino, eu compreendo que essa pessoa se sinta intimidada e busque uma maneira de evitar a pressão. A impressão que se tem é que, a partir de uma reunião secreta, cujo conteúdo nunca se teve acesso e que aconteceu entre Chávez, Jimmy Carter (ex-presidente norte-americano) e Cisneros começaram a produzir mudanças importantes na linha editorial da Venevisón.

IMPRENSA - Como anda sua relação com Cisneros?
Granier
- Faz muitos meses que não o vejo.

IMPRENSA - Voltando no tempo, para abril de 2002, quando houve um movimento que tirou Chávez por 48 horas do poder. Eu li um artigo do jornalista Andrés Izarra, que na época trabalhava com vocês e hoje é presidente da chavista Telesur, em que ele fez acusações graves contra a RCTV. Entre outras coisas, Izarra afirma que recebeu ordens para "tirar o chavismo da tela" e "manipular a cobertura" do movimento. O que o Sr. tem a dizer sobre isso?
Granier
- Isso é falso. Ele nunca pôde provar nenhuma dessas acusações. Durante toda aquela semana, aconteceram muitas manifestações e o presidente cometeu uma série de abusos. Ele obrigou todas as emissoras de rádio e TV a transmitir em cadeia tudo que ele e seus ministros diziam. Em um dia, as estações foram obrigadas a interromper por 37 vezes sua programação para mostrar discursos do presidente e de seus funcionários. Chegou um momento em que essa situação ficou insustentável. Isso foi provocando uma onda de protestos cada vez maior.

Na quinta feira, 11 de abril, aconteceu um dos maiores protestos pacíficos que se tem conhecimento na América Latina. Mais de um milhão de pessoas nas ruas. Os manifestantes foram reprimidos de maneira violenta pelos militares.

Diante da obrigação de transmitir as cadeias, e das imagens da forma brutal como estavam sendo reprimidas as manifestações, as emissoras decidiram dividir a tela em dois. De um lado, o presidente fazendo seu discurso. Do outro, as cenas que estavam acontecendo.

IMPRENSA - É verdade que quando o chamado "movimento golpista" fracassou e Chávez voltou ao poder, as emissoras ignoraram o fato e colocaram desenhos animados na tela?
Granier
- Quando Chávez esteve no Brasil, ele nos acusou de ter transmitido Tom e Jerry. Ocorre que esse os direitos desse desenho na Venezuela são da Venevisión. Ele queria nos acusar, mas fez uma referência a outro canal. Por outro lado, parece perfeitamente normal que uma estação de TV transmita, em certos horários, desenhos animados. O que ocorreu em 11 de abril foi que o presidente, de maneira ilegal e ilegítima, ordenou aos militares que cortassem as transmissões dos canais privados de TV. Durante várias horas, a cidade de Caracas não pôde ver o que estava acontecendo pela TV.