Entrevista: "A Veja é o maior lançamento de todos os tempos", diz Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente do Conselho Editorial da Abril
Entrevista: "A Veja é o maior lançamento de todos os tempos", diz Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente do Conselho Editorial da AbrilPor Falar sobre a história da Editora Abril sem citar o nome e a influência do jornalista Thomaz Souto Corrêa é uma tarefa impossível.
Atualizado em 18/04/2007 às 11:04, por
Pedro Venceslau/Redação Revista IMPRENSA.
o maior lançamento de todos os tempos", diz Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente do Conselho Editorial da Abril Por Falar sobre a história da Editora Abril sem citar o nome e a influência do jornalista Thomaz Souto Corrêa é uma tarefa impossível. Há 40 anos na empresa, Corrêa esteve presente na maior parte dos lançamentos e passos da editora no mercado.
Longe do dia-a-dia das redações, mas ainda extremamente envolvido com a empresa, Thomaz é uma espécie de guru dos editores. "Sou um consultor em questões editoriais. Sou procurado pelas revistas quando elas querem discutir alguma coisa, qualidade, caminhos... eles vêm atrás da minha opinião ou de ajuda, para eu participar de um processo de reformulação da revista, por exemplo", explica.
Atualmente, o jornalista é membro do Conselho de Administração do Grupo Abril, além de vice-presidente do Conselho Editorial - órgão que se reúne esporadicamente para debater questões editorias, que estejam na pauta do dia.
À IMPRENSA, Thomaz Souto Corrêa falou sobre o espaço no mercado atual para revistas como a extinta Realidade , o lançamento da revista Veja e a força da Editora Abril no mercado de revistas.
Neste mês de Abril, a revista IMPRENSA traz, ainda, um perfil com o "mestre revisteiro". Acompanhe.
IMPRENSA - Há espaço hoje para revistas com grandes reportagens, como era a Realidade ? O leitor tem tempo para ler matérias tão grandes?
Thomaz Souto Corrêa - Realidade era uma revista de reportagem que só tratava, basicamente, de tema que era tabu. Então, foi um sucesso enorme, os leitores adoravam. Eu, pessoalmente, acho que não tem mais lugar para a Realidade neste mundo de hoje, mas sabe lá. Olha, vamos ver o que acontece com a Piauí , que é a aposta do texto. Eu, pessoalmente, acho que não tem muita gente querendo ler muito texto.
IMPRENSA - O leitor prefere ler um livro a ler uma matéria?
Souto Corrêa - Estão ocupados com outras coisas, com a Internet, com leituras mais rápidas. Essa movimentação no setor de mídia, levando para a Internet a notícia rápida, está modificando muito a característica da imprensa. Se bem que eu também acho que com toda essa conversa de que vai acabar papel, vai acabar revista, vai continuar a existir um tipo de revista que tem no papel a excelência do texto e a excelência da imagem. Eu acho que o papel vai guardar uma função que, aí sim, se essa premissa for verdadeira, talvez houvesse um espaço para a Realidade .
IMPRENSA - O senhor acredita que a estrutura das redações de hoje também contribui para crise de revistas como a Realidade , já que não há mais aquele repórter especial que demorava um mês inteiro para trabalhar uma matéria?
Souto Corrêa - Você levantou duas questões. Eu não acho que o fato das redações não ter mais repórteres especiais e, continuam ter, os jornais tem seus repórteres especiais, de vez em quando Veja pega um repórter e manda para trabalhar um mês no assunto, como aconteceu com a China, por exemplo. O problema está no leitor. Eu não tenho certeza que haja leitores em quantidade suficiente para fazer um empreendimento comercial de sucesso. Muito provavelmente haverá uma quantidade de leitores, sim, querendo ler textos. Piauí está aí para isso. Mas eu não sei qual é a quantidade, se essa quantidade geraria um negócio interessante. Essa é a dúvida para mim.
IMPRENSA - Qual foi o grande lançamento da Editora Abril?
Souto Corrêa - A Veja é o maior lançamento de todos os tempos. E eu não participei do lançamento dela.
IMPRENSA - E foi um começo complicado, né? Porque as pessoas queriam ver imagem...
Souto Corrêa - A Veja criou a expectativa de uma revista ilustrada, até porque se chamava Veja e quando chega na banca ela era só texto. Se você olhar o número 1 da revista é só texto. Então, foi uma reversão de expectativa. Agora, o modelo, o Roberto (Civita) tinha plena confiança que iria vingar, e vingou.
IMPRENSA - Mas os fascículos ajudaram?
Souto Corrêa - Ajudaram porque eram muito rentáveis e a empresa precisava de dinheiro para segurar a Veja , mas foi um investimento custoso e se provou absolutamente que a premissa do Roberto era verdadeira, que esse país precisava de uma revista semanal de notícias.
IMPRENSA - A partir desse momento, que o grupo Abril se voltou para a área que envolvia política, opinião pública, ela passou a ser assediada e ao mesmo tempo cobrada. Como foi essa mudança, a entrada nessa área?
Souto Corrêa - Quando você tem uma revista independente de notícia, é muito difícil fazer qualquer outra coisa que tenha relação com o governo. Então, o problema da Abril sempre foi na área de educação. Já tentamos fazer um grande projeto na área da educação, mas cada vez que esse projeto começava a melhorar, Veja dava uma paulada no governo e o projeto andava para trás, quer dizer, esse é o preço que se paga.
IMPRENSA - Muita gente fala do Padrão Globo de Qualidade. Dá para dizer que a Abril também criou um padrão Abril de fazer revista? O infográfico, o cuidado com as imagens, a qualidade de texto...
Souto Corrêa - Eu acho que a maior prova do nosso padrão de qualidade é você parar em frente a uma banca de jornal. Eu, pessoalmente, acho que isso é um erro de todo mundo, mas enfim, é assim que está acontecendo, as revistas são muito parecidas. O padrão nós estabelecemos. Nós, como líderes, somos os copiados. Raríssimas exceções, nós somos os copiados. Isso também é um pouco do que acontece com a Globo. Se você quer fazer uma novela fora da Globo, você tem que tentar copiar o padrão Globo. Você vê que ali tem um padrão de qualidade que tem que ser perseguido. Acredito que com a revista acontece a mesma coisa. Outra questão é a seguinte: tem muita gente da Abril fazendo revista fora da Abril hoje, isso é natural. Só que as pessoas levam daqui determinados conhecimentos que foram aprendidos aqui, o que faz as revistas serem ainda mais parecidas.
IMPRENSA - Infográfico, box, linha do tempo, esse tipo de ferramenta hoje, com esse leitor que tem menos tempo para ler, é algo que tem que ter um cuidado especial. Uma vez, li que a Veja tem até um departamento que cuida só disso...
Souto Corrêa - Eu acho que o infográfico apareceu há uns 20 anos. As nossas revistas foram as primeiras a usar. É um modo novo de apresentar a notícia. Assim como o texto com a imagem do acontecimento. Eu só entendi o avião da Gol e o Legacy, o que tinha acontecido, quando vi o infográfico. Ninguém tinha entendido o que tinha acontecido. Não há foto do momento do acidente. Levou muito tempo para aparecer o infográfico, porque acho que as pessoas não se davam conta de que era possível desenhar acontecimentos. Por exemplo, simulação de assalto a banco. Isso foi uma revista britânica que inventou, em 1960. Quando veio o infográfico, ele não é nem o gráfico, nem a ilustração. É uma maneira de contar uma história graficamente. Eu acho que foi uma revolução.
Longe do dia-a-dia das redações, mas ainda extremamente envolvido com a empresa, Thomaz é uma espécie de guru dos editores. "Sou um consultor em questões editoriais. Sou procurado pelas revistas quando elas querem discutir alguma coisa, qualidade, caminhos... eles vêm atrás da minha opinião ou de ajuda, para eu participar de um processo de reformulação da revista, por exemplo", explica.
Atualmente, o jornalista é membro do Conselho de Administração do Grupo Abril, além de vice-presidente do Conselho Editorial - órgão que se reúne esporadicamente para debater questões editorias, que estejam na pauta do dia.
À IMPRENSA, Thomaz Souto Corrêa falou sobre o espaço no mercado atual para revistas como a extinta Realidade , o lançamento da revista Veja e a força da Editora Abril no mercado de revistas.
Neste mês de Abril, a revista IMPRENSA traz, ainda, um perfil com o "mestre revisteiro". Acompanhe.
IMPRENSA - Há espaço hoje para revistas com grandes reportagens, como era a Realidade ? O leitor tem tempo para ler matérias tão grandes?
Thomaz Souto Corrêa - Realidade era uma revista de reportagem que só tratava, basicamente, de tema que era tabu. Então, foi um sucesso enorme, os leitores adoravam. Eu, pessoalmente, acho que não tem mais lugar para a Realidade neste mundo de hoje, mas sabe lá. Olha, vamos ver o que acontece com a Piauí , que é a aposta do texto. Eu, pessoalmente, acho que não tem muita gente querendo ler muito texto.
IMPRENSA - O leitor prefere ler um livro a ler uma matéria?
Souto Corrêa - Estão ocupados com outras coisas, com a Internet, com leituras mais rápidas. Essa movimentação no setor de mídia, levando para a Internet a notícia rápida, está modificando muito a característica da imprensa. Se bem que eu também acho que com toda essa conversa de que vai acabar papel, vai acabar revista, vai continuar a existir um tipo de revista que tem no papel a excelência do texto e a excelência da imagem. Eu acho que o papel vai guardar uma função que, aí sim, se essa premissa for verdadeira, talvez houvesse um espaço para a Realidade .
IMPRENSA - O senhor acredita que a estrutura das redações de hoje também contribui para crise de revistas como a Realidade , já que não há mais aquele repórter especial que demorava um mês inteiro para trabalhar uma matéria?
Souto Corrêa - Você levantou duas questões. Eu não acho que o fato das redações não ter mais repórteres especiais e, continuam ter, os jornais tem seus repórteres especiais, de vez em quando Veja pega um repórter e manda para trabalhar um mês no assunto, como aconteceu com a China, por exemplo. O problema está no leitor. Eu não tenho certeza que haja leitores em quantidade suficiente para fazer um empreendimento comercial de sucesso. Muito provavelmente haverá uma quantidade de leitores, sim, querendo ler textos. Piauí está aí para isso. Mas eu não sei qual é a quantidade, se essa quantidade geraria um negócio interessante. Essa é a dúvida para mim.
IMPRENSA - Qual foi o grande lançamento da Editora Abril?
Souto Corrêa - A Veja é o maior lançamento de todos os tempos. E eu não participei do lançamento dela.
IMPRENSA - E foi um começo complicado, né? Porque as pessoas queriam ver imagem...
Souto Corrêa - A Veja criou a expectativa de uma revista ilustrada, até porque se chamava Veja e quando chega na banca ela era só texto. Se você olhar o número 1 da revista é só texto. Então, foi uma reversão de expectativa. Agora, o modelo, o Roberto (Civita) tinha plena confiança que iria vingar, e vingou.
IMPRENSA - Mas os fascículos ajudaram?
Souto Corrêa - Ajudaram porque eram muito rentáveis e a empresa precisava de dinheiro para segurar a Veja , mas foi um investimento custoso e se provou absolutamente que a premissa do Roberto era verdadeira, que esse país precisava de uma revista semanal de notícias.
IMPRENSA - A partir desse momento, que o grupo Abril se voltou para a área que envolvia política, opinião pública, ela passou a ser assediada e ao mesmo tempo cobrada. Como foi essa mudança, a entrada nessa área?
Souto Corrêa - Quando você tem uma revista independente de notícia, é muito difícil fazer qualquer outra coisa que tenha relação com o governo. Então, o problema da Abril sempre foi na área de educação. Já tentamos fazer um grande projeto na área da educação, mas cada vez que esse projeto começava a melhorar, Veja dava uma paulada no governo e o projeto andava para trás, quer dizer, esse é o preço que se paga.
IMPRENSA - Muita gente fala do Padrão Globo de Qualidade. Dá para dizer que a Abril também criou um padrão Abril de fazer revista? O infográfico, o cuidado com as imagens, a qualidade de texto...
Souto Corrêa - Eu acho que a maior prova do nosso padrão de qualidade é você parar em frente a uma banca de jornal. Eu, pessoalmente, acho que isso é um erro de todo mundo, mas enfim, é assim que está acontecendo, as revistas são muito parecidas. O padrão nós estabelecemos. Nós, como líderes, somos os copiados. Raríssimas exceções, nós somos os copiados. Isso também é um pouco do que acontece com a Globo. Se você quer fazer uma novela fora da Globo, você tem que tentar copiar o padrão Globo. Você vê que ali tem um padrão de qualidade que tem que ser perseguido. Acredito que com a revista acontece a mesma coisa. Outra questão é a seguinte: tem muita gente da Abril fazendo revista fora da Abril hoje, isso é natural. Só que as pessoas levam daqui determinados conhecimentos que foram aprendidos aqui, o que faz as revistas serem ainda mais parecidas.
IMPRENSA - Infográfico, box, linha do tempo, esse tipo de ferramenta hoje, com esse leitor que tem menos tempo para ler, é algo que tem que ter um cuidado especial. Uma vez, li que a Veja tem até um departamento que cuida só disso...
Souto Corrêa - Eu acho que o infográfico apareceu há uns 20 anos. As nossas revistas foram as primeiras a usar. É um modo novo de apresentar a notícia. Assim como o texto com a imagem do acontecimento. Eu só entendi o avião da Gol e o Legacy, o que tinha acontecido, quando vi o infográfico. Ninguém tinha entendido o que tinha acontecido. Não há foto do momento do acidente. Levou muito tempo para aparecer o infográfico, porque acho que as pessoas não se davam conta de que era possível desenhar acontecimentos. Por exemplo, simulação de assalto a banco. Isso foi uma revista britânica que inventou, em 1960. Quando veio o infográfico, ele não é nem o gráfico, nem a ilustração. É uma maneira de contar uma história graficamente. Eu acho que foi uma revolução.






