Defensor dos direitos humanitários, por Thaís Gomes, aluna da Universidade Metodista de São Paulo

Defensor dos direitos humanitários, por Thaís Gomes, aluna da Universidade Metodista de São Paulo

Atualizado em 19/10/2005 às 18:10, por Thaís Gomes e  aluna da Universidade Metodista de São Paulo.

Defensor dos direitos humanitários, por

O português carregado de sotaque, o falar calmo e a aparência diplomática retratam os 20 anos de atuação no Comitê Internacional da Cruz Vermelha - CICV. "Gosto do terreno, da ação humanitária", conta com brilho nos olhos. Michel Minning é o representante do CICV no Cone Sul e no Brasil e esta é a primeira vez que não está em um campo de conflito armado.

Aos 53 anos histórias para contar não lhe faltam. Ele já atuou no Azerbaijão, Peru, Rússia, Ruanda, Iraque e diversas outras áreas que sofrem com o conflito armado, mas a personalidade introspectiva e a imparcialidade que o cargo lhe exige fazem com que as experiências fiquem guardadas mais na mente do que na liberdade ao falar sobre o assunto. Ao ser questionado sobre seu trabalho de campo se esquiva e apenas deixa escapar: "É um trabalho difícil. Não temos a possibilidade de acabar um conflito armado, mas diminuir os desastres humanitários".

Formado em Ciência Política, a entrada aos 33 anos para o CICV deu-se por acaso. "Entrei muito mais porque sou suíço", ri ao contar que o fato de ter entrado para o Comitê foi mais em razão da sede estar situada em Genebra do que por questões humanitárias.

A inquietação pessoal e a curiosidade de conhecer o mundo fizeram com que Minning aumentasse o engajamento social. O Iraque foi o primeiro trabalho de terreno que acompanhou. "Eu só pedia para que não me mandassem para o Iraque. É uma catástrofe humanitária". Ele relembra que falava com a chefe de operações que o único local que não gostaria de ir era o Iraque, mas no fim foi escolhido para ir ao local fazer um trabalho com dois mil prisioneiros.

O trabalho de cumprimento dos direitos internacionais não é fácil. A proteção e assistência às vítimas como chefe adjunto no Líbano, o colocaram muitas vezes em situações limite. "Recolhemos os corpos de pessoas mortas. Corpos em decomposição, mas que eram muito importante para as famílias", relembra.

A situação no continente americano também não é fácil para Minning. Só no Brasil cerca de 50 mil pessoas morrem anualmente. "Brasília, onde está situado o escritório do CICV, é importante pelo peso geopolítico que tem sobre os outros países do Cone Sul", conta o representante do Comitê, que desde 1998 desenvolve um Programa de Integração das Normas dos Direitos Humanos e dos Princípios Humanitários Aplicáveis à Função Policial, que tem como principal objetivo capacitar policiais instrutores e impulsionar o cumprimento dos conceitos dos direitos humanos à função do policial. O principal trabalho no país é a prevenção.

Com o crescente número de civis envolvidos nos confrontos armados, Mining relata que suas preocupações são a respeito das questões de radicalização dos grupos, o crescimento do nacionalismo e que atuação do trabalho humanitário seja confundido com as premissas de uma cultura ocidental. Para lutar contra esses fatores adversos, o Comitê tem feito reuniões de aproximação com grupos islâmicos, além de se manterem neutros e independentes das relações partidárias das regiões de conflito armado. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha em razão da grande credibilidade que dispõe tem a atuação em 70 locais no mundo.

A Assistência Humanitária ajuda a reconstruir um país. Mas para realizar um trabalho de base e desenvolver as ações nos países, o Comitê dispõe de recursos. O orçamento de 2005 foi estimado em 500 mil francos suíços, que em moeda nacional converte-se em R$ 877.145,085.

"O trabalho humanitário hoje é mais técnico do que antigamente que era humanitário, o perfil do Comitê é de médicos e engenheiros para desenvolver as ações. Você tem uma gestão financeira muito maior", conta Mining

Balanço da vida profissional ainda não se pode fazer, mas em linhas gerais Michel Minning é um misto de emoções: frustração, excitação e medo.

"A motivação é essencial. Você não tem como por fim a uma guerra, mas se você não fizer, quem vai fazê-lo? A frustração gera uma energia para lutar mais".