"Existe um ranço contra a marca Record" - Portal Imprensa "> "Existe um ranço contra a marca Record" - Portal Imprensa ">

Celso Freitas, âncora do "Jornal da Record", desabafa: "Existe um ranço contra a marca Record"

Celso Freitas, âncora do "Jornal da Record", desabafa: "Existe um ranço contra a marca Record"

Atualizado em 09/02/2006 às 12:02, por Pedro Venceslau e Thaís Naldoni.

Celso Freitas, âncora do "Jornal da Record", desabafa: "Existe um ranço contra a marca Record"

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Fotos: Adolfo Vargas Em 2004, depois de 31 anos trabalhando na Rede Globo - onde ficou famoso apresentando o Jornal da Globo , Fantástico , Você Decide e Jornal Nacional -, o jornalista Celso Freitas sentiu que sua carreira na emissora havia batido no teto. "Eu estava com o contrato praticamente vencido na Globo, e eles não acenavam com uma renovação. Eu já estava pensando até em aposentadoria, em comprar um sítio". Não deu tempo. Antes que Freitas partisse para o campo, surgiu um convite da Record para apresentar o "Domingo Espetacular", um programa parecido - para dizer o mínimo - com o "Fantástico", da Globo. "Resolvi ser uma ameaça em outro canal", conta. Com a saída de Boris Casoy, Celso Freitas foi promovido a protagonista da grande atração do jornalismo da casa, o repaginado "Jornal da Record", que estreou há duas semanas, com o dobro da audiência da versão antiga. Nesta entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, concedida no recém-inaugurado camarim na emissora, Freitas fala sobre passado, presente e futuro: "Daqui a pouco, o público ouvirá o plim-plim da Record".

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IMPRENSA - O "Jornal da Record" foi chamado de clone do "Jornal Nacional". Não há como negar que os dois são muito parecidos. Você defende a tese de que "nada se cria, tudo se copia"?
Freitas -
Eu acho natural que exista essa semelhança. É natural que estes profissionais egressos da Globo tragam um pouco da marca. Grande parte dos profissionais que ajudaram a colocar a Globo no estágio em que ela está veio para a Record. A grande diferença é que aqui não temos o ranço do padrão de qualidade criado pelo Boni e pelo Walter Clark, que até hoje continua sendo praticado. Todo mundo está comparando nosso telejornal com o "Jornal Nacional". Por que não dizem que parece com o telejornal da CNN?

IMPRENSA - Você acha que o "padrão Globo" engessa a programação?
Freitas -
Sem dúvida nenhuma. Eles têm medo de ousar. A própria estrutura deles não permite inovações. Na Globo, o processo de gestão da empresa não permite que o repórter ou o editor apresentem uma idéia, uma sugestão. Existem várias camadas hierárquicas. As pessoas parecem ter medo de perder o lugar, e isso não permite a fluidez das idéias. Há uma acomodação neste processo de achar que está tudo bem. Eu acredito que agora, com uma concorrência à altura, eles serão obrigados a buscar alternativas. Nós estamos nos tornando uma ameaça consistente. Isso é muito saudável para o mercado. Nós não queremos acabar com a Globo. Queremos, pelo menos, empatar na liderança.

IMPRENSA - Mas esse formato - novela/jornal/novela -, criado pelo Walter Clark e consagrado na Globo, está sendo usado na Record...
Freitas -
Nós temos uma fórmula bem-sucedida no Brasil, que é uma novela para o público infanto-juvenil, outra para o público de uma outra idade, o jornal, e depois uma novela que discuta mais a fundo assuntos que interessam à família inteira. Talvez, se estivéssemos nos Estados Unidos, teríamos um seriado, não uma novela. Estamos seguindo um formato que o público consagrou. Não somos nós os ditadores das normas, o público é que faz isso.

Celso Freitas e Douglas Tavolaro em momento de descontração nos bastidores

IMPRENSA - Mas este não seria um formato consagrado da Globo?
Freitas -
Na verdade, é um formato criado pela Tupi, que a gente veio adaptando ao longo do tempo.

IMPRENSA - Você acredita que a Record vai desbancar a Globo?
Freitas -
Eu acredito que sim. A Record tem vocação para ser líder ou, pelo menos, disputar a liderança.

IMPRENSA - Em comparação ao jornal apresentado pelo Boris Casoy, o novo "Jornal da Record" está menos sisudo? Melhorou sem tanta opinião do âncora?
Freitas
- Eu sou partidário de que a responsabilidade do jornalista é mostrar os vários ângulos que uma informação tem. O juízo é do telespectador. Não cabe a nenhum jornalista o papel de dono da verdade. O povo não é bobo. Não tenho carência de me afirmar, dizer que tenho opinião, que tenho inteligência. Eu não preciso disso.

IMPRENSA - A opinião era o grande diferencial do "Jornal da Record"...
Freitas -
Eu acho que o Boris [Casoy] cumpriu um papel importante. Ele trouxe um ritmo muito mais parecido com o jornalismo americano. É um estilo. Só que a nossa preocupação é mais compatível com o que o telespectador exige: um resumo dos acontecimentos mais relevantes do dia. Não adianta você querer reconstruir. A melhor fórmula é cumprir a receita: um jornal de 30 minutos - obviamente que, havendo um acontecimento excepcional, ele pode ter uma hora de duração, dependendo da expectativa, da disposição do telespectador para aquele acontecimento.

IMPRENSA - Foi difícil a decisão de deixar a Globo depois de tanto tempo de casa?
Freitas -
Em 2004, eu estava com o contrato praticamente vencido na Globo, e eles não acenavam com uma renovação. Eu já estava pensando até em aposentadoria, em comprar um sítio, quando veio o convite da Record. Na Globo, eu tinha a sensação de que meu contrato até seria renovado, mas como uma manutenção, para que eu não fosse uma ameaça em outro canal. Só que eu resolvi ser essa ameaça e aceitei o desafio de ir para a Record. A proposta deles era boa: fazer um programa semelhante ao "Fantástico", com profissionais que já tinham habitado o próprio "Fantástico" e a Rede Globo.

Celso Freitas e Adriana Araújo conferem textos do jornal

IMPRENSA - A estrutura de trabalho na Record é igual à da Globo? O seu camarim, por exemplo, era maior lá?
Freitas -
(risos) Eu nunca tive um camarim na Globo. Pelo contrário. A minha saída do "Jornal Nacional" aconteceu devido a uma reivindicação que eu fiz. Por ser um profissional que gozava de certa ascendência - eu estava apresentando o "Jornal Nacional" -, fui eleito pelos colegas para encaminhar uma série de reivindicações. Por sugestão minha, colocamos em um papel as demandas comuns a todos. Isso foi encarado como um abaixo-assinado quando, na verdade, era um abaixo-relacionado. A gente reivindicava um lugar, um camarim, onde a gente fizesse a maquiagem e pudesse trocar de roupa. Pedimos um lugar higiênico, onde as pessoas que tivessem lente de contato pudessem trocá-las sem o risco da contaminação de um banheiro coletivo... Foi um puxão de orelha que a direção da Globo resolveu me dar na época, em 1989, me tirando do "Jornal Nacional".

"A direção da emissora resolveu me dar um puxão de orelha e me tirou do Jornal Nacional"

IMPRENSA - Quanta rigidez...
Freitas -
Esse episódio até hoje não foi esclarecido pela direção - na época era o Armando Nogueira e a Alice Maria. Eu cheguei a pedir demissão, porque foi uma passagem que me constrangeu muito. Eu nunca havia pedido nenhum cargo, nenhuma posição de destaque. Esse fato aconteceu porque eu era um jornalista que estava numa transição - participando da edição e redigindo - ao contrário dos meus antecessores no "Jornal Nacional", que eram só locutores-apresentadores. Na época, a principal reivindicação era um camarim. Mas havia também a preocupação com colegas que ganhavam dinheiro gravando comerciais, e a Globo resolveu proibir. Não era meu caso. Outra reivindicação: que ficasse claro o que era a posição da empresa nos editoriais. Era uma série de reivindicações, que foram recebidas como uma posição contrária. Nossa preocupação era que tivéssemos uma empresa moderna. Houve esse puxão de orelhas. Se não me engano, Leda Nagle foi mandada para o "Bom Dia Rio", o Eliakim [Araújo] foi separado da Leila [Cordeiro]. Todo mundo sofreu uma espécie da repreensão. Eu entendi dessa maneira.

IMPRENSA - Todos assinaram?
Freitas -
Todos, inclusive o Cid Moreira.

IMPRENSA - O Cid Moreira não foi punido?
Freitas -
Não. Eu fui punido por uma coisa que visava o bem-estar dos profissionais. Depois disso, inauguraram um contêiner com maquiagem, espaço exclusivo para o jornalismo. Essa é uma comparação que pode ser feira em termos de tratamento. O processo de montagem do novo jornalismo da Record - que visa uma formação de rede - está acontecendo de uma maneira democrática, em que todos nós estamos colaborando.

IMPRENSA - Aqui na Record, você é autorizado a fazer propaganda?
Freitas -
Não. Mas eu não acho salutar fazer. Durante 35 anos, minha imagem e minha voz estiveram ligadas à informação. Se a dona-de-casa estiver na cozinha, lavando a louça com a televisão ligada e ela ouvir a minha voz, ela sabe que se trata de notícia. Essa é uma característica muito forte. Recentemente, o marido de uma amiga minha, que ouviu minha voz em uma campanha institucional da Record, perguntou para ela se a Globo estava fazendo anúncios na Record.

Os apresentadores se preparam para entrar no ar


IMPRENSA - Essa identificação com a Globo incomoda?
Freitas -
Não. Até porque daqui a pouco a Record vai criar a sua identidade. Estou empenhado nisso. Daqui a pouco, o telespectador estará em casa e ouvirá o "plim-plim" da Record. A emissora, em breve, estará com uma assinatura visual e auditiva.

"Daqui a pouco o telespectador ouvirá o "plim-plim" da Record"

IMPRENSA - Na sua opinião, o Ibope privilegia a Globo?
Freitas -
Eu lamento que, ultimamente, toda a consolidação (de audiência) seja para baixo na Record. Seria bom que tivéssemos outro instituto de pesquisa. A gente só tem ele.

IMPRENSA - Por que você acha que o Data-Nexus não deu certo?
Freitas -
Pelo apadrinhamento do Silvio Santos. Se fosse independente, sem a chancela do SBT, teria uma aceitação muito maior. Não sei porque as empresas de telefonia, com a capilaridade que têm hoje, não desenvolvem um sistema de audiência mais abrangente do que temos.