Artigo: Os desafios do Jornalismo Ambiental no Brasil - por Wilson da Costa Bueno*
Artigo: Os desafios do Jornalismo Ambiental no Brasil - por Wilson da Costa Bueno*
Atualizado em 25/05/2006 às 11:05, por
Wilson da Costa Bueno*.
Artigo : Os desafios do Jornalismo Ambiental no Brasil - por
PorO Jornalismo Ambiental em nosso país enfrenta inúmeros desafios. Eles se iniciam no processo de capacitação do jornalista que irá trabalhar na área, se multiplicam nos veículos da grande imprensa e estão associados, inclusive, à própria percepção de seu papel por determinados segmentos da sociedade.
O primeiro desafio está relacionado com o conceito mesmo de jornalismo ambiental, que obviamente deriva do conceito de meio ambiente que circula por aí. A maioria das pessoas (inclusive boa parte da imprensa) ainda assume que meio ambiente é algo distante e que está "lá fora": são as florestas, os animais em extinção, a marcha dos pingüins etc. A cobertura da mídia reflete este conceito equivocado e, muitas vezes, opta por pautar temas descolados da nossa realidade concreta, como se o meio ambiente não incluísse cada um de nós e como se cada um de nós não impactasse o meio ambiente em todo lugar e a todo momento.
A cobertura da mídia incorpora, portanto, um conceito cosmético, reducionista, positivista de meio ambiente, desvinculando-o do que ocorre ao nosso redor. Ela é insípida, insossa e inodora.
O segundo desafio diz respeito à tentativa deliberada de despolitizar o debate das questões ambientais. Ignorando que se trata de uma atividade jornalística e, portanto, focada no interesse público, o jornalismo ambiental que aí está descontextualiza os fatos e não consegue, quase sempre, contemplar os interesses que rondam esta atividade. Não percebe as conexões entre os problemas ambientais, o modelo de desenvolvimento econômico, o processo acelerado de globalização e o consumo desenfreado, estimulado, inclusive e principalmente, pelos meios de comunicação. Assume, assim, uma visão reformista e não revolucionária e tem escrúpulo em "colocar o dedo na ferida", não se indigna com a injustiça social, tolera a ausência de políticas públicas (para o tratamento e o destino do lixo, para o saneamento básico em geral, para a gestão dos recursos hídricos etc). Não estabelece vínculo entre a temática ambiental e a posse da terra, a insegurança alimentar e a cumplicidade entre o saber técnico e o poder econômico e político que mantêm os monopólios e os privilégios de determinados grupos na sociedade.
O jornalismo ambiental de" fachada" repete a mesma hipocrisia observada na divulgação das ações pontuais de responsabilidade social, rotulando como sustentáveis práticas condenáveis, como as que estão relacionadas com o uso intensivo de agrotóxicos na agricultura. Imagina que será possível, como apregoam os arautos da biotecnologia (certamente a serviço das multinacionais das sementes) matar a fome do mundo com os transgênicos, não percebendo que o compromisso maior (único?) destas corporações é com os acionistas e com o aumento dos lucros. Gostam de "royalties", não da vida.
Outro desafio do jornalismo ambiental está no sistema de produção jornalística, fragmentado em editorias (economia, ciência e tecnologia,) e que , por isso, enxerga a questão ambiental a partir de um olhar não abrangente. Esse fato explica a visão estreita dos editores de economia que confundem sustentabilidade com crescimento econômico e imaginam que o mundo, cada vez mais ameaçado, poderá ser salvo com soluções químicas, os transgênicos , a plantação de eucaliptos ou as hidroelétricas na Amazônia. São eles que, em função desta visão equivocada, denominam plantação de eucaliptos de florestas, sem se darem conta de que floresta é outra coisa , que tem valor em função de sua biodiversidade e pelo fato de permanecer em pé, portanto viva. Confundem floresta com um monte de árvores cujo objetivo final é a morte rápida transformadas em papel ou madeira para fins industriais. Da mesma forma, as editorias de ciência reduzem o jornalismo ambiental a uma instância técnica, privativa dos doutores e catedráticos da academia, muitos dos quais absolutamente comprometidos com a indústria química , a indústria da biotecnologia, os monopólios das sementes e da mecanização agrícola.
As questões ambientais, para esses segmentos da mídia, só podem (e devem) ser resolvidas por uma elite, os especialistas, com a exclusão correspondente dos menos favorecidos, os que não têm voz, como os povos da floresta, os agricultores familiares, os atingidos pelas barragens, os pescadores, os mateiros e todos aqueles que não dominam o discurso competente dos que se encastelam em ambientes refrigerados e vêem apenas, em seu egoísmo intelectual, o seu próprio umbigo , sua carreira, sua promoção pessoal,
Para a mídia de massa, o debate ambiental deve ser neutro, objetivo, como se aqueles que produziram, em tempo não distante, o agente laranja (que penalizou o povo do Vietnã), não hesitaram em praticar o suborno (vide o caso ocorrido na Indonésia) ou que vendem por aqui agrotóxicos proibidos em outros países fossem neutros e imparciais. Os mesmos que envenenam a mídia com publicidade enganosa, agem sempre nos bastidores, no "escurinho do cinema", visando criar uma imagem de defensores da natureza.
A cobertura do meio ambiente no Brasil sofre, finalmente, de duas síndromes importantes: a da "branca de neve" e a da "erva daninha". A primeira diz respeito à necessidade que a mídia tem de um beijo de príncipe (um crime ambiental de porte) para acordar de sua omissão recorrente com a problemática ambiental. A segunda tem a ver com a adesão ao argumento da indústria de insumos que estimagtiza como praga tudo aquilo que não tem valor comercial. Na prática, a imprensa brasileira, com as exceções de praxe, tem uma mentalidade "round-up", "transgênica", "celulósica", "mineradora", que joga contra a diversidade, as culturas locais, o saber tradicional e desqualifica as soluções simples.
As mídias ambientais legítimas (não aquelas que pregam o marketing verde e vêem o meio ambiente apenas como oportunidade de negócio) têm sido a saída para a democratização do debate das questões ambientais. O jornalismo ambiental brasileiro autêntico assume compromissos, é civicamente militante, não prega a neutralidade, é sempre vigilante. Cultiva a utopia e, como preconizava Paulo Freire, sabe que mudar é difícil, mas é possível.
* Wilson da Costa Bueno é jornalista, editor do site Agricoma - Comunicação em Agribusiness e Meio Ambiente, professor da UMESP e da USP. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa






