Artigo: O jornalismo tem que se pensar, por Luiz Felipe Ferreira Stevanim*
Artigo: O jornalismo tem que se pensar, por Luiz Felipe Ferreira Stevanim*
Artigo : O jornalismo tem que se pensar, por Luiz Felipe Ferreira Stevanim*
* Luiz Felipe Ferreira Stevanim é aluno do 4º período do curso de Comunicação da Universidade Fed Não existe discurso inocente. Quem faz jornalismo já sabe disso há muito tempo - desde que começou a fazer. Quem pesquisa a atividade como cientista, também. Mesmo o público suspeita, desconfia, duvida - acreditemos, com muito otimismo, na existência de um público minimamente crítico. Por que a farsa, portanto? Há sim (e deve haver sempre) um compromisso com a verdade, mas isso deveria significar também uma maior clareza para o público dos métodos utilizados na produção da notícia, um exercício diário de transparência.Essa discussão é importante quando se considera que o jornalista escreve para um público completamente heterogêneo. Por mais que o leitor de um jornal não seja bobo, não se pode esquecer da complexidade da estrutura social brasileira, que educa poucos brasileiros e educa mal. Mas a mídia, por mais que despreze esse público não-leitor ou mal-leitor, precisa dele: se as empresas de comunicação quiserem expandir seus mercados, vai ser obrigatoriamente em direção às classes D e E, que ainda não consomem jornais. Um dos sintomas dessa tendência é a explosão de jornais populares (com baixo preço e perfil sensacionalista). Por interesses puramente comerciais, a mídia tem se nivelado por baixo.
Um pouco mais livres da tirania do mercado, estão as empresas públicas de comunicação (no modelo da TVE e TV Cultura). Essas podem manter a pluralidade da programação - o que não é a mesma coisa que intelectualizar. Na programação de qualquer canal público (veja o exemplo maior, que é a inglesa BBC), tem programa de futilidade para a dona de casa de classe média, mesa de debates com políticos e estudiosos, serviço de utilidade pública e até desenho animado. O que não acontece é a restrição da programação em nome da audiência.
O grande impasse de qualquer meio de comunicação é a famosa questão: para que deve servir a mídia? Sua função é veicular aquilo que agrada ao público ou aquilo de que o público precisa?
A auto-reflexão é um primeiro caminho na direção de uma mídia mais cidadã. Há poucas iniciativas dessa natureza nos meios de comunicação: o caso do ombudsman é o exemplo ideal, uma espécie de crítico do jornal (o nome vem do inglês e significa ouvidor), que fala em nome do público de dentro dos tramites da redação. Mas dos grandes veículos de comunicação, apenas a Folha de S.Paulo adotou esse modelo, com comentários diários no site do jornal e uma coluna impressa no domingo.
Prova de que mesmo para a grande mídia é possível um jornalismo mais crítico. As redações em geral possuem manuais de orientação, e no da Folha três são os pressupostos básicos: fazer um jornalismo crítico, pluralista e apartidário. Uma frase desse manual que vem ao caso: "a utilidade dos jornais crescerá se eles conseguirem não apenas organizar a informação inespecífica, aquela que potencialmente interessa a toda pessoa alfabetizada, como torná-la mais compreensível em seus nexos e articulações". Isso significa ser didático? Crítico? É possível ser os dois ao mesmo tempo? Se isso é cumprido na prática, é outra história. Pelo menos é uma meta.
Existe um público que lê editoriais e toma as decisões e outro que vê TV e vota de dois em dois anos. É óbvio que esses públicos têm interesses diferentes, mas isso não significa que tenham direitos diferentes. Cabe pensar se ambos se vêm igualmente representados nos meios de comunicação.
Uma alternativa mais profunda de participação são os chamados veículos comunitários, principalmente as rádios. O morador faz o programa na favela onde vive, reivindicando das autoridades saneamento básico, remédio nos postos de saúde, carteira nas escolas. Sem dúvida é o contato mais direto com os habitantes do local, uma forma de permitir o que a mídia comercial permite muito pouco: que seu público possa falar. Não é cura de um mal, mas construção diária e prolongada de uma saída.
Não importa em que instâncias, seja em mídia privada, pública ou comunitária, só tem sentido fazer jornalismo diante de uma palavra: identidade. As pessoas têm que se conhecer melhor através da mídia: os problemas que enfrentam, as soluções possíveis e as experiências vivenciadas por outras pessoas em outros lugares. O que passa também por um sentido de solidariedade. Espaços de auto-reflexão da mídia são necessários, para que discussões como essa não morram sem atingir a esfera cotidiana. Caso contrário, este texto será apenas mais um artigo publicado em jornal e lido pela classe privilegiada. 





