A polifonia esquecida do jornalismo, por Diego Antonelli/UEPG
A polifonia esquecida do jornalismo, por Diego Antonelli/UEPG
A polifonia esquecida do jornalismo , por Diego Antonelli/UEPG
PorEste artigo procura realçar onde podem ser encontradas, na prática jornalística, as características da polifonia segundo o teórico e filólogo russo Mikhail Bakhtin (1895-1971). Entretanto, para compreender qual é o real significado deste termo torna-se essencial passar por outros conceitos que o margeiam e embasam-no. Seja o significado da linguagem para o autor, seja o do dialogismo ou do tato.
A linguagem não é algo inventada ao acaso e sem motivo. Ela é fabricada e dirigida a locutores específicos. Dessa forma, pode-se afirmar que a nossa identidade é produzida de uma maneira coletiva, já que as expressões populares e o modo de falar de uma determinada região podem caracterizar uma população específica. Exemplo que pode ser encontrado na região dos Campos Gerais do Paraná (o tão famoso "Ade") ou em um lugar mais regionalista ainda, como o Rio Grande do Sul, que possui um sotaque extremamente carregado, além do conhecido "Tchê".
A linguagem do dia-a-dia pode ser comparada a uma linguagem específica de uma revista. Antecedendo a proposta inicial deste artigo, já podem ser encontradas similaridades entre dois formatos distintos da linguagem. Quando esta é dirigida a um grupo específico de pessoas, pode-se comparar as revistas que também tenham uma linguagem específica para quem irá as consumir. Caros Amigos possui uma linguagem voltada às pessoas que possuam uma ideologia esquerdista, já a Veja possui uma retórica conservadora e tradicional. Cada uma voltada para um público específico. Mas, nada impede que alguém conservador leia Caros Amigos, ou vice-versa. Assim como nada proíbe que um ponta-grossense viaje para Porto Alegre a fim de ter contatos com uma outra cultura e, consequentemente, uma outra linguagem.
Isso recai em outro aspecto que Bakhtin relata: o Eu só existe em contato com outro EU. Pode significar que o sentido de algo só pode ser percebido com a presença de outra pessoa, contudo pode também significar que é necessário significar a existência do outro e suas diferenças. Ou seja, a cultura de um povo só fica mais visível através dos olhos de uma outra cultura, já que é neste contato que as principais distinções aparecem e as características mais marcantes realçam. Neste encontro dialógico, cada cultura conserva sua unidade, porém cada uma enriquece mutuamente através desta troca cultural. Fica visível que uma existe em função da outra, pelo contato [a seguir veremos que pode ser pelo com(tato)] E, também fica nítido que não há como fugir da linguagem. Ela está presente em qualquer lugar, desde um simples diálogo ou uma leitura complexa de um complexo autor. A linguagem pode ser comparada a um gigantesco oceano, onde tudo que dizemos, ouvimos e pensamos deságua nela.
O tato é um conjunto de códigos lingüísticos que guiam a interação entre os interlocutores. Uma das conseqüências mais marcantes do tato é a entonação de voz e sua postura. Essa entonação oferece poderes às pessoas. Podemos destacar as diferenças de poderes quando um repórter policial humilha alguém acusado e está prestes a ser preso na frente das câmeras e de milhões de telespectadores. O acusado, na maioria das vezes, nem tem coragem de erguer a cabeça e responder o motivo de estar preso, tamanha é a entonação de voz do jornalista (que às vezes nem diploma possui) frente ao "entrevistado". A diversidade de comportamento de ambos é clara devido às diferentes posturas de vozes.
Baseado neste exemplo seria possível afirmar que não é tão somente a atividade mental que organiza a expressão (ou seria entonação?)? Ou, na verdade, seria o contrário: a expressão corporal decorrente da postura de voz é que irá organizar a atividade mental? Algo dúbio, porém se formos analisar o exemplo acima, veremos que a entonação pode nem sempre significar realmente o que o jornalista pensa. E, sim, que ele tenha agido de determinada maneira apenas para ganhar audiência e demonstrar que sua voz está acima da do entrevistado.
A entonação se faz presente mesmo quando pensamos e não há um interlocutor em presença física. É como se existisse um auditório inserido em nossa mente. De acordo com Stam, "qualquer enunciado, inclusive o monólogo solitário tem seus 'outros' e só existe em relação ao contexto de outros enunciados. Até um eremita, diz Bakhtin, não é 'dono' de suas palavras. Como (Bakhtin) afirma repetidas vezes, 'a palavra sempre vem da boca de um outro', é um patrimônio comum" (STAM, Robert, Bakhtin, da teoria literária à cultura de massa, p. 73). Nós produzimos um monólogo já pensando como ele seria escutado por um receptor/interlocutor. A forma como ocorre determinada enunciação se dá pelo com(tato). Afinal, quando um produtor realiza um documentário ou um filme ou, ainda, quando um escritor produz um livro, eles já têm em mente como será dada a recepção de seus produtos perante o público. Sendo assim, imaginam um receptor ideal que irá consumi-los. Esse outro (criado no imaginário do produtor) orienta a produção imaginada pelo autor. Este fato estabelece um diálogo nítido entre ambos, mesmo que um não exista fisicamente.
O diálogo é a essência do dialogismo. A grosso modo, esta expressão refere-se a um emaranhado de idéias e enunciados distintos que se fazem presentes em qualquer material cultural, como: filmes, livros, poemas e até mesmo reportagens.
Porém, nem sempre o dialogismo está presente. Em alguns filmes pornográficos, por exemplo, é somente a visão masculina que prevalece. Mesmo em cenas de lesbianismo a câmera visualiza as imagens de acordo com que o homem quer assistir. A voz e visão das mulheres estão excluídas dos filmes pornôs. Trata-se, simplesmente, de algo monológico disfarçado de dialógico. "Em termos bakhtinianos, o pornô é monológico; ele subordina tudo aos ditames da imaginação masculina. Geralmente, o pornô não tem sido aberto ao que Bakhtin chamaria de 'multilinguagem' da vida erótica" (STAM, Robert. Bakhtin, da teoria literária à cultura de massa, p. 80 e 81).
O dialogismo pode ser compreendido, pelo menos para este artigo, em três diferentes dimensões: 1) Pode ser usado para explicar a transdisciplinariedade das grandes áreas, como História e Jornalismo; 2) Dentro da linguagem, quando só aprendemos algo por uma orientação externa; 3) Ou, como prática operacional, o que mais nos interessa como as reportagens. Neste último quesito encontramos a polifonia. Esta permite a expressão de diversas vozes que compõem o cenário em uma única discussão.
Deve ficar claro que não basta ter vários comentários para dizer que algo é, realmente, polifônico, pois todos podem estar propagando uma única apologia. Exemplo prático e jornalístico deste fato está nas matérias que a Rede Globo e o periódico Veja fazem acerca do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e do presidente venezuelano Hugo Chávez. Em todas as reportagens que o tema central refere-se a eles ocorre, na verdade, uma pseudo-polifonia. Há uma estratégia comercial-jornalística de camuflagem de determinadas vozes e acontecimentos.
Os integrantes do MST sempre aparecem como invasores, matadores, bandidos, pessoas que destroem a propriedade alheia. Nunca como pessoas pobres que necessitam de um lugar para trabalhar e que, no passado, foi tirado deles os seus pequenos pedaços de terra. O contexto de desigualdade social que eles passam raramente é demonstrado por estes veículos de comunicação. O tempo de fala destinado a eles é sempre menor que para os elitistas que contrariam o movimento. Até o número de fontes diferencia-se. Para cada um integrante do MST, aparecem dois ou três que são contra.
O mesmo pode ser percebido em relação ao Hugo Chávez. Criticam-no de ser autoritário, tirano e antidemocrático. Todavia esquecem que ele foi eleito duas vezes em cinco anos de mandato com maioria quase absoluta de votos. Mostram um grupo de pessoas o criticando, mas não falam que esse grupo trata-se da elite contrária a sua política socialista que busca a igualdade. Deixam de mostrar o quanto a economia venezuelana está crescendo, para afirmarem de forma pejorativa que ele (Chávez) está distribuindo remédios a população de forma gratuita. Mas, não relatam que o presidente venezuelano tem uma política sócio-econômica que almeja à população ter empregos e conseguir comprar os remédios que ela necessita.
Enfim, os grandes meios de comunicação agem de acordo com o que lhes interessa politicamente. Essa monofonia de um discurso incontestável que a Globo e a Veja reproduzem é meramente um relato autoritário que não respeita as normas jornalísticas de escutar todos os lados envolvidos nos fatos. No entanto, estes textos monofônicos apenas ocultam e se fazem de esquecidos que a verdadeira ideologia só pode ser reproduzida através de interações polifônicas, já que são com as diferenças expostas, através da polifonia, que podem ser comparados e fortalecidos os diferentes pontos de vista. Caso a polifonia fosse levada a sério por estes veículos alguns benefícios para o jornalismo e para sociedade poderiam ocorrer: mais fontes apareceriam, o que ocasionaria uma maior profundidade das matérias, o grau de desconhecimento da população sobre tais assuntos seria menor, bem como a influência ideológica dos meios de comunicação sobre os (pobres) consumidores.






