A miséria argentina a galope - Por Wando Soares/Porto Alegre-RS
A miséria argentina a galope - Por Wando Soares/Porto Alegre-RS
Atualizado em 10/11/2005 às 17:11, por
Wando Soares e estudante do Centro Universitário Feevale - RS.
A miséria argentina a galope - Por Wando Soares/Porto Alegre-RS
Por Fixar uma câmera de vídeo em um cavalo que galopa em meio ao tráfego de veículos de uma grande cidade da Argentina. Foi dessa forma que a artista plástica Adriana Bustos encontrou para produzir o vídeo "Primavera", que compõe o Projeto 4X4, instalação em exposição na Usina do Gasômetro, em
Porto Alegre, durante a 5ª Bienal do Mercosul que se estende até o dia 4 de dezembro.
O título do vídeo é uma forma de homenagem à égua Primavera, o animal da gravação que morreu vítima da exploração de catadores de papelão. A primeira impressão é de que o vídeo busca denunciar essa prática de desrespeito ao animal. Aos poucos, quando o cenário vai se revelando, percebe-se que a
crítica vai muito além disso. Trata-se de uma denúncia das condições de miséria a que estão submetidos os catadores de papel, atividade que se expandiu no país depois da crise econômica em que a Argentina mergulhou em 2001.
Fruto da instabilidade da câmera, a imagem errática e alienada, juntamente com os sons do galope e do relinchar do animal, causa desconforto no espectador. Carros, ônibus, asfalto, luzes, placas, sons de trânsito e uma profusão de outros elementos não identificáveis no vídeo revelam toda a angústia do carroceiro, do cavalo ou de ambos. Em alguns trechos, imagens rápidas de publicidade de marcas multinacionais parecem uma forma da artista dizer "abaixo o imperialismo norte-americano!".
Para a elaboração de sua crítica, Adriana Bustos acertou com precisão em escolher o mundo dos papeleiros que, junto às suas carroças e cavalos, são o ícone do apartheid social dos grandes centros urbanos. De um lado, carros importados, vitrines e luxo; de outro, cavalos, carroças, papeleiros e
miséria. Muita miséria.
Nascida em Bahía Blanca, radicada em Córdoba, Adriana explica que "a partir da crise econômica acentuada nos últimos cinco anos, em Córdoba, como em outras cidades do país, circulam pelas ruas, junto a carros e ônibus, carros levados por cavalos, que são veículo e ferramenta de trabalho para os
papeleiros, e que dão à cidade um estranho aspecto colonial".
Foi sob essa inspiração, segundo a artista, que surgiu a Projeto 4X4, que rendeu à Adriana Bustus a menção especial dos jurados nas edições 2004 e 2005 do Cultural Chandon, um dos principais festivais de artes visuais da Argentina. Além do vídeo, o trabalho é composto por cinco fotografias de
cavalos que morreram após serem submetidos ao desgaste das ruas, servindo de tração para veículos de papeleiros.
Nos retratos, captados em formato 4X4 como em documentos, aparecem os cavalos batizados de Moro, Primavera, Rosario, Nena e Somador, todos com algum tipo de acessório que os identificam como únicos. "O cavalo, como histórico emblema do orgulho nacional e prosperidade dos nossos campos,
empurrado pela cultura da marginalidade à cidade, aparece também como um candidato ao exílio", aponta Adriana.
A artista explica que os cavalos foram fotografados na rua durante a noite, com luz artificial e o azul celeste do céu ao fundo de forma que ficassem semelhantes com as fotografias dos documentos de identidade. Querendo ou não, com o trabalho a artista alça os animais a mártires da luta contra a desigualdade social dos grandes centros urbanos daquele país e do mundo.






