As revistas e a tal da felicidade

As revistas e a tal da felicidade

Atualizado em 24/01/2011 às 14:01, por Silvia Dutra.

No último domingo fui passear a pé, com dois amigos, por uma região de Miami onde até então eu só havia circulado de carro, indo ou voltando de algum lugar. E que experiência agradável descobrir cantos e recantos de uma região onde já vivo há 6 anos e que ainda consegue me surpreender. Coisa boa que é andar horas, despreocupada, sem pensar em nada, sem lembrar do relógio, com o celular desligado. Só exercitando o gosto de olhar, de descobrir coisas bonitas, de apreciar a paisagem, a brisa, o sol, o azul do mar e a diversidade de pessoas curtindo o mesmo prazer. Fiquei feliz feito alguém sem vintém que de repente descobre no bolso um dinheiro esquecido e mata uma fome que nem sabia que sentia.
Dias depois fui trabalhar e minhas colegas comentavam o que haviam feito durante o final de semana. Uma tinha arrumado a garagem e limpado o jardim enquanto assava um frango, um bolo e biscoitos e descongelava o freezer e a geladeira. A outra tinha participado de mais um almoço enfadonho com parentes na casa da sogra, que insiste em manter essa tortura disfarçada de tradição. E dizia orgulhosa: "consegui resistir à sobremesa". Como se ao rejeitar o doce estivesse também, de alguma maneira, se vingando da sogra. Uma terceira tinha passado o domingo escrevendo, selando e envelopando notas de agradecimento por ter recebido cartões de Natal e Boas Festas de parentes e amigos. A outra disse que tinha "aproveitado o domingo se organizando para recomeçar a rotina na segunda feira com a casa toda em ordem". Parece que a única que tinha tido um domingo divertido tinha sido eu com meus dois amigos, Andrew e Dianne. Mas quando comecei contar minhas aventuras uma quarta colega me interrompeu dizendo que não sabia como eu podia fazer isso. Diz ela que se sente culpada quando não faz nada "produtivo" .
E todas concordaram. E eu fiquei com cara de "ah é ?" Nesse momento tive uma revelação, um insight como dizem aqui, do porquê revistas femininas, de um modo geral, não me agradam. Caiu a ficha. O que me irrita nessas revistas é que elas são uma versão mais longa e colorida do mesmo papo chato de minhas colegas de trabalho. A obsessão pela ordem, pela limpeza, pela obrigação do convívio social e familiar, mesmo quando ele traz mais enfado que prazer . O ufanismo besta de ser capaz de realizar eficientemente várias tarefas simultaneamente para "economizar tempo", embora nunca nos digam o que fazer com tanto tempo economizado. A neurose de esconder as rugas, empinar a bunda, levantar os seios, tonificar braços e pernas, desenvolver uma barriga reta sem qualquer pneuzinho, eliminar as estrias, celulites, os fios brancos, ser capaz de múltiplos orgasmos e outras missões impossíveis, especialmente depois de uma certa idade. A perseguição insana pela perfeição em todos os papéis que desempenhamos na vida: mães, filhas, esposas, profissionais, cidadãs etc . E essa doença de ter que sempre fazer algo "útil, produtivo" o tempo todo, enquanto tentamos capturar a tal da felicidade.
E a tal dessa felicidade, segundo Joe Robinson -- que entrevistou pesquisadores em importantes universidades e escreveu um livro sobre o tema chamado "Don't miss your life" -- é bem mais fácil de ser alcançada com doses frequentes e regulares sabe do que? Lazer, brincadeiras. O prazer pelo prazer, sem buscar qualquer outra recompensa. Da mesma maneira que fazíamos quando crianças, quando brincávamos distraídos, sendo nós mesmos, sem pensar que subir em árvores ou correr atrás de uma bola nos faria mais magros, ou tornaria nossas pernas mais firmes.
Não vale dormir. Dormir não é lazer, mas necessidade física, como comer e respirar. O segredo é se dar permissão e arrumar tempo todos os dias para fazer algo que seja divertido, que nos dê prazer e alegria.
"Quando você está estressado", diz Joe Robinson, " a parte do cérebro que controla as emoções suprime o otimismo, o bom humor, causando um círculo vicioso de negatividade que tende a se perpetuar ".
Participar em atividades recreativas força o cérebro a funcionar num outro nível, nos tira da camisa de força desse hábito horroroso de querer ser adultos e só tratar de coisas sérias o tempo todo. É como quando decidimos desligar e religar o computador porque algo fez a tela ficar congelada e a máquina, embora ligada, não serve mais para nada. Brincar, se divertir, tem o mesmo efeito no cérebro humano, além de aumentar a energia, a vitalidade, o bom humor, a criatividade e a capacidade de sentir mais prazer. Também reduz o desgaste físico e emocional cotidiano causado pelo trabalho e as preocupações das quais ninguém escapa. E ainda melhora o sistema imunológico. Mas ainda mais fundamental do que isso tudo: faz com que sejamos companhias mais agradáveis. Para os outros e, mais importante, para nós mesmos.