As pontes e os descaminhos
As pontes e os descaminhos
Atualizado em 03/02/2010 às 14:02, por
Silvia Dutra.
Muzzammil Hassan é proprietário e fundador da Bridges TV, o primeiro canal de televisão muçulmano nos Estados Unidos com programação totalmente em Inglês. Ele também é acusado de ter assassinado a facadas e decapitado sua terceira esposa, Aasiya, em fevereiro do ano passado, dentro do prédio onde a TV funciona, em Orchard Park, New York.
Seu julgamento está previsto para acontecer no mês que vem e o caso tem gerado muita controvérsia, não só pela violência do crime, mas porque reacendeu outras questões espinhosas, como a violência doméstica - uma epidemia nos EUA - e os preconceitos e estereótipos que marcam o relacionamento dos americanos em geral com pessoas que professam a religião muçulmana. Evidenciou também, mais uma vez, os desafios enfrentados por mulheres muçulmanas em conciliar valores tradicionais dessa religião com os da sociedade americana que estimula a independência feminina.
Dados do Censo americano apontam que vivem no país entre seis a sete milhões de muçulmanos. Etnicamente diversos, a grande maioria é composta por imigrantes do sul asiático e diversos países árabes. Muitos americanos - a maioria negros - converteram-se à essa crença nos últimos anos, fenômeno também observado em outros países, o que torna o Islamismo a religião que mais cresce no mundo. Segundo o Conselho de Relações Americana e Muçulmana (Council on American-Islamic Relations, CAIR), há aproximadamente 1.200 mesquitas espalhadas por todo os Estados Unidos, além de centenas de centros culturais e escolas, especialmente em grandes cidades.
Apesar da maior visibilidade social, os eventos de 11 de setembro e as guerras do Iraque e do Afeganistão contribuíram para aprofundar o estranhamento entre os americanos com os muçulmanos em geral. Sem falar de Osama Bin Laden, que continua sendo uma grande pedra -- impossível de achar, mas incômoda -- no sapato do orgulho americano.
E foi justamente para tentar reverter essa situação que o paquistanês Muzzammil Hassan, incentivado por sua conterrânea e esposa Aasiya, lançou a emissora em 2004. O objetivo principal era contrabalançar a maneira negativa com que os muçulmanos são retratados pela mídia (geralmente como extremistas, fanáticos, terroristas) e promover pontes -- daí o nome, Bridges -- para facilitar o entendimento e a convivência pacífica entre crentes e não-crentes em Maomé. "Está faltando falar sobre a tolerância, o progresso, a diversidade, os serviços e a excelência muçulmana e é isso que a Bridges espera fazer", declarou Muzzammil Hassan na época da inauguração da empresa.
Seu crime chocou parentes, amigos e funcionários da Bridges. E prestou um desserviço à causa que ele defendia.
A união de Muzzamil e Aasiya era tumultuada. A polícia de Orchard Park, um subúrbio de classe média alta nas cercanias de Buffalo, no norte do estado de New York, foi chamada algumas vezes à residência deles - durante os oito anos em que durou o casamento -- por causa de discussões.
Dias antes de ser assassinada, Aasiya tinha completado os papéis necessários para se divorciar de Muzzamil. Seus advogados tinham inclusive conseguido uma ordem judicial proibindo-o de voltar à casa, justamente porque havia a preocupação da violência verbal e emocional escalar para agressões físicas. Apesar desse risco, Aasiya continuou trabalhando na emissora, onde acabou acontecendo seu assassinato e decapitação.
Dr. Phyllis Chesler, professor de psicologia na Universidade Richmond e autor do livro "São as matanças pela honra simplesmente violência doméstica?" (Are Honor Killings Simply Domestic Violence?) declarou que o assassinato de Aasiya se encaixa no perfil dos crimes com motivação religiosa e cultural.
Muitos homens muçulmanos consideram o que Aasiya fez (pedir o divórcio e proibir a volta do marido à casa do casal) como uma desonra para a família. "Deixar as partes do corpo dela em exposição, da maneira como ele fez, é muito peculiar nesse tipo de crime. Ele queria mostrar à comunidade que apesar da empresa não estar indo muito bem ele ainda tinha o controle sobre sua esposa", declarou Chesler.
Para escrever seu livro, Chesler pesquisou mais de 50 casos de assassinatos para lavagem da honra na América do Norte e Europa. Segundo ele, esse tipo de crime atinge mais mulheres jovens e adolescentes dentro da comunidade muçulmana (geralmente filhas e irmãs dos chefes das famílias) e, em menor quantidade, esposas.
Embora a violência doméstica seja uma verdadeira epidemia nos Estados Unidos e brigas entre maridos e mulheres -- de qualquer religião, idade e origem étnica -- podem sim, de vez em quando, acabar em crimes e tragédias, pessoas importantes dentro da comunidade islâmica admitem que o desejo feminino, especialmente o de se divorciar, pode ser visto como algo grave o bastante para ser punido com a morte.
Uma delas foi o vice-presidente da Sociedade Islâmica Norte Americana, Mohammed Hagmagid Ali, que num depoimento distribuído à imprensa classificou a morte de Aasiya como um grito de alerta. "Violência contra mulheres acontece e não deve ser ignorada. Mulheres que querem se divorciar por conta de abusos físicos devem receber apoio da comunidade, e não serem vistas como alguém que trouxe vergonha e desonra para si mesmas ou para sua família. A vergonha deve recair sobre quem comete esses atos de violência e abuso. Nossa comunidade deve se posicionar firmemente contra cônjuges abusivos".
Como também é meio típico nesse tipo de caso, o advogado de defesa de Muzzammil Hassan, Frank Bogulski, declarou em entrevista recente à Associated Press, que o crime aconteceu após anos de abuso inflingidos por Aasiya sobre seu marido. "Ele era a vítima, a esposa era a figura dominante no relacionamento". Contra esse argumento figuram dois casamentos anteriores de Hassan, que também terminaram em divórcio com as esposas alegando crueldade crônica como motivo.
Ele continua preso, aguardando julgamento. Se condenado pode passar o resto da vida na cadeia. Ele teve 2 filhos com Aasiya e outros dois com a segunda esposa. Quem quiser conhecer a Bridges TV, .
| Reprodução |
| Aasiya e Muzzammil Hassan |
Dados do Censo americano apontam que vivem no país entre seis a sete milhões de muçulmanos. Etnicamente diversos, a grande maioria é composta por imigrantes do sul asiático e diversos países árabes. Muitos americanos - a maioria negros - converteram-se à essa crença nos últimos anos, fenômeno também observado em outros países, o que torna o Islamismo a religião que mais cresce no mundo. Segundo o Conselho de Relações Americana e Muçulmana (Council on American-Islamic Relations, CAIR), há aproximadamente 1.200 mesquitas espalhadas por todo os Estados Unidos, além de centenas de centros culturais e escolas, especialmente em grandes cidades.
Apesar da maior visibilidade social, os eventos de 11 de setembro e as guerras do Iraque e do Afeganistão contribuíram para aprofundar o estranhamento entre os americanos com os muçulmanos em geral. Sem falar de Osama Bin Laden, que continua sendo uma grande pedra -- impossível de achar, mas incômoda -- no sapato do orgulho americano.
E foi justamente para tentar reverter essa situação que o paquistanês Muzzammil Hassan, incentivado por sua conterrânea e esposa Aasiya, lançou a emissora em 2004. O objetivo principal era contrabalançar a maneira negativa com que os muçulmanos são retratados pela mídia (geralmente como extremistas, fanáticos, terroristas) e promover pontes -- daí o nome, Bridges -- para facilitar o entendimento e a convivência pacífica entre crentes e não-crentes em Maomé. "Está faltando falar sobre a tolerância, o progresso, a diversidade, os serviços e a excelência muçulmana e é isso que a Bridges espera fazer", declarou Muzzammil Hassan na época da inauguração da empresa.
Seu crime chocou parentes, amigos e funcionários da Bridges. E prestou um desserviço à causa que ele defendia.
A união de Muzzamil e Aasiya era tumultuada. A polícia de Orchard Park, um subúrbio de classe média alta nas cercanias de Buffalo, no norte do estado de New York, foi chamada algumas vezes à residência deles - durante os oito anos em que durou o casamento -- por causa de discussões.
Dias antes de ser assassinada, Aasiya tinha completado os papéis necessários para se divorciar de Muzzamil. Seus advogados tinham inclusive conseguido uma ordem judicial proibindo-o de voltar à casa, justamente porque havia a preocupação da violência verbal e emocional escalar para agressões físicas. Apesar desse risco, Aasiya continuou trabalhando na emissora, onde acabou acontecendo seu assassinato e decapitação.
Dr. Phyllis Chesler, professor de psicologia na Universidade Richmond e autor do livro "São as matanças pela honra simplesmente violência doméstica?" (Are Honor Killings Simply Domestic Violence?) declarou que o assassinato de Aasiya se encaixa no perfil dos crimes com motivação religiosa e cultural.
Muitos homens muçulmanos consideram o que Aasiya fez (pedir o divórcio e proibir a volta do marido à casa do casal) como uma desonra para a família. "Deixar as partes do corpo dela em exposição, da maneira como ele fez, é muito peculiar nesse tipo de crime. Ele queria mostrar à comunidade que apesar da empresa não estar indo muito bem ele ainda tinha o controle sobre sua esposa", declarou Chesler.
Para escrever seu livro, Chesler pesquisou mais de 50 casos de assassinatos para lavagem da honra na América do Norte e Europa. Segundo ele, esse tipo de crime atinge mais mulheres jovens e adolescentes dentro da comunidade muçulmana (geralmente filhas e irmãs dos chefes das famílias) e, em menor quantidade, esposas.
Embora a violência doméstica seja uma verdadeira epidemia nos Estados Unidos e brigas entre maridos e mulheres -- de qualquer religião, idade e origem étnica -- podem sim, de vez em quando, acabar em crimes e tragédias, pessoas importantes dentro da comunidade islâmica admitem que o desejo feminino, especialmente o de se divorciar, pode ser visto como algo grave o bastante para ser punido com a morte.
Uma delas foi o vice-presidente da Sociedade Islâmica Norte Americana, Mohammed Hagmagid Ali, que num depoimento distribuído à imprensa classificou a morte de Aasiya como um grito de alerta. "Violência contra mulheres acontece e não deve ser ignorada. Mulheres que querem se divorciar por conta de abusos físicos devem receber apoio da comunidade, e não serem vistas como alguém que trouxe vergonha e desonra para si mesmas ou para sua família. A vergonha deve recair sobre quem comete esses atos de violência e abuso. Nossa comunidade deve se posicionar firmemente contra cônjuges abusivos".
Como também é meio típico nesse tipo de caso, o advogado de defesa de Muzzammil Hassan, Frank Bogulski, declarou em entrevista recente à Associated Press, que o crime aconteceu após anos de abuso inflingidos por Aasiya sobre seu marido. "Ele era a vítima, a esposa era a figura dominante no relacionamento". Contra esse argumento figuram dois casamentos anteriores de Hassan, que também terminaram em divórcio com as esposas alegando crueldade crônica como motivo.
Ele continua preso, aguardando julgamento. Se condenado pode passar o resto da vida na cadeia. Ele teve 2 filhos com Aasiya e outros dois com a segunda esposa. Quem quiser conhecer a Bridges TV, .






