Após pedido de desculpas de Bolsonaro, jornalista Bianca Santana diz que mantém ação contra o presidente

Chefe do Executivo disse que se equivocou ao acusar a profissional, mas ela acredita em estratégia para atacá-la

Atualizado em 03/08/2020 às 11:08, por Redação Portal Imprensa.

No dia 28 de maio deste ano, um dia depois que o Supremo Tribunal de Justiça decidiu não federalizar as investigações do caso Marielle, Jair Bolsonaro - favorável à federalização - usou o espaço de uma live no YouTube para acusar a jornalista Bianca Santana de escrever “fake news”.

Crédito:Wikimedia


Ele se referia a uma matéria da qual Bianca não era autora, o que motivou uma ação judicial da jornalista exigindo retratação e indenização de R$ 50 mil por danos morais.


Na quinta-feira passada (30), o presidente anunciou que retirou a live do ar e pediu desculpas à profissional pelo suposto equívoco, porém Santana disse que vai manter a ação na Justiça porque acredita que Bolsonaro não cometeu um erro, mas usou de estratégia para produzir uma onda de ódio contra ela nas redes sociais.


De acordo com Bianca Santana, que falou sobre o assunto este fim de semana em sua conta no Twitter, na época em que foi atacada pelo presidente na live, em maio, ela participava da campanha que conseguiu mais de 100 mil assinaturas pedindo que o caso Marielle seguisse no Rio de Janeiro. Ela também tinha publicado um artigo no UOL em que questionou os interesses da família presidencial no assunto.


Por isso, apesar de inicialmente estranhar ter seu nome citado por Bolsonaro, ela associou posteriormente a acusação ao fato de ter se envolvido com o caso Marielle.


“A menção ao meu nome não foi meramente um erro. Na página em que está publicada a notícia lida por Jair Bolsonaro, não há o meu nome. Por que o presidente insiste, com outra informação falsa? Bolsonaro não se equivocou, ele violou direitos e provocou um dano à minha honra. Vale lembrar que, na semana quando fui citada pelo presidente, havia escrito um texto sobre as relações da família Bolsonaro com a milícia acusada do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Durante a live, Bolsonaro segurava um papel em que é possível ver uma fotografia de Marielle. Por que o meu nome estava na mesa do presidente naquele dia?”, tuitou.



Quando mencionou o nome da jornalista, Bolsonaro falava em “reportagens de fake news”, como relembrou na quinta em sua live semanal. “Tinha o nome dela lá embaixo, houve equívoco da minha parte”, disse. “Não era da jornalista Bianca Santana, minhas desculpas por esse equívoco nosso. Inclusive já mandei retirar toda a live do ar. Da nossa parte não tem problema em se desculpar quando erra”, reiterou.


Ódio e ameaças


A citação de Bolsonaro a Bianca rendeu a ela grande exposição nas redes sociais. A jornalista é vítima de linchamento virtual e chegou a receber quatro mensagens com ameaças de morte. Ela também sofre com constantes tentativas de mudança de suas senhas na internet.


Por conta desse episódio, Santana foi escolhida por 19 organizações da sociedade civil para ser face de uma ação coletiva apresentada na ONU contra o presidente por ataques a pelo menos 54 mulheres jornalistas desde o início do mandato.


“Sigo exigindo, individual e coletivamente, que os ataques sejam interrompidos e que o Estado brasileiro garanta um ambiente seguro para a liberdade de expressão, organização e manifestação política. Fico animada por meus pedidos no processo terem sido parcialmente atendidos pelo presidente antes mesmo do julgamento. Mas sigo com a ação judicial, que tem também o objetivo de inibir que Jair Bolsonaro siga atacando jornalistas e para que seja atendida a solicitação de indenização, a ser doada integralmente para a busca de justiça pelo assassinato de Marielle”.


A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), uma das entidades que assina a ação coletiva, contabilizou 208 agressões a veículos e jornalistas em 2019, sendo o presidente responsável direto por 121.