Apesar de ataques a jornalistas, estudo diz que imprensa beneficiou Donald Trump

Eis aqui um breve retrospecto da relação do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, com a imprensa nos últimosmeses.

Atualizado em 22/08/2016 às 11:08, por Gabriela Ferigato.

Proibiu que veículos como Washington Post , Político e BuzzFeed cobrissem atos de sua campanha. Deixou de ir a um debate ao afirmar que a apresentadora Megyn Kelly, da Fox News, o perseguia. Debochou de um repórter do The New York Times com deficiência física durante um comício. E continua.

Apesar dos pesares, um estudo sobre a cobertura das eleições norte-americanas feito pelo Shorenstein Center da Universidade de Harvard, nos EUA, afirmou que foi justamente a imprensa a responsável por ajudar a consolidar a candidatura de Trump. A análise, que avaliou o período anterior às primárias por meio de matérias de oito organizações (CBS, FOX, Los Angeles Times , NBC, New York Times, USA Today, Wall Street Journal e Washington Post ), indicou que o republicano foi o mais beneficiado nas exposições positivas.
Crédito:gage skidmore
De acordo com o levantamento, apenas no ano passado, o empresário obteve o equivalente a US$ 55 milhões em “publicidade gratuita”, levando em conta a reportagens noticiosas positivas ou neutras. Esse valor é uma vez e meia maior em comparação com as coberturas de George Bush, Marco Rubio e Ted Cruz. Mais do que o dobro de Ben Carson e três vezes mais do que a de John Kasich.
Já é dito aos quatro ventos que Trump está aí para, quem sabe, comprovar a tão famosa expressão “there’s no such thing as bad publicity”, algo como “não existe publicidade ruim”, em português. Ao tentar encontrar algumas respostas, o estudo diz que o republicano é o primeiro candidato a presidente genuinamente criado pela mídia. “Os jornalistas pareceram negligentes ao não perceberem que eram eles, e não o eleitorado, a primeira audiência do político”, alertou.
Crítica à constatação, a jornalista Molly Ball, da revista The Atlantic , onde cobre política nacional, foi bem objetiva em seu artigo: “Pare de culpar a mídia por Trump”. “Os eleitores, e não a imprensa, decidem as eleições”, começa o texto que também questiona ideias como a da articulista Dana Milbank, do The Washington Post, que propôs um apagão midiático em retaliação aos ataques do magnata. “É antiético para a noção de livre mercado de ideias e da autoridade absoluta dos eleitores em uma democracia.
MÁQUINA DE AUDIÊNCIA

O correspondente da BBC Brasil em Washington João Fellet concorda que o republicano recebeu uma cobertura bem mais robusta em comparação com seus concorrentes em um momento importante para a definição da vaga – no começo das primárias – o que tornou sua campanha mais conhecida e, consecutivamente, pode ter angariado mais votos. Mas, ao contrário do que pregou o estudo, o repórter não acredita que o político tenha sido criado pela mídia – em compensação soube usá-la muito bem.
“Ele entende muito bem os mecanismos da imprensa e jogou com essa habilidade. Ele é esse personagem, a mídia não o inventou. De certa maneira, é um dos meios que projeta sua imagem, mas uma imagem que depende dele. Inclusive há muitas visões críticas a ele. Não só recebe visibilidade dos meios de comunicação, mas também leva muita pancada”, diz Fellet.
Para Jack Shafer, analista de mídia do Político , “para cada coisa feia ou ameaçadora que Trump já disse sobre a imprensa, ele ficou para trás dez vezes. Se esta é uma guerra, certamente tem sido assimétrica, com Trump atirando pedras e a imprensa lançando mísseis” – ao listar que alguns jornalistas já o taxaram, inclusive, de fascista. “Não diria que existe uma ‘guerra’. Existe uma cobertura mais crítica, investigando seu passado, trazendo episódios à tona. Não vejo como esses jornais possam ter cruzado a linha”, opina Fellet.
De forma retórica, o estudo de Harvard questiona: “qual foi o fascínio de Trump para a imprensa? Como resposta, adianta: “os jornalistas são atraídos ao novo, ao incomum, ao sensacional – o tipo de material de reportagem que conquista e segura a atenção da audiência.”
HOLOFOTES
Como lembra a jornalista Dagmar Trindade, consultora para a Showt, empresa global especializada em comunicação e mídia, tendo passado também pela TV Globo e Bloomberg, no livro “Trump - The Art of the Deal” (“A Arte da Negociação”), o empresário afirmou que “uma coisa que aprendeu é que a imprensa tem fome de uma boa história e quanto mais sensacionalista, melhor. Se você é um pouco diferente, um pouco chocante ou se faz coisas um pouco ousadas ou polêmicas, a imprensa vai escrever sobre você”.
“Apesar de muitos críticos culparem a fome da mídia por cliques, audiência e lucro como a responsável pelo fenômeno Trump, ele, por seu lado, mantém o apetite do público aguçado com conteúdo polêmico e muito drama – parte da sua estratégia. Outras prováveis teorias para a ascensão do 'Trumpismo' seria racismo e uma reação ao politicamente correto”, acredita Dagmar.
De acordo com Renan de Souza, editor de internacional do SBT Brasil, o magnata estampa tantas manchetes justamente por ser tão díspar do que estamos acostumados em corridas presidenciais norte-americanas. “Os meios de comunicação precisam vender o seu produto, a notícia, e Donald Trump funcionou como o garoto propaganda, infelizmente. Ele é, literalmente, um filho da mídia e nasceu sob os holofotes de um certo espetáculo noticioso”.
Segundo Dagmar, o político usa a imprensa tradicional e a mídia social como nenhum outro candidato. Só no primeiro trimestre deste ano, artigos sobre ele foram compartilhados 211 milhões de vezes – mais do que qualquer outro candidato, segundo dados do Internacional Center for Media and the Public Agenda (ICMPA). No Twitter, o empresário possui 10,4 milhões de seguidores, mais do que os 7,95 milhões de Hillary Clinton, sua concorrente democrata.
Citando o comentarista Van Jones, da CNN, candidatos que souberam usar novas tecnologias de comunicação saíram vitoriosos em corridas presidenciais dos Estados Unidos. Franklin Delano Roosevelt com o rádio, John Fitzgerald Kennedy com a televisão e Barack Obama com a internet. “Jones especula que o eficiente uso da mídia social por Trump poderia levá-lo a Casa Branca”, diz Dagmar.
Caso isso se concretize, Souza não acredita em grandes riscos à imprensa ou uma possível temporada de caça às bruxas. Para ele, os Estados Unidos são uma democracia extremamente sólida e que preza pela liberdade de expressão. “Mesmo que Trump quisesse tomar alguma atitude mais radical, teria conselheiros que, provavelmente, o desaconselhariam, teria que enfrentar o congresso americano, a opinião pública e possíveis críticas da comunidade internacional”.
Crédito:Media Tenor, January 1-December 31, 2015. Cobertura positiva ou neutra sobre Trump em oito veículos