Ao Soró, com todo o meu amor

Ao Soró, com todo o meu amor

Atualizado em 27/10/2010 às 18:10, por Silvia Dutra.

Vejo num jornal do Brasil que a socióloga Tânia de Oliveira ganhou na Justiça, ainda que temporariamente, o direito de manter em seu poder o papagaio Soró, que já vive com a família há 26 anos, sabe o nome de todos da casa, fala frases inteiras e é considerado um membro da família. A decisão da juíza federal Tânia Lika Takeuchi ainda pode ser contestada pelo orgão que teoricamente deveria garantir o bem estar e a sobrevivência dos animais nativos do Brasil, o IBAMA.
O IBAMA sabia desde 2002 que Soró vivia com os Oliveira, porque Tânia obedeceu a uma lei daquela época e pediu autorização para mantê-lo em seu poder, o que já acontecia desde 1997, quando a socióloga herdou o papagaio. No mês passado o IBAMA determinou que Soró deveria ser entregue às autoridades porque novas normas não permitem mais a criação dessa espécie em cativeiro. Tânia não teve dúvidas: entrou na Justiça para salvar a vida da ave.
O advogado Mauro Russo, que pegou o caso, disse que no documento do IBAMA Soró deveria ser entregue para "ser sacrificado, se doente, ou entregue à natureza, sendo sadio". Como Soró tem epilepsia e vive numa gaiola toda forrada para evitar que se machuque quando tem as convulsões, entregá-lo às autoridades seria uma sentença de morte. E uma crueldade com Tânia e seus familiares, que realmente amam o animal, o que não parece ser o caso dos burocratas do IBAMA.
Que uma coisa fique bem clara aqui: não estou defendendo a criação em cativeiro de animais silvestres. Tenho um ódio visceral de caçadores e traficantes de animais. Sou totalmente contrária à existência de canis e lojas especializadas em venda de animais, quando há tantos abrigos lotados com animais abandonados, precisando de adoção e cuidados. Abrigos esses, diga-se de passagem, que não recebem ajuda de nenhum orgão, de nenhuma esfera governamental, incluindo aí até o IBAMA.
Recentemente fiz uma matéria sobre o Santuário Rancho dos Gnomos, de Cotia. A proprietária da entidade, Silvia Pompeu, me disse que recebe regularmente animais apreendidos pelo IBAMA, mas que as despesas com os cuidados veterinários e a alimentação desses bichos ficam inteiramente por conta do Santuário, que é o primeiro estabelecimento do gênero no Brasil. Não é um zoológico, não é aberto à visitação pública. É um refúgio para aqueles animais vítimas de traficantes ou da destruição ambiental que eventualmente são resgastados pelo IBAMA. Quando é possível, o animal é reintegrado ao seu habitat natural. O Santuário, assim como todos os abrigos de animais abandonados, luta com grande dificuldade para equilibrar as finanças e sobrevive com doações de pessoas e empresas comprometidas com a causa animal e da preservação ambiental.
Acho que o IBAMA é importante e que é necessário haver um orgão que proteja animais vítimas de crueldade, tráfico e comércio ilegal. Mas nesse caso do Soró, em que o animal é doente e vive com a família há tantos anos, está totalmente domesticado, sem condições de ser reintroduzido em seu habitat natural com chances de sobrevivência, francamente, levar a lei ao pé da letra é de uma estupidez brutal. O burocrata lá do IBAMA que assinou a ordem para retirar Soró do convívio dessa família deveria ter vergonha do que fez. E ao invés de lidar só com papéis, normas e decretos deveria aprender mais sobre essa triste realidade, visitando abrigos de animais abandonados e o Santuário de Cotia, que inclusive dá palestras sobre essas questões e tem por lema promover a paz e a harmonia entre todos os seres do planeta.
Há mais de 5 anos sou voluntária num abrigo de animais daqui de Fort Lauderdale -- Humane Society of Broward County -- e conheço em detalhes os horrores desse comércio sujo de compra e venda de animais, tanto os silvestres quanto os domésticos, como cães e gatos. Por conta desse trabalho já vi muitas atrocidades e abusos cometidos contra os bichos pelos que se dizem "racionais". Sou completamente apaixonada pela causa animal. Para ser brutalmente honesta, prefiro a companhia de meus cães à de certas pessoas.
Sei -- por conta do meu trabalho como voluntária e também porque desde muito pequena sempre convivi com animais -- que eles são criaturas que pensam e sentem, exatamente como nós, humanos. Sonham, amam, tem suas manias, preferências, esquisitices. Raciocinam, se comunicam, demonstram possuir noções de moralidade (vergonha, orgulho, solidariedade), são capazes de perceber situações de perigo ou emergências e as vezes até agem com grande eficiência. Também sentem saudades, ficam tristes, deprimidos, ansiosos, são criaturas muito mais complexas e interessantes do que muitos humanos. Especialmente burocratas, essa raça que eu abomino e do que nunca fiz segredo para ninguém.
Para não perder a mania,vou contar uma história. Lá no abrigo onde sou voluntária vive uma ave, uma cacatua chamada Oscar. Apesar do nome, é fêmea. Ela vivia numa casa em Miami com outros cães e gatos. Quando o proprietário da casa morreu, a entidade foi chamada para recolher os animais. Ninguém sabia o que fazer com Oscar, mas a trouxeram para o abrigo, achando que seria por pouco tempo. Ela tem uma doença auto-imune que afeta as penas e o bico e ninguém esperava que ela fosse viver muito tempo, porque o stress da morte do dono e da mudança para o novo ambiente provavelmente seria fatal. Esse foi, na época, o prognóstico dos veterinários: seis meses de vida, no máximo.
Reprodução
Oscar

Acontece que Oscar recebeu tantos mimos e atenção no abrigo que virou a mascote da HSBC. E já vive lá há 16 anos. É feia de doer. Por conta da doença, já perdeu todas as penas, parece um frango depenado, mas é um animal apaixonante, com uma personalidade maravilhosa, alegre, brincalhona, inteligentíssima. Vive numa gaiola aberta, ao lado da sala onde são feitas as cirurgias para a castração dos animais adotados, fala algumas frases e tem a mania de passear pelos corredores, numa atitude de supervisora, para ter certeza de que tudo está como deveria. Até imita o Mick Jagger, dançando. É uma graça.
Oscar é presença garantida em todos os eventos da entidade e já foi matéria nos jornais e emissoras de televisão do Sul da Flórida. Ela é a prova viva de que o afeto e a alegria fazem a vida valer a pena, curam e salvam. Não só os animais, mas os humanos que se propõem a amar e a cuidar deles. Há vídeos dela no You Tube e até um livro já foi escrito baseado em sua vida.
Então a coluna de hoje é minha declaração pública de amor e de solidariedade irrestrita ao Soró, à socióloga Tânia Oliveira, ao advogado que pegou o caso e especialmente à juíza federal Tânia Lika Takeuchi, que demonstrou sensibilidade, bom senso e compaixão com a ave e com a família.
Meus sinceros parabéns à Tânia Oliveira e a todos aqueles que tem coragem de empenhar tempo e dinheiro para acionar a Justiça -- que é outro reduto de burocratas no qual as papagaiadas acontecem frequentemente -- e lutar contra disparates como esse cometido pelo IBAMA. Que, não nos esqueçamos, é mantido com impostos pagos por nós, cidadãos.
Torço para que o "caso Soró" faça o IBAMA repensar suas práticas. Que se façam as leis. Que se apliquem as leis. Que os traficantes e aqueles que compram e revendem animais silvestres sejam severamente punidos, porque todos sentam em lados opostos dessa gangorra nojenta e os primeiros só existem porque os demais aceitam participar desse jogo sórdido. Mas que, na aplicação das leis, também se leve em consideração as particularidades de cada caso. E que o bem estar físico, mental e emocional dos animais seja um valor absoluto, indiscutível, respeitado acima de leis e decretos que mudam de tempos em tempos, ao sabor dos ventos políticos e dos burocratas de plantão.