Anti-furo: O bêbado e o jornalista

Anti-furo: O bêbado e o jornalista

Atualizado em 12/12/2005 às 15:12, por Thaís Naldoni.

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Vladimir Poleto disse à Veja que o PT recebeu dólares cubanos. Depois recuou: na CPI, afirmou que estava bêbado e que não se lembrava do que teria dito e também que havia sido coagido para dar as declarações. O caso provocou uma ressaca ética no jornalismo: palavra de bêbado tem dono?

Se beber, não dê entrevista. Se der entrevista, não beba. Desde quando depôs na CPI, o ex-assessor de Antonio Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto, Vladimir Poleto, adaptou a tradicional peça publicitária do Ministério da Saúde e a transformou em peça de defesa.

Pressionado pelos parlamentares e falando ao vivo para todo país, Poleto colocou na cachaça - a vulga "marvada pinga" - a culpa pelas declarações que deu para Veja , em que falou longamente sobre remessas ilegais de dinheiro de Cuba para a campanha de Lula. Por ironia, os dólares teriam viajado em caixas de bebida.

A matéria, assinada pelo jornalista Policarpo Jr. (o mesmo que detonou a crise ao mostrar as cenas de um funcionário dos Correios recebendo propina), incendiou o noticiário e o Congresso Nacional. Segundo a reportagem, o dinheiro teria sido trazido de Cuba a Campinas e dali teria seguido a São Paulo. Na condição de fonte central da matéria, o economista Vladimir Poleto, em depoimento à CPI dos Bingos, em 7 de novembro, não só desmentiu o teor da entrevista, como alegou não se lembrar de nada do que havia dito. "Após tanto chope, sendo que eu havia começado a beber à tarde aquela cachacinha, minha capacidade de discernimento estava comprometida. Não me recordo se fiz a declaração. Se fiz, foi mentirosa", disse. Ao que parece, na CPI, Poleto estava sóbrio.

Durante seu depoimento, o economista tentou - a todo custo - desqualificar o repórter de Veja , alegando que a entrevista foi feita sob ameaça e coação, e publicada sem a sua autorização. Uma cópia da gravação, porém, foi ouvida pelos membros da CPI, que não identificaram indícios de embriaguez. Fica no ar a pergunta: será que todo bêbado fala embaralhando as palavras? Entre os jornalistas, outra pergunta pairou pelos corredores de Brasília: entrevista com um bêbado vale ou não vale como base de uma matéria?

Leia matéria completa na edição 208 (dezembro/2005) da revista Imprensa