Ana Paula Padrão conta os bastidores da viagem à Coréia do Norte

Ana Paula Padrão conta os bastidores da viagem à Coréia do Norte

Atualizado em 07/11/2005 às 13:11, por Denise Moraes | Redação Portal Imprensa.

"Nós começamos a tentar contato em fevereiro e conseguimos ir para lá em outubro. Foi super-rápido", diz uma animada Ana Paula sobre os oito meses de negociação que culminaram com a viagem que rendeu uma série de reportagens no "SBT Brasil" sobre a fechada Coréia do Norte.

Na verdade, "fechada" é força de expressão. Enclausurada talvez fosse o termo mais correto. O otimismo de Ana Paula em relação ao tempo de negociação ocorre justamente por isso. Durante a viagem, em uma das poucas vezes que conseguiu estabelecer uma conversa com alguém que não fosse os quatro guias que a acompanhavam, ela conheceu uma jornalista de um periódico francês, que trabalhava em Pequim. Esta mulher também fazia reportagens sobre a Coréia do Norte. Tempo que ela esperou para conseguir o visto para o país: cinco anos.

A equipe do "SBT Brasil", formada por Ana Paula, a editora Mônica Gugliano e o cinegrafista Edílson Rizzo, foi a primeira equipe jornalística brasileira a entrar no país conhecido como "o mais fechado do mundo", segundo relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras, para realizar reportagens. Antes deles, apenas o jornalista Marcelo Abreu havia visitado o país e, ainda assim, como turista.

"Eles só permitem a entrada de jornalistas no país em época de festa, como aconteceu conosco: a festa que cobrimos era a comemoração dos sessenta anos do Partido Trabalhador da Coréia, o PTC, que acontece no mesmo dia do Aryrang, uma festa tradicional da população coreana", explica a jornalista. Nessas circunstâncias, segundo Ana Paula, a cidade é "maquiada" para a recepção de turistas, em um cenário sob encomenda para impressionar os visitantes. "Em Pyongyang ( capital do país ), sabe-se que a população não tem carro. Aliás, só os representantes do governo possuem automóveis. Então, para não deixar as ruas vazia e causar má-impressão, eles as enchem com esses carros circulando o dia todo, só para a gente ver", diz.

A jornalista se surpreendeu ao ter seu passaporte e sua passagem de volta confiscados logo quando eles chegaram ao país, como foi mostrado na série exibida pelo "SBT Brasil". No entanto, atrás das câmeras, a situação era ainda mais tensa. "Eu reclamei quando prenderam meu passaporte... Na verdade, eu reclamei o tempo inteiro, porque a gente queria falar com alguém e não podia, queríamos visitar um supermercado, e não podia. Então, eu reclamava mesmo. Perguntava: "o que é que tem lá que a gente não pode ver?". O clima entre a equipe e os guias foi tenso o tempo todo", revela Ana Paula.

O auge dessa tensão se deu durante uma passagem que ela gravava para uma matéria. Ana Paula estava em uma praça que havia sido destruída e novamente reconstruída segundo os padrões urbanísticos soviéticos. Ela explicava isso durante a gravação, até que os guias ouviram a palavra "soviético". "Todos os guias que nos acompanhavam falavam espanhol fluentemente, então entenderam quando eu falei a palavra "soviético" e ficaram possessos. Disseram que eu não tinha que sequer mencionar a União Soviética, que a arquitetura daquela praça não era soviética, e sim coreana. E quiseram que o cinegrafista entregasse a fita a eles", conta.

Neste momento, segundo a jornalista, "o pau quebrou". "Comecei a discutir rispidamente com eles. Informei que era cidadã brasileira e que eles não iam reter a fita, afinal, e isso eu deixei claro, eu não fui até lá para fazer propaganda do regime deles. E falei isso brava, botando o dedo no nariz do cara", diz. A solução encontrada pelos guias foi pedir que a passagem fosse apagada da fita, o que Edílson, o cinegrafista fez. No entanto, duas passagens haviam sido gravadas; ele apagou apenas uma. A outra é a que pôde ser vista no terceiro dia da série de reportagens.

Mesmo com toda a vigilância em cima da equipe, Ana Paula explicou que nenhum outro material foi censurado. "Bem que eles tentaram... Eles sugeriram que gostariam de ver o material, mas nós dissemos que não, que no Brasil a prática não era essa e fechamos a cara. Então eles não insistiram mais", lembra.

Em meio a tantas reclamações, ela reconheceu que o profissionalismo dos guias que acompanharam a equipe do SBT é algo a ser comentado: "Lá, a gente quebrava o pau e logo em seguida eles estavam agindo normalmente, como se nada tivesse acontecido. Depois do episódio da praça, por exemplo, cinco minutos depois eles estavam nos levando para almoçar, na maior naturalidade. E a gente com aquela tromba imensa, todo mundo louco da vida". Na opinião da jornalista, toda essa frieza provém da própria educação recebida pelos coreanos desde a mais tenra infância, quando eles são "treinados" a não demonstrar emoção. Nenhuma emoção. "Quando se está lá, você perde a noção do que é uma manifestação honesta, porque lá, tudo o que a gente vê é treinamento"

Mesmo com toda a bagagem jornalística, Ana Paula admite que ficou impressionada com o país: "nunca vi nada como a Coréia do Norte. E olha que eu já visitei países do leste europeu, Cuba... Nenhum se compara", lamenta. Ela ficou particularmente horrorizada com a apatia da população, que parece o tempo todo indiferente à situação de miséria e pressão em que vive. "Como lá não há informação e existe cerceamento a qualquer tipo de pensamento crítico, as pessoas não aprendem a pensar por si mesmas e se tornam apáticas. É assim que a gente vê como a informação é importante e a falta que ela faz", comenta.

No entanto, ela acredita que esse cenário tende a mudar rapidamente. O estado da Coréia do Norte está falido há tempos, e o governo já tem tentado uma reaproximação com a Coréia do Sul. Hoje se vê com simpatia a reunificação das duas coréias, algo impensável uma década atrás. O fato é que Kim Jong Il, sucessor de Kim Il Sung, está, literalmente, vendo o povo coreano definhar e sabe que será necessário pedir ajuda para evitar que o país afunde. "Essa ameaça que a Coréia vive fazendo sobre os reatores nucleares, a meu ver, é mais uma forma de chantagem. É a forma que eles encontraram para pedir ajuda. Através de ameaças", diz Ana Paula.

Fora as chantagens, o governo norte-coreano já tem feito vista-grossa a várias atitudes, como aceitar pagamento em dólar e outras moedas, que não o won norte-coreano. Novos tempos para um estado que tende a se abrir à economia capitalista, sob pena de se extinguir, se não o fizer.

Ana Paula tem certeza de que essa abertura ocorrerá rapidamente e não vê a hora de voltar ao país quando houver um pouco mais de democracia, para comparar com as lembranças que teve de sua primeira viagem. "Essa é a grande vantagem do jornalismo: a gente vê a história acontecer", diz.