Semeador de Sutilezas
lembrança e saudade dos amigos e para o deleite das futuras gerações
Crédito:Arquivo pessoal Paulo Caruso Árvore desenhada por Millôr Um banquinho no ponto mais alto da Pedra da Gávea para que as pessoas pudessem se sentar e apreciar o pôr do sol. Avesso às pomposas homenagens, Millôr Fernandes dizia às pessoas mais próximas que essa seria a melhor forma de o lembrar. O amor pelo Rio de Janeiro (RJ), mais precisamente pelo bairro de Ipanema, era conhecido e declarado. Dessa forma, após a partida do artista – que de tão completo fica difícil de o definir com uma carreira só –, em 27 de março último, seus amigos pretendem realizar tal vontade, e mais: a atriz Fernanda Montenegro enviou uma carta ao prefeito da cidade, Eduardo Paes, em nome de diversos intelectuais, solicitando que o largo situado em frente ao estúdio do artista, na rua Gomes Freire, seja rebatizado com o nome de Millôr.
A homenagem singela, mas marcante, lembra uma das principais características da vida e da obra de Millôr, a sutileza. “Todo tempo de grande opressão é tempo de grandes sutilezas”, escreveu em 1972 em meio a um período austero, em que a liberdade de imprensa ainda não tinha sido conquistada. Ali, nas pequenas sutilezas, o artista mostrava sua genialidade.
Paulo Caruso conta uma história que mostra como o amigo podia ser surpreendente. Segundo ele, no estúdio de Millôr, em Ipanema, sempre havia pregada atrás da porta uma folha de papel Schoeller, de grande dimensão, especial para trabalhos em artes gráficas. De tempos em tempos, o artista apanhava o papel, levava para a prancheta e rabiscava inúmeras folhas, de variadas cores e espessuras. “Passado um tempo, a árvore estava exuberante”, diz
Múltiplo, tal e qual as folhas que desenhava em suas árvores personalizadas, o batizado Milton Viola Fernandes foi reconhecido em vida como jornalista, escritor, humorista, ilustrador, dramaturgo, tradutor, ambientalista, letrista. A lista é longa e chega até a inventor do frescobol, feito que, para ele, era motivo de grande orgulho. O profissional se preocupava em tratar com a mesma dedicação todos os seus afazeres, já que sentia intenso prazer no trabalho. Refutava a pecha de “famoso” e se encantava por ser “notório”, ou seja, queria o reconhecimento pelo trabalho que plantava.
*Com Jéssica Oliveira
Leia a matéria completa na edição de maio (278) de IMPRENSA.

