Abaixo à baixaria - Por Débora Nogueira / PUC Campinas

Abaixo à baixaria - Por Débora Nogueira / PUC Campinas

Atualizado em 18/04/2005 às 11:04, por Débora Nogueira e  aluna do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica Campinas.

Por Débora Nogueira, aluna do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica Campinas

Ongs e parlamentares se unem contra a má qualidade da programação televisiva brasileira

Alou? Alou? Não tem ninguém na linha? Tá no ponto? Não tá no ponto ainda... Mas eu queria aproveitar a oportunidade para agradecer. Agradecer ao papai e mamãe, ao vovô e à vovó, às crianças - que são o futuro do nosso país- e à juventude- que está perdida. Porque é graças a você, graças a você! Que eu tenho mais de 100% da audiência nacional! Por gentileza, dá um close aqui: pode ver: O Show do Estupra? 100%! Agora a concorrência: Show do Assassino? É traço. Show do Ladrão? É traço!! Show do fascista? Traço!! Traço!! Traço!! Só o Show do Estupra tem 100% da audiência nacional!!! Muito obrigado... Deus ilumine todos vocês...

Este trecho foi extraído da peça "Regurgitofagia" de Michel Melamed. O quadro é chamado "Show do Estupra". Certamente ao ler a situação acima o leitor deve ter se lembrado de algum programa da televisão brasileira. Isso acontece porque qualquer brasileiro com televisão em casa já foi certamente exposto a conteúdos violentos, sensuais ou sexuais e que não acrescentam nada culturalmente. Não vamos comentar aqui sobre como este tipo de programação é controlado em outros países. O fato é que o Brasil vive hoje uma situação em que a programação é cada vez mais baseada em fatores mercadológicos, e acaba sendo sujeita a concorrência com outros programas de baixa qualidade. Pensando nisso, diversos grupos têm se unido para pressionar as emissoras para que essas melhorem o nível de programação e para que anunciantes deixem de patrocinar esses tipos de programas televisivos.

Uma das frentes pela melhoria na qualidade de programação é a campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania", da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. A campanha existe há mais de dois anos. O presidente da Comissão, deputado Orlando Fantazzini (PT-SP), explica como definir os programas que podem ser considerados de baixaria. "Nós temos um critério muito objetivo. Baixaria é toda afronta aos princípios da Constituição Federal. Da legislação ordinária às convenções internacionais. Se você estimular o preconceito racial, você está cometendo uma baixaria. Disseminar preconceito de gênero, étnico, apologia ao crime, sexualidade precoce, tudo isso é considerado uma baixaria."

E a mentira? Será que não é também uma baixaria? No dia 7 de setembro de 2003 o Programa Domingo Legal exibiu uma falsa entrevista com membros do PCC (facção Primeiro Comando da Capital). Além de usar do sensacionalismo, promoveu uma mentira como se fosse uma atração qualquer. Os produtores montaram o ambiente, contrataram atores, escreveram o texto. Esse episódio repercutiu na imagem do apresentador Gugu Liberato e em ações contra o Programa, que qualificavam o caso como um afronta aos direitos humanos. Mas será que o caso serviu para alertar as outras emissoras que a qualidade da programação deveria ser repensada?

O professor de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da USP-SP, Laurindo Leal Filho dissertou em recente entrevista ao programa Sintonia da TV Câmara sobre a qualidade da programação da televisão brasileira. "Não adianta falar: muda de canal. De certa forma, a programação é a mesma em todos os canais. Só muda o apresentador. Não há democracia, direito de escolha. Se houvesse um canal com baixa qualidade e outro passando um bom documentário, seria outra situação. E não concordo com a idéia de desligar a televisão. Não basta desligar a TV. É um serviço público. Desligar a TV é abrir mão de um direito."

Laurindo Leal Filho é especialista em estudos sobre televisão e sociedade, e é fundador da ong TVer. Criada em 1997, a organização é outra frente da luta contra a baixaria na televisão. O Superior Tribunal de Justiça, em última instância, obrigou recentemente o programa do Ratinho a deixar de usar crianças defeituosas a partir de uma iniciativa da TVer.

Panorama- A cada 4 meses, a campanha Quem financia a Baixaria é Contra a Cidadania publica um ranking com base nas denúncias dos telespectadores, por telefone (0800-619-619) ou pela internet. Os programas que estão em quase todos os rankings são: novelas, Domingão do Faustão, Márcia Goldschimdt, Ratinho, e João Kleber. "Nós temos consciência de que há um cansaço do público quanto à este tipo de programa. Os programas do ranking não têm compromisso com o aspecto educativo-cultural nem com a formação de consciências. Eles buscam através da ridicularização da desgraça e da miséria do ser humano, segurar a audiência", afirma o deputado federal Orlando Fantazzini. "Quer mais matéria-prima que a miséria e a desgraça do povo brasileiro? Por que eles vão fazer investimentos em programas educativos enquanto podem utilizar essa farta matéria-prima para ridicularizar e espetacularizar? Dessa forma eles conseguem unir entretenimento e audiência, e isso está cômodo para eles", completa o deputado. Quando perguntado o porquê desses programas terem sucesso Fantazzini é pontual. "O IBOPE trabalha em função do mercado e das emissoras de televisão. Obviamente eles procuram maquiar o panorama para mostrar que a população está satisfeita com a qualidade da televisão brasileira."

Propostas-
Por muitas vezes esses movimentos a favor da melhoria na qualidade da programação tentou convencer as emissoras a fazer um acordo para manter o nível educativo-cultural no conteúdo. Orlando Fantazzini afirma que não há interesse da parte delas. "Todas as emissoras justificam a programação com base nas outras. Elas afirmam que baixam o nível por causa da concorrência, mas ninguém quer firmar um pacto de qualidade. Nenhuma delas tem interesse em assinar um pacto para tirar a baixaria da televisão."

No site da ong TVer (www.tver.com.br) assim como no da campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania" (www.eticanatv.org.br) é possível encontrar diversos textos que servem como manifesto contra a programação de baixa qualidade na televisão brasileira.
Em um dos textos do site da TVer, reproduzido a partir da Agência Carta Maior é publicada uma pesquisa realizada com pais de crianças e jovens com idades entre 4 e 17 anos, em São Paulo. A pesquisa foi publicada em 2005. A intenção era identificar as características essenciais para garantir a qualidade dos programas de TV. Para os pais, os programas deveriam ser atraentes, ter música, ação, competições, movimento e humor. Deveriam também, ter algum tipo de identificação com a realidade do jovem e da criança. Para esses pais, é importante que eles vejam suas dúvidas, confrontos e anseios sendo discutidos na televisão e que extraiam daí algum ensinamento. Além disso, os adultos afirmaram que mais do que transmitir informação, um programa de qualidade deveria despertar a curiosidade da criança e o gosto pelo saber.
O estudo apontou outros paradigmas. Pôde ser percebido que os pais de famílias de classe C atribuem um papel muito grande à TV na formação de seus filhos. A psicóloga Lourdes Mara Costa Silveira, em sua dissertação de mestrado pesquisou a representação social das crianças de escolas públicas sobre a idéia do meio ambiente. Na pesquisa ela pôde perceber que a maior parte das crianças tinham uma idéia sobre o assunto formada a partir da televisão. E ela confirma que do mesmo jeito que a representação social das crianças acerca do meio ambiente foi formada majoritariamente pela mídia, pode existir essa influência na formação dos modelos em outros assuntos da vida em geral. "As crianças, principalmente, estão expostas muitas horas por dia à televisão. Muito mais que um adulto que tenha vida profissional ativa, que trabalhe. E além da TV as crianças têm acesso à internet." Na época em que Lourdes Mara fez a dissertação de mestrado (defendida em 1997) ficou provado a partir de sua pesquisa que a televisão era responsável por 60% da representação social das crianças acerca do meio ambiente. Esses pais que passam o dia trabalhando esperam que os filhos estejam em boa companhia da televisão enquanto estiverem sozinhos.

O estudo deixa claro que os pais, principalmente os de família de classe C, atribuem à televisão um papel muito grande na formação de seus filhos. Por isso, querem que eles assistam a programas que confirmem os valores morais que ensinam dentro de casa, como respeito ao próximo e solidariedade. Querem, também, que a TV não mostre um mundo que não existe ou que falseie a realidade. Sobre este assunto Lourdes Mara Costa Silveira é pontual em sua dissertação. "A TV mostra uma visão de mundo que não é a única mas que é passada como tal." Os pais procuram também neste veículo, que ele sirva como uma forma de diálogo com os pais. "Hoje, as famílias não se encontram para jantar e conversar sobre as alegrias do dia. Cada um faz a refeição no seu horário e quando se encontram, é em frente à televisão, mas cada um assiste de forma individual, explica Lourdes Mara."
Quando questionada sobre se a qualidade dos programas da televisão brasileira pode afetar a formação da visão de mundo das crianças e do adolescente, a psicóloga pondera. "Esses programas ajudam a perpetuar de certa forma a cultura do vazio, mas tudo depende como os pais e professores, ou quem for responsável pela educação, tratam desses temas com as crianças. Tudo depende da leitura crítica que é passada na formação."

Links contra a baixaria
www.eticanatv.org.br/
telefone da campanha: 0800619619
www.midiativa.tv
www.tver.com.br