"A vida toda fiz o que gosto: escrever e contar histórias", diz Ignácio de Loyola Brandão
- Alô? É da rádio Ocara FM? - É, sim. Jean Jardim falando. Quem fala? - Oi. Aqui é da revista IMPRENSA, me chamo Jéssica. Tudo bem? - Tudo
Atualizado em 16/12/2015 às 11:12, por
Jéssica Oliveira.
- Alô? É da rádio Ocara FM? - É, sim. Jean Jardim falando. Quem fala? - Oi. Aqui é da revista IMPRENSA, me chamo Jéssica. Tudo bem? - Tudo e você? Diga. - Por favor, veja se o senhor pode me ajudar. Procuro duas senhoras que moram em Ocara. Uma delas chama Mazé Bandeira. O senhor conhece ou sabe quem poderia conhecê-la? - Conheço, claro. Ela é minha vizinha. - ... 17 de novembro de 2015. Em Ocara, era o último dia do radialista Jean Jardim na emissora de rádio. Em são Paulo, era véspera da entrega final da edição 318 de IMPRENSA, e o perfil do escritor Ignácio de Loyola Brandão estava atrasado há mais de uma semana. Fazia exatos 33 dias que a reportagem procurava as ocarenses Maria José Bandeira, a Mazé, de 75 anos, e Maria Madalena Rodrigues, a Madalena, de 65 anos.
Quando falou à IMPRENSA em outubro, Loyola narrou o encontro com elas em 2006 em Ocara (CE) durante evento paralelo à 7ª Bienal de Fortaleza. Distante 85 km da capital, a cidade do sertão cearense tem pouco mais de 25 mil habitantes e vive basicamente de caju e mel. Primeiro escritor a visitar a comunidade, o araraquarense foi recebido no Centro Sócio Cultural de Jovens da Vila São Marcos por professores, estudantes e famílias, e saiu de lá marcado com o que viu e ouviu.
Crédito:Alf Ribeiro O escritor Ignácio de Loyola Brandão durante entrevista em sua casa em São Paulo
“Perguntei como ele colocava as letrinhas no livro, se tinha uma máquina que ajudava igual a que uso ‘pra’ plantar sementes”, lembrou-se Mazé. “Eu falei ‘pra’ ele que a coisa que eu mais tinha vontade era aprender ler e escrever”, recordou Madalena. Emocionado, o autor partiu com o eco delas na mente e um litro de mel puro feito pelos moradores. “Foi o melhor cachê da minha vida.”
O causo deu nome ao livro "O Mel de Ocara - Ler, Viajar, Comer" (Global Editora, 2013), que reúne histórias vivenciadas em suas viagens literárias pelo Brasil. Em cada destino, ao ver gente se desdobrando para fazer o país ler ou presenciar o despertar de um novo leitor, ele não resiste e comemora como quem acha um tesouro.
Crédito:Arquivo pessoal Auricélia Alves Auricélia Alves, Madalena e Mazé no reencontro em 2014
Um ano depois do livro, um programa de TV de Aquiraz (CE) promoveu em Fortaleza o reencontro do escritor e das senhoras, momento também guardado por elas com carinho. “Foi maravilhoso. Nunca pensei que iria encontrar com ele. Tenho vontade que ele venha aqui ‘pra’ eu dar um abraço e perguntar se ele tomou a cachaça com caju que eu levei”, conta Mazé. “Gostamos muito da conversa dele. Não esqueço dele não”, emenda Madalena.
Para encontrar as duas e promover no texto mais um reencontro entre eles, a reportagem ouviu dezenas de funcionários de programas de televisão e das secretarias de cultura e educação de várias cidades, ligou nas rádios de Ocara listadas no Google e mandou inbox no Facebook para pessoas com sobrenome “Bandeira” e “Mora em Ocara”.
Os funcionários públicos não eram mais os mesmos de 2006 ou eram mas não conheciam as senhoras nem sabiam como localizá-las; na TV a produtora do reencontro estava sempre ocupada; os telefones das rádios apenas chamavam ou não existiam; e no Facebook não houve respostas para a mensagem "Olá! Tudo bem? O senhor (a)/você parente da Mazé Bandeira? Poderia me colocar em contato com ela, por favor? [...] Obrigada." Crédito:Arquivo pessoal Auricélia Alves Presentes que as ocarenses levaram para Ignácio em 2014
Findo o derradeiro “follow” e prestes a mandar o texto sem o depoimento das senhoras, IMPRENSA fez a última pesquisa no Facebook, mas com os termos “rádio” e “Ocara”. Só teve um resultado: um perfil que não era atualizado desde 29 de abril de 2014 com um número de telefone na foto. Foi o que Jardim atendeu. "Naquele dia que tu ligou pra mim era meu último dia na rádio e eu não sabia. [...] Coloquei um currículo, fui chamado", contaria pelo WhatsApp quase um mês depois.
Logo que soube o motivo da ligação, Jean propôs ir até a casa de Mazé para viabilizar a entrevista no seu celular. No dia seguinte Mazé relembrou o momento que conheceu Loyola e indicou como ponte para chegar à Madalena, a também amiga Auricélia Alves, professora da rede municipal e funcionária da biblioteca pública que ajudou a organizar o evento em Ocara. “Liga na cultura. Procura Au-ri-cé-lia.” Crédito:Arquivo pessoal Jean Jardim O radialista Jean Jardim Solícita, Auricélia também se ofereceu para ajudar. Ela deu mais detalhes dos encontros de 2006 e 2014, buscou Madalena para falar pelo seu celular e comentou o que achou do autor. “Ele tem humildade e sensibilidade. É uma pessoa que não faz distinção. Ele estava ali tornando acessível esse saber, esse conhecimento. Foi muito marcante para nossa comunidade e para ele”, afirmou.
Depois das entrevistas, Jardim e Auricélia ajudaram com fotos e mais informações para o perfil. Já Mazé e Madalena contribuíram não apenas por lembrar aqueles dias mas abrirem o coração. As duas transpareceram a vontade de saber ler e escrever além dos próprios nomes, desejo que não foi realizado por causa das dificuldades da juventude no sertão e as de saúde da idade.
Crédito:Alf Ribeiro O escritor durante entrevista em sua casa em São Paulo
"Disse a ele que não sabia ler, que tinha inveja da pessoa que sabiam ler. Ele perguntou por que não prendi, disse que era o roçado. Ele disse que fazia pena isso. Eu disse que não tinha escola 'pra' estudar, que 'nóis era muito pobre'. O pouco que aprendia era debaixo do cajueiro", revelou Mazé.
Mas se o sonho está vivo (e mais forte) é em grande parte graças a Loyola. Ele faz questão de viajar por todos os brasis para despertar o amor pela leitura, de preferência à moda antiga: com olho no olho e em roda de conversa.
No seu repertório de 63 anos como jornalista e cinquenta como escritor, mais de quarenta livros, entre romances, contos, crônicas, viagens e infantis.
E para espalhar tudo isso vai como precisar. Navio, avião, ônibus, carroça, barco, carro de boi, submarino, o que tiver. Até de motocicleta, apesar do medo, tanque de guerra, onde entrou uma vez para fazer reportagem, e de foguete, quando tiver vaga para autor. Mas se puder vai de trem.
Filho do meio de três meninos do ferroviário Antonio Maria Brandão e da dona de casa Maria do Rosário Lopes Brandão, ele praticamente cresceu em trens. Não nasceu em um, mas teria adorado, como conta no “A Morena da Estação” (2011), livre de memórias afetivas dessa relação. “Meu pai adorava viajar, e eu tenho a mesma gana. Chamou, estou pronto. Quando criança queria janela, hoje só viajo no corredor.” Crédito:Alf Ribeiro O escritor durante entrevista em sua casa em São Paulo
E ele está pronto de novo. Embarca amanhã para Minas Gerais com a filha e cantora lírica Rita Gullo. Pai e filha fazemo shows juntos como parte do projeto que nasceu no livro “Solidão no fundo da agulha” (2013).
Ele conta memórias de sua vida ligadas a músicas, como “Amado Mio”, do filme “Gilda”, e “Estrela do mar”, de Dalva de Oliveira, e ela canta. Já passaram por Sescs, feiras literárias e centros culturais da periferia de São Paulo.
“A vida toda fiz o que gosto, que é escrever e contar histórias. E continuo fazendo", resume. Aos 79 anos, ele não vê acasos nem coincidências na vida. “As coisas são ligadas. Tem um ponto aqui, tem um ali, aí você faz shiiiii e vai ligando tudo”, explica, desenhando a linha no ar.
Talvez por isso continua escrevendo e contando histórias: construir pontes. É o seu jeito de produzir mel.
Leia o perfil "Lá vem o escritor" na edição 318 (dez/2015 e jan/2016) de IMPRENSA, disponível nas unidades da Livraria Cultura e no .






