A Raposa do Sol e os "raposões" da Terra
A Raposa do Sol e os "raposões" da Terra
O jornalismo brasileiro não toma jeito mesmo. Continua vulnerável a alegações oriundas de setores comprometidos com a expansão desordenada do agronegócio e sobretudo com uma visão equivocada, preconceituosa mesmo sobre os movimentos sociais e as minorias em nosso País.
Evidentemente, no capitalismo selvagem promovido por governos e corporações que sobrepõem seus interesses ao interesse público, as disputas por espaço, poder e grana são acirradas e cabe a todos nós, cidadãos, ficarmos atentos ao jogo dos lobbies, legítimos ou não (nesse último caso, nem seria razoável chamar de lobby para não ferir o conceito).
É o que aconteceu no embate recente travado por ocasião da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol em terra contínua, com a decisão do STF contemplando favoravelmente os indígenas.
É o que acontece regularmente com a demonização das ONGs (muitas merecem o nosso repúdio, porque não são ONGs autênticas, mas arremedos e mistificações), do movimento pela reforma agrária, dos ambientalistas, dos excluídos pelas barragens, dos quilombolas e assim por diante.
Uma parte significativa da elite brasileira - que costuma ter como referência a postura ética condenável da Daslu (deixemos o julgamento final para a Justiça), respaldada na burla continuada à legislação, se acha no direito de ver as minorias como ameaças à democracia (os grandes sonegadores, explicam os Tranchesi, não são uma ameaça à sociedade, mas os que roubam galinhas sim, não é verdade?).
Os ambientalistas? Ah, costumam dizer os ruralistas , as agroquímicas, mineradoras, empresas de papel e celulose (que prejuízo grande - bem feito! - teve a Aracruz com suas especulações, hein?), são um obstáculo para o progresso e não querem ver o país crescer (a visão de crescimento destes segmentos é estreita em comparação com a amplitude de sua ganância).
Os que lutam pela posse da terra (Deus me livre deles, dizem os latifundiários) são, segundo os jornalões que exibem o DNA dos barões de café, assassinos cruéis e mereciam ser crucificados em praça pública .Esquecem-se eles, porque lhes interessa, da brutal desigualdade promovida por este modelo econômico que lhes tem garantido benesses e privilégios desde os tempos coloniais e relegado populações inteiras ao abandono e à miséria.
Os quilombolas são a mesmo tempo tidos como párias, usurpadores de terras, como se não tivessem direito algum, inclusive o direito à reparação por séculos de escravidão e de preconceito.
Já os indígenas que vivem em áreas ainda pouco exploradas são escorraçados como forasteiros, muitas vezes, como os guaranis-caiuás do Mato Grosso do Sul, aprisionados em territórios tão exíguos que não conseguem sobreviver com dignidade. Felizmente, em alguns casos, como os da disputa com a Vale ou da Aracruz, a Justiça (que em alguns Estados parece menos justa) acabam tendo seus direitos reconhecidos, apesar da perseguição a que são submetidos.
A imprensa pouco investigativa (cada vez menos em virtude das estruturas enxutas das redações e da preguiça de repórteres sem fibra que preferem copiar releases e freqüentar coletivas) tem feito o jogo dos grandes interesses, assediada por agências de comunicação e assessorias de imprensa ao mesmo tempo tecnicamente competentes e pouco éticas (algumas se assemelham a advogados de porta de cadeia, como se diz no interior). Ela não hesita em ouvir fontes comprometidas (e capacitadas em programas de "media training") e em ignorar os pontos de vista das minorias, certamente porque para defendê-las raramente há porta-vozes de terno e gravata. Os jornais e jornalistas, com as exceções de praxe, se acostumaram ao discurso meloso (e ao mesmo tempo hipócrita e cínico) de fontes oficiais, empresariais e até mesmo sindicais (o peleguismo anda solto nesse país) e por isso descartam aquelas que são menos eloqüentes, não usam muitas expressões em língua estrangeira ou não são capazes de refinamentos lingüísticos.
A imprensa tem uma indiscutível má vontade com as fontes de origem popular, como os cidadãos que não têm currículo Lattes ou diplomas obtidos em universidades de prestígio, porque sofre da "síndrome do MBA", ou seja, julga competente apenas os discursos que se inspiram nos bancos da Academia, repletos de termos empolados mas vazios de conteúdo e de confiabilidade.
A mídia brasileira tem o péssimo hábito de reconhecer como legítimos (A Globo tem a desfaçatez de defender a tese de que os integrantes do BBB são a expressão do povo brasileiro) cidadãos confinados em uma casa repleta de câmeras e que se dispõem a toda sorte de procedimentos não éticos para ganhar um dinheiro ao final. Um espetáculo de gosto duvidoso, que dissemina posturas condenáveis - traições, futilidades, puxada de tapetes, estímulo ao sexo sem compromisso, etc - mas que dá uma grana enorme para a emissora que anda se proclamando socialmente responsável e, para tanto, veste a máscara hipócrita da "criança esperança".
A democracia da (e na) imprensa (a ANJ e a ABERT talvez imaginem que esta falta de compostura da mídia deve ser culpa dos cursos de jornalismo e da obrigatoriedade do diploma) passa por uma revisão completa do processo de produção jornalística, com a adesão à pluralidade de fontes e o incentivo ao debate democrático, o que não pode ser feito efetivamente realizado tendo em vista o caráter monopolístico dos meios de comunicação, entregues a deusas globais e a pretensos representantes da vontade divina.
O jornalismo que postulamos exige uma mudança drástica de paradigmas, onde projetos de mercado e publieditoriais (versões modernas das matérias pagas) não têm vez. Num novo modelo que se anseia, devem ser cultivados atributos indispensáveis como a ética profissional, o compromisso público e a capacidade e disposição para investigar.
Reconhecemos que a imprensa tem tido um papel importante em episódios como os que dizem respeito à Daslu e à Camargo Corrêa, mensalão, cartão corporativo, entre outros, mas sabemos que, mesmo nesses casos, ela tem sempre estado a reboque de outras instâncias. Na verdade, apesar das críticas freqüentes aos homens e mulheres de farda, ela tem sido pautada pelas diligências da Polícia Federal, o que evidencia sua reduzida capacidade de descobrir por conta própria as falcatruas, de colocar o dedo nas feridas, de investigar independentemente.
Uma imprensa que é refém de fontes oficiais ou que fica parada, boquiaberta, esperando um novo comunicado das autoridades policiais para sair a campo não vai muito longe.
Como sempre, as exceções confirmam a regra e há esperança de que novas iniciativas descoladas da grande imprensa (mídia ambiental autêntica, mídia sindical não pelega, blogs e portais independentes etc, newsletters de ONGs verdadeiras etc) possam manter a perspectiva crítica e impedir que mergulhemos num verdadeiro marasmo jornalístico.
Por sorte (até quando isso acontecerá?) ainda podemos ler Washington Novaes, no Estadão, Marcelo Leite, na Folha, e podemos assistir aos especiais do André Trigueiro, na Globo News, ou acessar muitos outros colegas que insistem em manter a guarda alta, mesmo convivendo muitas vezes em ambientes hostis ao debate plural.
A democracia se faz com todos, apesar das divergências e das diferenças: quilombolas, indígenas, mulheres da Vila Campesina, excluídos pelas barragens, agricultores familiares, latifundiários, as mulheres da Daspu e da Daslu e os receptores das doações generosas (mas que não existe almoço grátis, ah isso não existe mesmo!) de construtoras.
Saudemos a diversidade. A democracia não admite posturas transgênicas. Vamos construir um mundo diferente daquele que está no livro O mundo segundo a Monsanto? Vai dizer que você ainda não leu? O mês de abril tem dois feriados prolongados, aproveite.






