A invasão dos reality shows nos lares norte-americanos

A invasão dos reality shows nos lares norte-americanos

Atualizado em 12/08/2009 às 13:08, por Silvia Dutra.

A invasão dos reality shows nos lares norte-americanos

Eu não suporto reality shows na televisão, programas do tipo "Big Brother", que dão muita audiência e mobilizam a população. Há vários aqui na televisão americana, em vários formatos, para todos os tipos de público. Rapazes solteiros disputando uma "noiva",moças concorrendo para "ganhar" um marido, donas de casa vivendo uma semana em casas trocadas, cada uma experimentando a "realidade" da outra e tendo que lidar com problemas práticos do dia a dia: maridos, filhos,vizinhos, sogras, cunhadas e outros desafios.

Tem também reality shows sobre famílias de anões, famílias com sêxtuplos ou mais filhos gêmeos, famílias com filhos autistas ou com deficiências físicas ou mentais, famílias atoladas em bagunça em casas que mais parecem depósito de lixo e tranqueiras. Tem até reality show sobre evangélicos, ultraconservadores, que acreditam em Adão e Eva, na Arca de Noé, que Deus criou o mundo em 6 dias e descansou no sétimo e que, pasmem, os 18 filhos que tiveram foram presentes dos Céus e não tem nada a ver com sexo sem proteção.

Todos os filhos desse casal (Jim Bob e Michelle Duggar) têm nomes começados com a letra J (Jim, James, Jeremiah, Joyana, lembra aquele personagem do Chico Anysio, o Tim Tones). E a esposa tem o dom de me irritar profundamente porque ela é a calma em pessoa, tem uma voz doce e suave que jamais sobe de tom, mesmo quando aplica um corretivo numa das crianças. Além de fazer um bebê por ano, desde que se casou, Mrs. Duggar não permite televisão na casa e nunca mandou nenhum filho pra escola pública, para preservá-los das tentações e más influências desse mundo perdido. Ela mesma ensina a todos Inglês e Matemática e todo o currículum escolar exigido pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos, num sistema permitido aqui e chamado de "home school", ou "escola caseira" numa tradução bem livre.

Michelle Duggar é literalmente a "rainha do lar" e faz questão de manter a unidade familiar: o casal e toda a prole comem juntos, oram juntos, passeiam juntos num ônibus comprado pra acomodar todo mundo e já foram atração até no show da Oprah Winfrey, a Hebe americana. E como se não bastasse tanta perfeição, Michelle ainda ensina aos filhos trabalhos manuais e até música, com partituras. Muitos tocam violino e outros instrumentos para louvar ao Senhor. E ela está sempre com um sorriso plácido no rosto. Bem diferente de mim que só tive dois filhos e teve dias que, por pouco, não fiz minha mala e sumi de casa. Veja se não é para deixar qualquer mãe se sentindo um trapo de insignificância e incompetência?

Agora, tem um tipo de reality show que eu adoro porque me diverte. E que infelizmente não tem aí no Brasil, mas seria bom se tivesse. Nem que fosse pra desafogar e tornar mais ágil o nosso combalido sistema de Justiça. São os shows de juízes, dos tribunais de pequenas causas.

Há vários, também para todos os tipos de públicos: negros, hispânicos, gays, americanos "red necks" (caipiras), tem até programas específicos para casais que queiram se divorciar. No começo, logo que cheguei aos Estados Unidos, pensei que eram shows de televisão, pura ficção, visto que americanos adoram programas sobre crimes, advogados, detetives, juízes e coisas relacionadas à Justiça e aplicação correta das leis.

Depois descobri que não é ficção: os juízes são realmente representantes do Sistema Judiciário americano e os participantes são cidadãos comuns, com pendengas na Justiça cujo valor máximo não pode ultrapassar 5 mil dólares. Eles procuram esses shows e se submetem às regras para ter seus 5 minutos de fama, resolver mais rapidamente algum processo judicial de menor porte e, com sorte, ainda ganhar algum dinheiro.

Dentre os shows desse tipo meu favorito é o da Juíza Judith Sheindlin, ou mais conhecida como Juíza Judy, que é uma mulher arretada, brava, com uma personalidade muito peculiar. Desde 1996 o show dela é o campeão de audiência entre todos os outros similares, já foi indicado onze vezes para receber o prêmio Emmy como "Melhor Programa Diurno" e conseguiu para a juíza Judy uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, junto com astros do cinema e outras celebridades. Além de muito, muito dinheiro, do tipo que permitiu a ela comprar e manter um jato particular e outros luxos desse nível.

O slogan do programa da Judy já dá uma ideia do ritmo que ela imprime às coisas: "Nesse tribunal a Justiça chega na velocidade de um raio". Ela é ácida e intimidadora tanto com os litigantes quanto com o público que assiste ao show. Impaciente, detesta pessoas que a fazem perder tempo com detalhes insignificantes e vive gritando "Get to the point" ("me fale o que interessa"). Quando acha que uma queixa é infundada, desimportante e nem merecia ter sido trazida ao tribunal recomenda que o queixoso "cresça e amadureça". E bate o martelo, acabando com a pendenga.

De todas as suas características, a dureza e a tolerância zero com mentiras e incongruências são as que produzem os momentos mais hilariantes. Ela também explode em ira com litigantes ou testemunhas que falam fora da hora em que foram autorizados a emitir suas versões da história, ou com aqueles que resmungam ou tentam discutir com ela. São famosas suas frases: "Liar, liar, pants on fire" ("mentiroso, mentiroso, suas calças estão no fogo") e "Beauty fades, dumb is forever" ("a beleza desbota, a idiotice é eterna").

Aqueles americanos que queiram participar do show e tiverem coragem para enfrentar a Juíza Judy (confesso que eu teria medo) podem se inscrever no oficial do programa e contar resumidamente a natureza do problema legal que querem ver resolvido. Se o caso for considerado apropriado pelos produtores do show as duas (ou três, ou mais partes) serão convocadas a comparecer ao tribunal da Juiza Judy. E assinarão um documento dizendo que concordam que ela seja a árbitra na solução legal do caso e que a decisão será final, sem direito de recorrer à instâncias judiciais superiores. Também autorizam a utilização de suas imagens e são orientados a trazer documentos, testemunhas e evidências que possam provar a veracidade de suas alegações e permitir à Juíza Judy tomar a decisão certa.

Aparece de tudo lá: mulheres querendo de volta presentes dados durante relacionamentos amorosos terminados, disputas sobre a paternidade de crianças, brigas entre vizinhos, problemas no trânsito, noivos processando fotógrafos porque bateram fotos ruins no dia do casamento, e o que mais você puder imaginar. No website existe um arquivo com os casos que deram maior audiência ou polêmica, assim como pequenos vídeos com as opiniões e dicas da Juíza Judy.

Embora ela seja rude, irada, impaciente e sem nenhuma trava na língua, eu gosto dela porque me parece ser uma pessoa justa, que detesta burrice e perda de tempo com coisas idiotas ou sem real significância. Fatores que justamente atraem tantas pessoas para os outros tipos de reality shows nos Estados Unidos e no resto do mundo.