A Gazeta do Rio de Janeiro em tempo real

A Gazeta do Rio de Janeiro em tempo real

Atualizado em 08/09/2008 às 13:09, por Nelson Varón Cadena.

Em 10 de setembro de 1808, duzentos anos a serem transcorridos neste terça feira, o General Junot, comandante das forças de Napoleão em Portugal, às pressas reunia os seus cavalos, peças de artilharia, bagagens, bens saqueados durante a invasão e provisões para o viagem de volta; juntava os seus homens, alguns maltrapilhos e feridos, para deixar definitivamente o país na quinta feira seguinte (15/09/1808), conforme acordará no tratado de Cintra, documento de capitulação assinado entre ele Junot e o comandante da resistência o General inglês Hew Dalrymple. Portugal reconquistara a autonomia de seu território.

Do outro lado do oceano a Gazeta do Rio de Janeiro distribuída pelo livreiro Paulo Martins estreava na imprensa brasileira, primeiro jornal editado e impresso no país, mas a noticia de capa não era evidentemente a "rendição" dos franceses e sim o avanço das tropas francesas que estavam na Itália rumo à Espanha, os focos de resistência dos espanhóis, boatos sobre um corsário francês que estaria a invadir o Pará ou o Maranhão para se abastecer de alimentos e ainda as ameaças de confisco a navios americanos nas rotas marítimas controladas por Napoleão. Nem uma linha sobre Portugal e muito menos sobre o a nova sede da Corte, nas Américas.

As fontes
Os brasileiros só ficariam sabendo do tempo real (a reconquista de Portugal e expulsão dos franceses) em 23 de novembro (edição número 21), ou seja, 73 dias após o lançamento da Gazeta; noticias que vieram num bergantim espanhol procedente de Gibraltar: 'os franceses evacuaram Lisboa". Na edição de 30/11 transcrevia noticias do "O Leal Português" suplemento da Gazeta do Porto: "No dia 08 do corrente entraram os nossos exércitos em Lisboa", e somente em 03 /12 (edição número 24) é que noticiava os termos da capitulação, ou acordo de Cintra, celebrado em 30/08/1808 e que no papel representava o fim da invasão lusa e a retomada de seu território.

Nos três meses em que o tempo real esteve para acontecer (entre o fato e o conhecimento do fato) a Gazeta do Rio de Janeiro nada noticiou sobre a capital do país, nenhum acontecimento local; indícios apenas da vida comercial da cidade e o movimento portuário, através dos anúncios. Todo o conteúdo era voltado para a corte, noticias que diziam respeito unicamente aos portugueses recém estabelecidos no Rio: noticias da guerra na Europa e somente esse assunto, através de fontes que iam dos relatos orais, passando pelas correspondências e noticias extraídas da Gazeta do Porto, O Leal Português, Gazeta Extraordinária de Zaragoza, Gazeta de Madrid, Lê Moniteur, Gazeta de Coimbra e a Haardem Gazette de Amsterdã.

Primeira notícia local
Apenas na sua edição natalina de 24/12/2008 a Gazeta do Rio de Janeiro publica um tema local, assim mesmo restrito à corte: narra as comemorações pela vitória com iluminação especial na cidade, tríduo na capela real, fogos de artifício, procissão solene pelas ruas e o te-déum de ação de graças. No mais, a cobertura dos acontecimentos da Europa continua a ser a prioridade. Então fica caracterizado que nos seus primórdios a Gazeta Do Rio de Janeiro era um jornal editado e impresso no Brasil, mas feito para os portugueses, aqui residentes (o seu público alvo), não por opção própria, mas pelas circunstâncias da fuga na comitiva real.

Se o cidadão português era o público alvo não tem o menor sentido a tese disseminada por alguns historiadores de que a Gazeta apenas publicava noticias favoráveis à Corte. Não é verdade. Certamente eles não leram a Gazeta e apenas interpretaram a seu modo o rotulo de "áulico" que Nelson Werneck Sodré impôs ao jornal. A leitura das primeiras 50 edições nos revela um periódico que não tem noticias nem favoráveis, nem desfavoráveis à Corte e muito menos, como já foi argumentado, contra o povo. Estava se lixando para ele que não era o seu público e não era noticia.

A Gazeta apenas se esforçava, nessa sua fase inicial, em aproximar o tempo real para seus leitores e assim atender a demanda e saudade de um público ansioso pela paz e segurança da Europa, através de noticias que lhe facilitassem essa compreensão. O público da Gazeta do Rio de Janeiro lia o jornal dos trópicos, não tinha outra alternativa. Mas suspirava e desejava, mesmo, o vento outonal de fim de tarde, de preferência numa varanda que lhe permitisse observar de longe o Convento de Mafra e as Torres Vedras.