A febre da revenda de seguros de vida pós crise

A febre da revenda de seguros de vida pós crise

Atualizado em 07/10/2009 às 11:10, por Silvia Dutra.

Wall Street não aprende mesmo. Ou a ganância dos investidores americanos ainda vai levar não só o País, mas muita gente para a cova.

Deu ontem no programa "World News", do respeitado jornalista Charles Gibson, que um novo e bizarro tipo de investimento está movimentando o mercado e preocupando gente mais cautelosa. Tem até quem ache que já está sendo preparada uma nova grande crise econômica - a exemplo do que aconteceu com o mercado imobiliário e a compra e venda de hipotecas - que quebrou vários bancos e instituições financeiras e o Governo Federal teve que injetar 700 bilhões de dólares para o sistema todo não ruir de vez.

Trata-se da compra e venda de seguros de vida. Funciona assim. Digamos que John Patolino tenha feito um seguro de vida no valor de um milhão de dólares, a ser pago para sua família no caso dele morrer, num período, digamos, de cinco anos. Por esse seguro, ele paga todo mês em torno de 50 dólares. Mas, devido à crise atual, John perdeu o emprego e está endividado. Então, ele prefere gastar esses 50 dólares mensais comprando comida. Quando o banco oferece a Mr. Patolino 100 mil dólares por uma apólice que "teoricamente" vale um milhão, ele acha que é um bom negócio e vende.

Como há milhares de Johns Patolinos no País atualmente, o banco compra várias apólices, faz um pacote e revende o "produto" para outros bancos ou grupos de investidores, lucrando alguma coisa com isso, evidentemente. Quem compra é obrigado a continuar pagando para a seguradora da apólice o custo da mensalidade, apostando que o sujeito que fez o seguro vai morrer durante o período de validade do contrato. A única maneira do investidor recuperar o dinheiro gasto e ganhar alguma coisa (no caso, um milhão de dólares) é o John Patolino que comprou a apólice morrer.

Não precisa ser nenhum gênio para intuir que tem algo de muito errado nisso tudo. Moralmente errado. E que a ganância de quem compra e vende esse "produto" vai colocar muitos outros (especialmente idosos ou pessoas com doenças terminais) numa situação ainda mais desvantajosa. É quase certo que esses investidores vão contratar ainda mais lobistas para influenciar legisladores a não aprovar mudanças no combalido sistema de saúde pública.

Médicos e enfermeiros não muito éticos podem passar a ganhar dinheiro e "comissões" não se esforçando tanto quanto deveriam para salvar a vida de alguém. Sem contar que até mesmo o crime organizado pode vir a se beneficiar disso. Assassinos de aluguel podem até começar a explorar esse novo nicho no mercado: matar os Johns Patolinos que venderam as apólices para que os investidores entrem de posse do seguro. E se isso acontecer, todo mundo vai virar um alvo em potencial.

Aqui qualquer um pode fazer um seguro sobre a vida de qualquer outra pessoa, mesmo sem o consentimento ou conhecimento desta. Até mesmo empresas - como as gigantes Wal-Mart , Citibank, Bank of América, AT&T, General Motors - fazem seguros sobre a vida de seus funcionários, mesmo daqueles em posições mais humildes. Se o funcionário morrer (acidente, doença ou causas naturais), a empresa recolhe o seguro e não repassa o benefício para a família do finado, sequer ajuda com as despesas do funeral. E tudo isso é permitido por leis, embora, na maioria dos casos, os funcionários e suas famílias não tenham conhecimento disso.

Num país que se escandaliza com casos extra-conjugais de presidentes (Clinton) e jornalistas (David Letterman), que até recentemente não permitia a pesquisa com células tronco, onde médicos são mortos a tiros porque fazem abortos em mulheres que decidem não levar adiante uma gravidez, e racistas e incitadores de violência e tensões raciais e sociais como os membros da Ku Klux Klan têm todo o direito de professar suas crenças, notícias como essa não deveriam causar espanto. Mas causam, ao menos para mim.