A endêmica corrupção no Brasil/Por Cássia Valadão - Rio de Janeiro/RJ
A endêmica corrupção no Brasil/Por Cássia Valadão - Rio de Janeiro/RJ
Um doce para aquele que encontrar a mais nobre diferença entre a relação dos políticos brasileiros com o empresariado e a da polícia com o crime organizado.É lamentável o quão desconsolado ficará ao perceber que muito vai ter que refletir sobre esse desafio.Assim sendo, vou poupar-lhe tempo. Aí vai a resposta, caro compatriota indignado: na segunda composição, ainda falta um homem-bomba. Onde estará o Roberto Jefferson que poderá denunciar o inescrupuloso diálogo em que se baseia o relacionamento entre os bandidos e aqueles de quem se espera proteção.Infelizmente, uma simples cidadã como Dona Vitória, esperançosa por corrigir algumas dessas mazelas incrementadas pela corrente da incredulidade e da corrupção, não ganha a relevância do cassado deputado.
Bem devagarzinho, algumas cartas vão sendo colocadas pra fora do baralho.Afinal, não adianta mais tentar esconder o jogo, pois já estamos aprendendo suas regras. A nós, cidadãos de bem, são impostas as sandálias da humildade, por medo da covardia tantas vezes testemunhada.
Os moradores das comunidades atormentadas pela ingerência do tráfico conhecem bem as leis e as caras dos chefões aos quais estão sujeitos. Como acreditar que a polícia, que está muitas vezes inserida nessas comunidades, não reconhece o rosto do malfeitor ou não sabe o paradeiro dele. O problema é que, tal qual a Câmara dos Deputados, como disse o parlamentar Babá, não se age de acordo com a vontade do povo, mas contra ele. Como explicar o fato de Soul, que é o responsável pela contabilidade do esquema comandado por Bem-Te-Vi, o traficante mais "procurado" do Rio, caminhar tranqüilamente pelas areias da praia de Copacabana durante o show do Lenny Kravitz? E o pior é que após ser abordado por um policial e ter seus documentos checados o bandido foi liberado. Na verdade, Soul foi ignorado, como se fosse uma lenda.
Desse jeito, perdoem-me os que são dignos da farda que vestem, não vejo maneira mais adequada que a de recorrer a uma citação feita pelo homem-bomba de Brasília. Segundo Roberto Jefferson, o deputado José Dirceu teria tratado o Congresso como um prostíbulo, ao comparar a atuação do poderoso petista com a da suposta cafetina Jeane Mary Corner. É isso!!! Os cafetões à frente da polícia, acobertados por seus uniformes, têm vendido a nossa segurança em troca de regalos. Isso quando não temem pela própria segurança, como informam os moradores do Complexo da Maré, conjunto de favelas na zona norte do Rio.De acordo com eles, os soldados do 22º BPM, o batalhão blindado que foi instalado dentro da comunidade, se recolhem depois que o sol se põe. E assim, o que na inauguração foi saudado como marco da segurança pública contabilizou apenas pequenos progressos nas estatísticas. Outra prova do poder imposto pelo tráfico foi a ligeira saída do senador Eduardo Suplicy, durante uma visita feita à Maré, quando rajada de tiros advertiram sobre o respeito ao toque de recolher.
Agora, o secretário de Segurança Pública Marcelo Itagiba está prometendo para o final do ano a implantação de um batalhão próprio para a Rocinha, que vem sendo o foco de atuação da polícia carioca devido aos freqüentes conflitos entre os traficantes da comunidade e do Vidigal. Segundo o presidente de uma das três associações de moradores da Rocinha, Sebastião José Filho, o Tião, o que se pretende é resolver a questão de forma imediatista para a próxima eleição. Ele esclarece que a comunidade prefere a construção de uma escola politécnica e teme que seja investido dinheiro para nada. Já Marcelo Itagiba acredita que o batalhão trará mais segurança e um conseqüente desenvolvimento para a população local.
Vamos, então, ficar na torcida para que esse projeto não acabe em pizza. Mais uma vez, ficou impossível não fazer referência à atual situação política, onde calhamaços de papéis e de depoimentos têm sido colhidos, sem ainda apresentar resultados satisfatórios. Aliás, nem cabe mais continuarmos fazendo a comparação de algo tão saboroso com coisas tão difíceis de serem digeridas. O desfecho mais apropriado seria, aí sim, estrume pra todos os lados. Só nos resta a esperança, mesmo que a denúncia venha do inimigo. Isso porque, acreditem, já tem bandido acuado trocando as armas pelas câmeras. O expediente agora é flagrar casos de violência contra os moradores e o recebimento de propina pela polícia. Trata-se da nova estratégia de traficantes da Favela da Coréia, em Senador Câmara, zona oeste do Rio.Uma fita em que policiais do 14ºBPM(Bangu) aparecem recebendo propina de traficantes vem sendo utilizada como poderoso instrumento para suspender as operações naquela área. Parece o apocalipse, mas é a nossa mais cruel realidade.






