A comunicação interna em tempo de Big Brother
A comunicação interna em tempo de Big Brother
Atualizado em 30/03/2010 às 19:03, por
Wilson da Costa Bueno.
Você pode até não acreditar, mas já há empresa oferecendo sistema de vigilância para monitorar a conversa de funcionários nas empresas. Você pode achar absurdo, mas existe assessoria de imprensa distribuindo pauta saudando este fato e tentando vender pauta com este teor para a imprensa. Você pode se arrepiar, mas há pelo menos uma empresa que já aderiu ao sistema e que se gaba de ter punido funcionário que foi pego fazendo fofoca.
Pois é. Release distribuído no último dia 25 de março, às 15:17 horas, pela Capital Informação, com o título Fofoca no ambiente de trabalho vira alvo de câmeras de vigilância, e que tem como objetivo vender o sistema de vigilância da Imagica, dispara logo no "lead": "Boato, leva-e-traz, diz-que-me-disse, conversa de corredor amada por muitos e condenada por todos os especialistas em gestão de carreira, a boa e velha fofoca está na mira das câmeras de vigilância".
O release dá exemplo, cita o case bem sucedido da rede de lojas femininas Viva Allegra e tem a pretensão de fazer inúmeros negócios junto a empresas que, a meu ver, advogam, dinossauricamente, a tese de que a comunicação interpessoal deva merecer monitoramento interno nas organizações. Ou seja, que a Rádio Peão é mesmo coisa do capeta e que os funcionários devem ser vigiados permanentemente porque, em tese, estão dispostos a liquidar com as empresas.
A meu ver, a notícia, o case, o release representam aberrações inaceitáveis na comunicação interna mas se afinam, infelizmente, com o processo de gestão de pessoas praticado em boa parte das organizações brasileiras, aquela visão ultrapassada do RH como controle de pessoal. Trata-se efetivamente do Big Brother organizacional que visa constranger os públicos internos como se eles fossem, em princípio, adversários e não parceiros das organizações.
O release é contundente e avança nas justificativas: "no começo, os funcionários estranharam um pouco a idéia. Ficou aquele clima de 'será que não confiam em nós"?, diz Estela (uma das proprietárias da rede). "Mas resolvemos tudo com transparência. Não tem nada de câmera escondida: todo mundo sabe onde as câmeras estão instaladas", explica a proprietária da rede."
É isso aí: transparência agora é confundida com constrangimento explícito e que não permite discussão. Não tem nada escondido: existem câmeras (são 13, segundo o release) e elas vêem e gravam tudo; logo na Viva Allegra nada passa batido, o que o funcionário faz ou fala é integralmente registrado e quem não anda na linha vai ter que ajoelhar no milho. Vai ver que é um exemplo moderno de "democracia interna"!
Estamos assistindo, infelizmente, um retrocesso formidável na gestão de pessoas em nosso País e é preciso rediscutir profundamente o que anda acontecendo, com o uso das modernas tecnologias disponíveis, para inibir aqueles que divergem das chefias, pensam de maneira diferente ou ousam fazer, como insinua o lead do release infeliz, "a boa e velha fofoca".
A comunicação interna em nossas organizações é, de longe, o seu problema maior, exatamente porque chefias autoritárias e incompetentes, culturas organizacionais que pararam no tempo continuam acreditando que a gestão de pessoas tem a ver com o constrangimento, o assédio moral, a invasão da privacidade, agora potencializados pelo dedodurismo digital.
Evidentemente, muitas organizações (ainda bem) repudiariam este "reality show" da comunicação interna , tanto que muitos profissionais de administração e de comunicação consultados também se arrepiaram com a notícia, alguns inclusive imaginando tratar-se de uma brincadeira sem gosto até terem acesso direto ao release da Capital Informação.
Organizações com chefias autoritárias, sem liderança, demonizam verdadeiramente a Rádio Peão (termo pejorativo que ganhou corpo na época da ditadura) porque, pisando no próprio rabo, creditam aos outros (Sindicatos, funcionários mal intencionados etc) as suas próprias mazelas, a sua própria incompetência em gestão.
A moderna comunicação interna dispensa câmeras de vigilância e privilegia o diálogo, valoriza a liberdade com responsabilidade, encara a divergência com naturalidade e assume, inclusive, que as chefias não são os donos da verdade.
A moderna comunicação interna não contempla o dedodurismo como forma de resolver conflitos, não acredita que todos devam ser submetidos ao constrangimento de serem monitorados em função dos desvios funcionais de uns poucos, parte do pressuposto de que os públicos internos são parceiros e que (até porque foram bem recrutados) têm um perfil que está sintonizado com os valores e a missão das organizações.
A moderna comunicação interna exige respeito recíproco, confiança, não deve ser formatada para punir desvios, mas para estimular a participação, a integração, para promover a responsabilidade, para criar um clima interno saudável.
Não tenho dúvida de que a Imagica, com este apelo, poderá vender inúmeros sistemas de vigilância (reconhecemos que há empresas aos montes com esse perfil "bigbrother"), mas isso não significa que se possa aceitar impunemente esta visão ultrapassada de gestão de pessoas e de comunicação interna.
Fica a sugestão apenas para que as empresas que adotam (ou vierem a adotar este sistema) divulguem abertamente (isto é transparência!) para possíveis candidatos a um emprego que com elas é assim: todo mundo aqui é vigiado, tudo que se fala aqui é gravado e aí de quem fizer fofoca ou divergir da empresa.
É de se lamentar o fato de que ainda existam assessorias de imprensa que divulgam releases com este teor, pretendendo com ele plantar pautas positivas na imprensa para seus clientes (embora até admitamos que, com os veículos que temos, isso possa acontecer). Certamente, acreditam e concordam com o que estão veiculando ou então são adeptas da tese de que "a gente faz aqui o que o cliente manda", e que essa é uma postura profissional.
Aos clientes da Viva Allegra, um consolo, conforme indica o release: "não tem nenhuma câmera na área dos provadores". Puxa, ainda bem.
E ficou uma dúvida: não há câmeras de vigilância nos banheiros? Se não há, o sistema é bastante vulnerável e é importante que a empresa repense a amplitude do sistema instalado. Você sabia que as melhores fofocas acontecem nos banheiros? Então, tem uma falha aí, gente.
E você que nos lê: o que acha deste sistema na sua empresa? Será que os sindicatos concordam com ele? Você trabalharia numa empresa que vigia e grava tudo o que fala e faz?
Dá até medo: do jeito que as coisas andam, é capaz de esta transparência toda ser contemplada com um prêmio de comunicação empresarial ou de RH. Pois até o péssimo sistema de gerenciamento de crise do Consórcio Via Amarela (continua até hoje levando pau da imprensa pelo buracão no Metrô que matou ou penalizou dezenas de pessoas) não ganhou destaque como case na revista de uma entidade da área de Comunicação Empresarial?
Em tempo: quem quiser adotar o sistema, não pode ignorar a opinião da Viva Allegra: "sentimos que a produtividade dos funcionários também aumentou. Eles tomam mais cuidado com o que fazem e falam, o que significa um atendimento melhor para os clientes".
As empresas têm o sistema de monitoramento por câmeras que merecem. Você é que precisa decidir se vai trabalhar numa delas. Sabia que elas até registram o tempo que você fica no banheiro? Muita atenção, portanto: ande sempre muito rápido e deixe as coisas mais demoradas para fora do expediente. Ou leve a dor de barriga para casa. Imagino que lá, pelo menos, não tem câmera de vídeo instalada. Se tiver, avisa a gente: não irei jamais visitar você. Há certas situações que prefiro não compartilhar com ninguém.
Apesar da minha indignação com o fato e o release, meu respeito à Capital Informação, à Imagica e à Viva Allegra. As empresas e as assessorias têm o direito de acreditar e de praticar o que julgam melhor para elas e para seus clientes. A divergência é fundamental. Aprendi a conviver com ela e nunca usarei câmeras de vigilância para identificar e punir quem pensa de forma diferente. Acredito (vai ver que estou errado) que esta é uma postura democrática.
Quem quiser o release, basta entrar em contato. Uma peça formidável de relacionamento com a imprensa.

Pois é. Release distribuído no último dia 25 de março, às 15:17 horas, pela Capital Informação, com o título Fofoca no ambiente de trabalho vira alvo de câmeras de vigilância, e que tem como objetivo vender o sistema de vigilância da Imagica, dispara logo no "lead": "Boato, leva-e-traz, diz-que-me-disse, conversa de corredor amada por muitos e condenada por todos os especialistas em gestão de carreira, a boa e velha fofoca está na mira das câmeras de vigilância".
O release dá exemplo, cita o case bem sucedido da rede de lojas femininas Viva Allegra e tem a pretensão de fazer inúmeros negócios junto a empresas que, a meu ver, advogam, dinossauricamente, a tese de que a comunicação interpessoal deva merecer monitoramento interno nas organizações. Ou seja, que a Rádio Peão é mesmo coisa do capeta e que os funcionários devem ser vigiados permanentemente porque, em tese, estão dispostos a liquidar com as empresas.
A meu ver, a notícia, o case, o release representam aberrações inaceitáveis na comunicação interna mas se afinam, infelizmente, com o processo de gestão de pessoas praticado em boa parte das organizações brasileiras, aquela visão ultrapassada do RH como controle de pessoal. Trata-se efetivamente do Big Brother organizacional que visa constranger os públicos internos como se eles fossem, em princípio, adversários e não parceiros das organizações.
O release é contundente e avança nas justificativas: "no começo, os funcionários estranharam um pouco a idéia. Ficou aquele clima de 'será que não confiam em nós"?, diz Estela (uma das proprietárias da rede). "Mas resolvemos tudo com transparência. Não tem nada de câmera escondida: todo mundo sabe onde as câmeras estão instaladas", explica a proprietária da rede."
É isso aí: transparência agora é confundida com constrangimento explícito e que não permite discussão. Não tem nada escondido: existem câmeras (são 13, segundo o release) e elas vêem e gravam tudo; logo na Viva Allegra nada passa batido, o que o funcionário faz ou fala é integralmente registrado e quem não anda na linha vai ter que ajoelhar no milho. Vai ver que é um exemplo moderno de "democracia interna"!
Estamos assistindo, infelizmente, um retrocesso formidável na gestão de pessoas em nosso País e é preciso rediscutir profundamente o que anda acontecendo, com o uso das modernas tecnologias disponíveis, para inibir aqueles que divergem das chefias, pensam de maneira diferente ou ousam fazer, como insinua o lead do release infeliz, "a boa e velha fofoca".
A comunicação interna em nossas organizações é, de longe, o seu problema maior, exatamente porque chefias autoritárias e incompetentes, culturas organizacionais que pararam no tempo continuam acreditando que a gestão de pessoas tem a ver com o constrangimento, o assédio moral, a invasão da privacidade, agora potencializados pelo dedodurismo digital.
Evidentemente, muitas organizações (ainda bem) repudiariam este "reality show" da comunicação interna , tanto que muitos profissionais de administração e de comunicação consultados também se arrepiaram com a notícia, alguns inclusive imaginando tratar-se de uma brincadeira sem gosto até terem acesso direto ao release da Capital Informação.
Organizações com chefias autoritárias, sem liderança, demonizam verdadeiramente a Rádio Peão (termo pejorativo que ganhou corpo na época da ditadura) porque, pisando no próprio rabo, creditam aos outros (Sindicatos, funcionários mal intencionados etc) as suas próprias mazelas, a sua própria incompetência em gestão.
A moderna comunicação interna dispensa câmeras de vigilância e privilegia o diálogo, valoriza a liberdade com responsabilidade, encara a divergência com naturalidade e assume, inclusive, que as chefias não são os donos da verdade.
A moderna comunicação interna não contempla o dedodurismo como forma de resolver conflitos, não acredita que todos devam ser submetidos ao constrangimento de serem monitorados em função dos desvios funcionais de uns poucos, parte do pressuposto de que os públicos internos são parceiros e que (até porque foram bem recrutados) têm um perfil que está sintonizado com os valores e a missão das organizações.
A moderna comunicação interna exige respeito recíproco, confiança, não deve ser formatada para punir desvios, mas para estimular a participação, a integração, para promover a responsabilidade, para criar um clima interno saudável.
Não tenho dúvida de que a Imagica, com este apelo, poderá vender inúmeros sistemas de vigilância (reconhecemos que há empresas aos montes com esse perfil "bigbrother"), mas isso não significa que se possa aceitar impunemente esta visão ultrapassada de gestão de pessoas e de comunicação interna.
Fica a sugestão apenas para que as empresas que adotam (ou vierem a adotar este sistema) divulguem abertamente (isto é transparência!) para possíveis candidatos a um emprego que com elas é assim: todo mundo aqui é vigiado, tudo que se fala aqui é gravado e aí de quem fizer fofoca ou divergir da empresa.
É de se lamentar o fato de que ainda existam assessorias de imprensa que divulgam releases com este teor, pretendendo com ele plantar pautas positivas na imprensa para seus clientes (embora até admitamos que, com os veículos que temos, isso possa acontecer). Certamente, acreditam e concordam com o que estão veiculando ou então são adeptas da tese de que "a gente faz aqui o que o cliente manda", e que essa é uma postura profissional.
Aos clientes da Viva Allegra, um consolo, conforme indica o release: "não tem nenhuma câmera na área dos provadores". Puxa, ainda bem.
E ficou uma dúvida: não há câmeras de vigilância nos banheiros? Se não há, o sistema é bastante vulnerável e é importante que a empresa repense a amplitude do sistema instalado. Você sabia que as melhores fofocas acontecem nos banheiros? Então, tem uma falha aí, gente.
E você que nos lê: o que acha deste sistema na sua empresa? Será que os sindicatos concordam com ele? Você trabalharia numa empresa que vigia e grava tudo o que fala e faz?
Dá até medo: do jeito que as coisas andam, é capaz de esta transparência toda ser contemplada com um prêmio de comunicação empresarial ou de RH. Pois até o péssimo sistema de gerenciamento de crise do Consórcio Via Amarela (continua até hoje levando pau da imprensa pelo buracão no Metrô que matou ou penalizou dezenas de pessoas) não ganhou destaque como case na revista de uma entidade da área de Comunicação Empresarial?
Em tempo: quem quiser adotar o sistema, não pode ignorar a opinião da Viva Allegra: "sentimos que a produtividade dos funcionários também aumentou. Eles tomam mais cuidado com o que fazem e falam, o que significa um atendimento melhor para os clientes".
As empresas têm o sistema de monitoramento por câmeras que merecem. Você é que precisa decidir se vai trabalhar numa delas. Sabia que elas até registram o tempo que você fica no banheiro? Muita atenção, portanto: ande sempre muito rápido e deixe as coisas mais demoradas para fora do expediente. Ou leve a dor de barriga para casa. Imagino que lá, pelo menos, não tem câmera de vídeo instalada. Se tiver, avisa a gente: não irei jamais visitar você. Há certas situações que prefiro não compartilhar com ninguém.
Apesar da minha indignação com o fato e o release, meu respeito à Capital Informação, à Imagica e à Viva Allegra. As empresas e as assessorias têm o direito de acreditar e de praticar o que julgam melhor para elas e para seus clientes. A divergência é fundamental. Aprendi a conviver com ela e nunca usarei câmeras de vigilância para identificar e punir quem pensa de forma diferente. Acredito (vai ver que estou errado) que esta é uma postura democrática.
Quem quiser o release, basta entrar em contato. Uma peça formidável de relacionamento com a imprensa.






