A capa de Veja que anunciou o AI5
A capa de Veja que anunciou o AI5
A capa de Veja que anunciou o AI5
Em 04 de dezembro de 1968 a recém lançada revista Veja chegava às bancas com dois destaques, além do número aziago (13) da referida edição. De um lado anunciava a estréia de Millor Fernandes apresentado aos leitores por Victor Civita que traçou o seu perfil de humorista, dramaturgo, escritor, roteirista e ainda lhe cedeu duas páginas, além do espaço da seção propriamente dita, para uma autobiografia. Millor apresentava-se, ele próprio, como "um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar". O grande destaque da edição número 13, contudo, era a capa ilustrada com a foto do Congresso vista por um vidro estraçalhado com o instigante título: "O Congresso Pressionado: Chegaremos a isto?".
Chegamos! Nove dias depois, 13 outra vez, o Presidente da República General Artur Costa e Silva promulgava o Ato Institucional número 5, o maior instrumento de arbítrio até então utilizado na história da República, cujo resultado prático foi a suspensão de liberdades individuais, intervenção no judiciário, cassação de mandatos e o fechamento do Congresso por tempo indeterminado. Ou seja, o legislativo estraçalhado, conforme previra a equipe de arte comandada por George Duque Estrada (um dos jornalistas presos no DOI CODI do II Exercito quando do assassinato de Waldir Herzog) na reveladora capa da revista semanal aqui descrita. Nesse contexto de forte repressão Veja logo sofreu as conseqüências com a apreensão de sua edição número 15 que deveria circular em 18 de dezembro, a primeira censura imposta à revista, então dirigida por Mino Carta.
A capa que motivou a apreensão começou a ser preparada na segunda feira com a foto do Papa Paulo VI. Na quinta, diante dos acontecimentos, evoluía para um desenho alusivo à cassação do mandato do deputado Márcio Moreira Alves e na sexta, descartada a ilustração, mudava para uma foto do ex-Presidente Castelo Branco, simbolizando as medidas de exceção. Foi essa capa com o primeiro presidente do ciclo militar que o censor viu e deixou passar para vetar apenas as declarações do político gaúcho Brito Velho. Mas, no sábado Veja mudava novamente a capa selecionando uma foto em preto-e-branco de Costa Silva sentado no plenário vazio no Congresso. O regime encarou-a como uma afronta e já no domingo iniciava a sua apreensão nas bancas.
Mas a capa do Congresso estraçalhado, referida no início deste artigo, também irritara os militares muito mais do que o conteúdo da matéria principal que narrava o impasse entre a situação (Arena) e a oposição (MDB) em torno da abertura de processo contra o deputado Márcio Moreira Alves solicitada pelo Governo, a pedido das Forças Armadas. A matéria detalhava a obstrução regimental comandada por Mario Covas, a visita do Ministro da Justiça Gama e Silva que a oposição julgava tinha o intuito de pressionar o Congresso e ainda mostrava o contraditório do discurso das lideranças da situação afirmando que o Governo "aceitaria tranqüilamente qualquer decisão tomada na Câmara", mas por outro lado revelava a disposição de um ato de força.
"Vice-líderes da Arena garantiam estar já montado o mesmo esquema que funcionou em 1965... e tal como naquela época, um ato institucional, prevendo inclusive cassações", concluía a matéria de Veja que ao mesmo tempo informava o leitor que o Ministro da Justiça, em conversa ao telefone com o Presidente da Câmara José Bonifácio, dissera que "nada haveria contra o Congresso, qualquer que fosse a decisão". A versão oficial desmentia o boato que se configurava como verdade na noite de 12 de dezembro quando a Câmara recusava o processo e no dia seguinte Costa e Silva fechava o Congresso Nacional por tempo indeterminado, reaberto somente um ano depois para "legitimar" a escolha de Emilio Garrastazu Médici como Presidente da República.





