300 anos de fé na romaria da Lapa / Por Abel Dias de Oliveira e Eliana Albuquerque - FTC (BA)

300 anos de fé na romaria da Lapa / Por Abel Dias de Oliveira e Eliana Albuquerque - FTC (BA)

Atualizado em 15/08/2005 às 11:08, por Abel Dias de Oliveira e Eliana Albuquerque e  estudantes de jornalismo da FTC (Itabuna/BA).

O dia mal começa, o sol ainda tímido, os fiéis caminham. Depois de um longo período, a primeira parada é numa sombra onde uma panela é utilizada para preparar comida. No final da tarde, logo quando o sol começava a baixar, a caminhada é retomada e mantida por um longo período.
Para muitos fiéis essa tradição é mantida: caminham cerca de 300 quilômetros até a cidade de Bom Jesus da Lapa onde, anualmente, acontece a peregrinação ao Santuário, considerado o terceiro maior ponto de encontro de fieis da igreja católica no Brasil, perdendo apenas para Aparecida (SP) e Juazeiro do Norte (CE).
A cidade de Bom Jesus da Lapa está localizada no sertão da Bahia, nas margens do Rio São Francisco, distante 800 quilômetros de Salvador e essas festividades acontecem há mais de 300 anos. Tudo começou quando, em 1961, as pessoas passaram a visitar a gruta onde vivia o monge franciscano português Francisco Mendonça Mar, que veio de Lisboa para Salvador no ano de 1659.
Ao tomar conhecimento de que o padre José de Anchieta estava pregando pelo sertão da Bahia, o monge, tocado pelas palavras do evangelho, resolveu seguir em peregrinação pelo sertão, levando consigo uma imagem do Cristo crucificado e uma pequena imagem de Nossa Senhora da Soledade. Foram mais de 1.200 quilômetros na tentativa de encontrar um local ideal para assentar suas imagens, quando avistou um morro de 93 metros de altura e, por uma abertura na pedra, entrou numa gruta. Para ele, lá era o lugar escolhido por Deus, o ideal, onde resolveu ficar e colocar, em uma das grutas, as duas imagens.
Pelo fato de estar vivendo às margens do Rio São Francisco, num lugar recluso e na solidão - segundo a lenda, venerando o Senhor Bom Jesus que morreu na cruz pela salvação de todos e louvando a Virgem da Soledade - acabou atraindo a atenção das pessoas que viviam nas proximidades, que passaram a visitá-lo com freqüência e a ouvi-lo quando fazia sermões e relatos da vida de Jesus.
Passado um período de 11 anos, Francisco foi chamado a Salvador pelo Arcebispo da Bahia, Dom Sebastião, para ser preparado para ser padre e dar continuidade de seu apostolado. A partir daí ficou conhecido com padre Francisco da Soledade, em honra a virgem Maria.
Fundou um hospital-asilo onde cuidava de doentes, pobres e desamparados. Morreu com 65 anos e foi sepultado na gruta, aos pés de do Bom Jesus, onde passou a vida em oração e penitência.
A vida de Francisco e a certeza que sua missão era criar um santuário de Bom Jesus na região mais pobre do Brasil - o Nordeste - fizeram com que as visitas se tornassem a cada ano mais freqüentes, até que os fieis passaram a organizar romarias, culminando nessa festa que, 300 anos depois, reúne romeiros de várias partes do País e é uma das maiores do país.

A INDÚSTRIA RELIGIOSA

Embora muitos ainda mantenham a velha tradição de caminhar até os santuários de Bom Jesus da Lapa, outros chegam até lá em caminhões (velhos paus-de-arara proibidos há décadas), ônibus fretados, carros, carroças e até aviões. O publico é diversificado e se, na sua maioria, está lá movido pela fé, há outros que para lá se dirigem por razões nada religiosos como o livre comércio de produtos (religiosos ou não), muita bebida, festas, prostituição e outros itens que fariam o padre Francisco tremer.
O que era apenas a manifestação da fé religiosa, transformou-se em verdadeira indústria que envolve comércio, turismo e lazer, movimentando milhões de reais e envolvendo quase um milhão de pessoas.
Para a pequena Bom Jesus da Lapa, cidade com menos de 38 mil habitantes (dados do último censo do IBGE), a romaria representa a mudança radical de hábitos. As pacatas ruas da cidade viram palco para a festa; casas de família são alugadas por valores inesperados como R$ 600,00 por três dias; moradores se transformam em guias para romeiros e visitantes e cada coisa adquire um valor próprio e inexistente no cotidiano da cidade. Durante uma semana, Bom Jesus da Lapa vira, toda ela, uma grande atração turística. Segundo dados do reitor do santuário, padre Casimiro Malolepszy, este ano eram esperadas 100 mil pessoas, mas este número chegou perto de 1 milhão.
Para Joelma Sá, comerciante de roupas, a festa da Lapa é o momento em que ganha mais dinheiro durante todo o ano, superando até mesmo as festas natalinas. Para chegar à cidade, ela percorreu mais de mil quilômetros carregada de mercadorias, mas garante que valeu a pena. Vendeu praticamente tudo.
O mesmo diz Joaquim Silvério dos Santos, morador de Campina Grande (PB), que se desloca todos os anos para a Lapa. Além de pagar promessas para toda a família (ele sempre vai sozinho), ainda leva mercadorias diversas, como redes, sacolas e até espelhos, que são vendidos nos três primeiros dias da festa. Segundo ele, daí em diante acaba o trabalho e começa a obrigação religiosa: vai às grutas, visita o Santuário e reza por todos que ficaram na Paraíba.
Márcia Olinda da Silva, andou ainda mais para vender bijuterias e confecções: veio de Divinópolis (MG), mas já no meio da semana havia vendido tudo. Segundo ela, só ai iria se dedicar à fé. Pagaria uma promessa e faria preces pelos amigos e parentes.
Marcionília de Lourdes e Karla Sousa não tiveram tempo de ir ai ao Santuário. Chegaram à cidade no primeiro dia da festa e começaram logo a trabalhar. Prostitutas, ambas afirmam que na semana de festa da Lapa conseguem ganhar mais que em todo o restante do ano, incluindo o carnaval de Salvador, de onde vêm.
Mas não é só o comércio e os negócios que levam pessoas à cidade. De Ilhéus, no sul da Bahia, saem dezenas de ônibus, caminhões e carros particulares e alugados. Ir à Lapa é uma obrigação religiosa para quase 30% da população regional. Nem que seja uma vez na vida, ir à Lapa é mais que uma obrigação, é um sonho.
É essa obrigação que faz a pescadora Noêmia Santos Lima percorrer as estradas do sertão durante dois dias de ida e mais dois de volta, há 14 anos. Ela e a família - mais de 40 pessoas, entre adultos e crianças - alugam um ônibus e passam uma semana entre Ilhéus e a romaria. Na bagagem de ida vai o saco de dormir, agasalhos, a farofa para matar a fome na estrada, bananas, café, biscoitos, muitas velas e pedidos dos amigos que não puderam ir. Anotados em pequenos pedaços de papel, os pedidos são colocados aos pés de Bom Jesus, as velas são acesas e, ela garante, todos são atendidos.
Na bagagem de volta vem a rapadura encomendada sempre pelos vizinhos, a carne do sol, algumas lembrançinhas para os mais próximos e a certeza de que, no próximo ano, estará lá de novo.
O mesmo diz o empresário Marcos Gutemberg, que há 18 anos sai de Feira de Santana (BA). De avião, ele não enfrenta os problemas e riscos das estradas, mas garante que a fé que o movimenta é a mesma. Todo ano reúne a família - mulher, filhos e netos - e ruma para a Lapa. Lá, paga promessas e renova os pedidos. De quebra, compra muitos produtos que, segundo ele, ficam mais baratos que em qualquer outro lugar e época. Volta de "mala cheia e coração leve", afirma.
O fato é que, independente do que direcione as pessoas à Lapa, a cada dia a festa cresce mais e adquire proporções de grande acontecimento turístico no panorama baiano. Tanto assim que, mal acabou a deste ano, os romeiros já começam a se organizar para a festa do próximo ano, que promete ser ainda maior.